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Nos últimos anos briguei com algumas pessoas da família por causa de política, admito. Mas que atire a primeira pedra quem nunca brigou (e sempre se achando o dono da razão, claro, porque uma coisa quase sempre anda junto da outra). Um exemplo: embora Jair Bolsonaro tenha recebido meus votos nos dois turnos das eleições de 2018 e 2022, houve momentos em que me senti obrigada a dar uns chacoalhões em parentes que o adotaram como político de estimação. Tinha até uma prima que fazia questão de sempre chamá-lo pelo nome completo, enfatizando o “Messias” para justificar seu amor incondicional mesmo quando ele claramente enfiava os pés pelas mãos. Uma bolsominion clássica.
Também briguei, obviamente, com quem vivia dizendo que o Lula é o melhor presidente da história do Brasil, o maior estadista da civilização judaico-cristã ocidental ou simplesmente “o cara” – “my man”, como falou Barack Obama aquela vez. Neste caso, nem é difícil entender meus motivos. O estrago feito por Lula e seus red caps nas últimas duas décadas está aí para quem quiser ver. Mazelas que ele jura que vai consertar em seu quarto mandato. Só que não. Primeiro, porque ele só prospera no lodo e não tem interesse nenhum em consertar nada. Segundo, porque ele não vai ter quarto mandato.
Fervor quase religioso
Foram mais discussões momentâneas do que brigas propriamente ditas, que felizmente não se tornaram inimizades duradouras. Hoje, alguns parentes estão mais distantes, outros menos, mas ninguém virou completamente a cara por causa desta ou daquela paixão (ou mesmo isenção) política. Ao longo do terceiro mandato de Lula, até vi alguns nutrirem a esperança de menos polarização – que viria por meio de um político mais normal, alguém que pudesse ser uma alternativa ao fervor quase religioso de lulistas e bolsonaristas.
Mas não foi desta vez, como bem sabemos. E nem vou tentar explicar essa adoração ao Lula de um lado e ao Bolsonaro-pai de outro, fenômeno que muita gente mais gabaritada do que eu ainda pena para entender. Por ora, me contento em identificar os seis grupos que irão às urnas no dia 25. Os cinco primeiros são óbvios, mas o sexto me intriga e trouxe a inquietação de volta à família nos últimos dias.
Grupos
- Votam no Lula porque painho é o Caminho, a Verdade e a Vida.
- Vão de Flávio porque ele é filho do Jair Messias, talkei?
- Fazem o L porque, sabe como é, temos que zelar pela democracia, votar nos Bolsonaros não dá etc.
- Afundam o dedo no 22 da urna porque Lula, deuzolivre, nem pensar!
- Anulam o voto ou apertam o botãozinho branco para não se sentirem responsáveis pelo que virá (e de um jeito ou de outro virá, podem ter certeza).
- (a) Vão de Flávio, mas já foram Lula; (b) vão de Lula, mas já foram Jair.
Não deixo de admirar o subgrupo 6 (a). Não porque Flávio seja lá aquelas coisas (espero que ele prove que estou errada e faça um grande governo), mas porque não entendo como alguém pode continuar acreditando no Lula depois de tanto nó em pingo d'água para se eternizar no poder. Então, se alguém já foi Lula e agora vai de Flávio, é sinal de que está descontente e não tem medo de mudar de ideia. Coisa rara e bem-vinda.
Vira-casaca
Mas qual não foi a minha surpresa, logo após o primeiro turno, ao ver aquela prima bolsominion lá do começo do texto entrar para o subgrupo 6 (b). Virou lulista fervorosa. Já são horas e horas de postagens nas redes sociais, reproduzindo as fake news mais absurdas que a esquerda já foi capaz de criar, defendendo a “soberania” do Brasil diante dos EUA e fazendo o L com a camisa amarela a mando do Janones. E ainda brigando nos comentários, dizendo que foi às ruas pelas Diretas Já, que pintou a cara para tirar o Collor e que agora vai ajudar o Lula a continuar garantindo a democracia.
Eu poderia brigar com ela de novo, mas não vale a pena. Primeiro, porque essa fase vai passar, já que é resultado não de convicção, mas de influência de companhias e circunstâncias. Segundo, porque ela enfrenta questões pessoais que, se não justificam, pelo menos sugerem os porquês e causam mais compaixão do que raiva. Terceiro, porque duvido que ela irá enfrentar quatro horas de estrada até o local mais próximo de votação (ela não mora no Brasil, esqueci de contar!) para apertar o 13 e confirmar. Ficando ela apenas nos posts e stories, pregando para convertidos, terei mais alguns motivos para rir de nervoso nos próximos dias e nenhuma surpresa a lamentar no dia 25.

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



