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Confesso, um tanto quanto acabrunhado, que é tentador ceder aqui às palavras fáceis seguidas por pontos de exclamação. Inadmissível! Absurdo! Inaceitável!
Confesso, um tanto quanto acabrunhado, que é tentador ceder aqui às palavras fáceis seguidas por pontos de exclamação. Inadmissível! Absurdo! Inaceitável!| Foto: Reprodução/Twitter.

Sexta-feira, fim do dia. Interrompo a leitura de “A Descoberta do Outro”, de Gustavo Corção, para pedir uma pizza. Ao pegar o celular, vejo piscar na tela um convite ao inferno: tenho notificações no WhatsApp. Abandono as esperanças, entro no aplicativo e lá descubro o tema desta minha coluna de segunda-feira.

“Fiquei tão enojado que não consegui ouvir tudo”, me diz aquele que me encaminhou os áudios nos quais o deputado estadual Arthur do Val, mais conhecido como Mamãe Falei, afirma que as ucranianas são fáceis porque são pobres e expressa seu desejo de conquistar beldades entre as refugiadas daquele país em guerra contra a Rússia invasora.

Mas veja só como são as coisas. Primeiro que jornalista é bicho estranho mesmo e está sempre em busca de um ângulo inusitado para a notícia. Se a esse jornalista couber escrever crônicas, tanto pior. Porque o pesadelo do cronista é cair no oceano do olhar comum. Ou, neste caso, no lamaçal da indignação comum. Ao mesmo tempo, o jornalista/cronista sabe que, nesses casos em que a revolta é unânime, propor qualquer coisa que não o óbvio é um risco.

Confesso, um tanto quanto acabrunhado, que é tentador ceder aqui às palavras fáceis seguidas por pontos de exclamação. Inadmissível! Absurdo! Inaceitável! Mas também um tanto acabrunhado confesso que, se for para servir apenas de caixa de ressonância do senso comum, nem vale a pena escrever. E, no mais, tenho cá para mim que a indignação (aquela verdadeira; não a feita para ser exibida nas redes sociais) vai se decompondo à medida que os impropérios, disfarçados de argumentos, são repetidos.

Primado da vontade

Por isso quero propor aos leitores hoje as duas reflexões que me fiz ao longo do fim de semana. A primeira delas tem a ver com o primado da vontade sobre a inteligência e foi inspirado no livro que mencionei no primeiro parágrafo e cuja leitura só não recomendo com mais ênfase porque não quero parecer aquela professorinha chata da 7ª. série.

Para começar, contudo, é preciso estabelecer alguns pressupostos. O primeiro é o de que Arthur do Val era uma figura execrável antes mesmo do Mamãefaleigate. Logo, tudo o que ele fez antes dos áudios está, sim, sendo usado contra ele neste momento. Outra premissa óbvia, mas que se faz necessária aqui: o que Arthur do Val falou nos áudios vazados é imoral porque deixou de ser uma fala à toa num grupo de amigos para se tornar opinião pública. Pior ainda: opinião pública de alguém que, tomado pelo antibolsonarismo psicótico, há pelo menos três anos vive de achincalhar a opinião pública alheia.

Estabelecidos os pressupostos, vamos à citação do trecho de “A Descoberta do Outro”. Ao explorar (nos anos 1940!) o vício em ter razão, Corção fala da onipresença da opinião. Que, para ele, é a forma que a vontade encontrou para subjugar a inteligência. “A opinião é a atitude que o sujeito toma diante do objeto sem que o objeto importe”, escreve ele para, em seguida, associar a opinião à indignação. “Podemos então localizar a ponta da raiz, o fibrilo nervoso onde mora o princípio de uma opinião. Eliminadas as outras partes de nosso interior, sobre aquela que é mais irritável, mais ferida, aquela que vive a esbarrar na limitação incômoda dos objetos: a vontade”.

Para Corção, a vontade (neste caso, entenda-se “vontade” como a necessidade abrupta de satisfazer os desejos mais mesquinhos) nada mais é do que a submissão da inteligência aos sentidos. Daí porque, no caso concreto dos áudios do deputado imoral, a indignação antecede a análise inteligente. Eriçados, os sentidos transbordam e precisam de alguma via de escoamento. Para isso é que servem as redes sociais. E, não à toa, é por isso que o famoso documentário nazista se chama “O Triunfo da Vontade”.

Amigo é coisa pra se guardar…

A outra reflexão que me fiz ao longo do fim de semana diz respeito às amizades. Afinal, que tipo de mundo louco é este em que um “amigo”, por meio da exposição de áudios privados, destrói a vida de outra pessoa e fica por isso mesmo? Será que o “amigo” dorme o sono dos justos porque acredita que a traição, neste caso, fez um bem à Humanidade? Será que o objetivo de eliminar (o verbo é importante) Arthur do Val da vida pública é mais nobre do que a lealdade em que se baseiam as relações entre amigos?

Você pode me chamar de idiota, no sentido dostoievskiano do termo, mas para mim a amizade tem um quê de sagrado. O amigo de verdade é irmão e, aqui e ali, também é anjo da guarda. Teria sido muito mais digno se esse Judas anônimo tentasse fazer com que Arthur do Val percebesse o erro não só de suas palavras, mas sobretudo de sua mentalidade. Por mais que não houvesse emenda pelo discurso. Por mais que o próprio traído fosse, nas palavras de Fédon, uma dessas “almas decaídas e impuras [que] tem a opinião por alimento e não a verdade”.

Porque pensei este texto à beira-mar, fiquei imaginando o que terá feito o traidor ao perceber as consequências de sua traição, isto é, a destruição de alguém (execrável, reprovável, abominável, vil, etc.) com quem mantinha uma relação de proximidade supostamente privilegiada. Será que ele se vê como herói? Será que ele tem consciência do maquiavelismo de sua atitude? Será que percebe que sua traição o torna tão execrável, reprovável, abominável e vil quanto alguém que fez da vida um campo de batalha e que atende pelo apelido ridículo de Mamãe Falei?

Duvido. Afinal, o mais provável é que o amigo-da-onça também tenha por interior um vazio a ser ocupado por essa tirania cotidiana chamada vontade, na qual jaz desconsolada não só a inteligência, como também o próprio amor que permite que ensinemos aquilo que aprendemos com nossos erros.

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