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Sei que hoje é feriado porque é dia de Nossa Senhora Aparecida. Mas o tema do texto é outro. Então. Acordei e tinha uma bicicleta novinha em folha ao lado da minha cama. Uma BMX Monark. Aquela de pneus vermelhos. Com a plaquinha na frente e tudo. Se fiquei feliz? Bota feliz nisso! Tão fácil a felicidade de uma criança. Aí uns meses mais tarde fui descer uma daquelas ladeiras de cascalho do Bairro Alto. No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meu caminho. Meu primeiro contato com a poesia foi dolorido.
Até desmaiei. Acordei na casa simples, muito simples, da família do João Preto. Ficava à beira de um riozinho que era um esgotão. João Preto que vivia bêbado no bar da Jô. Um dia ele me mostrou uns documentos. Dizia que tinha sido pracinha, mas nunca encontrei nenhum registro disso. As filhas dele cuidaram de mim. Quando minha mãe chegou para me buscar, me deu o banho mais dolorido que já tomei na vida. Todo ralado. Ela brigava por causa da bicicleta que nem quebrou nem nada. Só deu uma entortada. Hoje eu rio, mas se você parar pra pensar. Nossa Senhora!
Tenho medo
Sei que está na moda dizer isso, mas fui uma criança esquisita. Não era autista nem nada, só esquisita. Gostava de ler a Enciclopédia Delta Universal. Minha maior diversão era usar a máquina de escrever. Enduro, Ferrorama, Comandos em Ação. O Atari era Dismac. Brincava de morto enterrado vivo. Com a BMX Monark ficava horas e horas (e horas) dando voltas no quintal dos fundos, todo alajotado. Queria mesmo era uma piscina. Gostava de louva-deuses – ainda gosto, mas faz tempo que não vejo um. E vaga-lumes! Também gostava, e gostava muito, era até uma obsessão, de andar no muro.
Nunca quebrei um braço. Tive muito bicho-de-pé. E piolho. Minha maior alegria era receber aquelas revistinhas da Disney. Me lembro bem do pacote verde que continha dois Pato Donalds, um Tio Patinhas e um Almanaque Disney. Uma vez escrevi para a Abril, que publicou meu anúncio. Clube Ajuda-Ajuda. Recebi centenas de cartas. Também percorri o Bairro Alto coletando dinheiro para Carolina Ferri. Por onde ela anda? Com o Fábio também perdi contato (257-1078). Me esqueci de falar do laboratório de química que tínhamos num porão cheio de aranha-marrom. Dois moleques de 10 anos brincando com ácido sulfúrico e nítrico. Com o Estevão mantenho certo contato. Ele me convidou para tomar um café, mas tenho medo. Perdi os cabelos. Ganhei rugas. Envelheci.

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



