Na terça-feira (28), o ministro da Justiça e da Segurança Pública, Flávio Dino, esteve na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados. Ele foi convocado por deputados de oposição interessados nos muitos quiproquós recentes (Maré, 8 de janeiro, CACs) envolvendo Dino – que não é o da Silva Sauro e, suponho, nem tenha senso de humor para rir de uma piada boba como essa.
Como a sessão ocorreu enquanto eu tratava das feridas da minha abjeta hipersensibilidade (nem queira saber!), não consegui acompanhar todo o espetáculo que, tenho certeza, foi divertido para muitos. Afinal, há mau gosto para tudo nessa vida, já dizia alguém. Embora tenha perdido o drama todo, consegui pegar algumas cenas (ou recortes, no jargão contemporâneo) que me ensinaram muitas coisas. Algumas lições são novas; outras têm que ser jogadas todos os dias na lixeira da memória, senão enlouqueço.
A primeira lição que tirei do depoimento de Flávio Dino é bem óbvia. De uma obviedade até ridícula. Tristemente ridícula, digo. Mas que merece registro para a possibilidade remotíssima de alguém, no futuro, vir a se interessar pelo que acontecia no Brasil destas primeiras décadas do século XXI. A lição é: ninguém mais se preocupa com a honestidade intelectual. Honra, então, é um conceito que não faz nem cócegas nos políticos que já não se importam mais em serem respeitados, desde que sua vontade triunfe sobre a vontade dos demais.
E para aqueles que certamente dirão que nunca ninguém se preocupou com essa coisa, que eu sou idiota, ingênuo & otras cositas más, trago um nome, Nelson Rodrigues, e uma crônica, “O Medo de Parecer Idiota”, publicada no jornal O Globo em 1968. No texto, Nelson Rodrigues surpreendentemente fala bem dos intelectuais brasileiros. Que ele compara ao intelectuais europeus. Para o Nelson (olha a intimidade!), os europeus, ao contrário dos brasileiros, já não viam problema algum em passar ridículo, desde que suas ideias (estúpidas) triunfassem. O maior exemplo disso seriam as platitudes pseudoprofundas de Jean-Paul Sartre.
A maior prova de que os políticos brasileiros abandonaram qualquer preocupação com a própria honra, e já não têm nenhum medo de parecerem idiotas, foi a resposta do ministro da Justiça quando lhe perguntaram sobre a visita que ele fez à perigosa Favela da Maré, no Rio de Janeiro. “Sou político há 17 anos (...) e nunca tive problema com o povo pobre”, disse ele. Será que Dino realmente acha que o problema de quem tem medo de entrar numa favela é com o povo pobre? Ou passa esse ridículo apenas para ver suas ideias comunistas, populistas e, agora, sentimentaloides, triunfarem sobre a racionalidade – que sempre tem contornos de frieza?
A política é um diabinho
À medida que escrevo, vou me dando conta de que foram muitas as lições aprendidas ou lembradas graças ao blá-blá-blá de Flávio Dino. Não vai dar tempo de falar de todas, mas aqui está outra: quem está atolado em política, à direita ou à esquerda, sempre encontrará justificativas para seus atos, por mais reprováveis que eles sejam. A política é inimiga da autocrítica. Da percepção, necessária, de que somos falhos e muitas vezes nos apegamos a ideias e sensibilidades falhas, com as quais construímos uma imagem do mundo que raramente condiz com a realidade.
A política é como um diabinho que fica soprando no ouvido da pessoa que ela está sempre certa. Provas empíricas e argumentos racionais não importam se a intuição política diz o contrário. Aqui o desprezo pela honestidade intelectual e pela honra se mistura à soberba, não rara disfarçada de autoestima, de amor próprio e de outros conceitos da moda, sobretudo entre progressistas ateus.
Outra: na política contemporânea não há espaço para certos elementos que, ao longo de séculos, ajudaram a construir essa coisa a que damos o nome de civilização. Como o arrependimento e o perdão (por favor, cliquem nesse link!). Aliás, ouso dizer que o fim da capacidade de perdoar levou ao fim da capacidade de se arrepender. Ou de simplesmente reconhecer o erro. Ninguém jamais aceita confessar as próprias imperfeições se sabe que será defenestrado por conta delas. E aqui, claro, estou me referindo aos erros por descuido, lapso e ignorância; e não aos de má-fé.
Mas a lição mais importante que aprendi assistindo ao que só a muito custo se pode chamar de diálogo entre os deputados e o ministro Flavio Dino foi que, independentemente do que se disser, por mais asinino ou desonesto que seja o discurso, por mais torto que se revele o raciocínio e por mais mal-intencionadas que soem as palavras, sempre haverá alguém para aplaudir. Sempre.
Porque, em nossa época marcada por uma lealdade cada vez mais frágil, baseada em interesses outros que não o amor ao próximo, é praticamente impossível resistir à tentação de fazer parte de um grupo. Qualquer grupo. Um grupo que, sonhamos todos, há de nos ser leal e nos protegerá do salve-se quem puder (apud Gustavo Corção) em que se transformou a democracia liberal.
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