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Transformando em crônica heroica o noticiário de cada dia.

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A lição necessária de um faroleiro

FAROL FAROLEIRO
Farol: por mais inútil que pareça, seu trabalho importa. (Foto: Pixabay)

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“Inculcai nas almas o heroísmo de fazer com perfeição as pequenas coisas de cada dia: como se de cada uma dessas ações dependesse a salvação do mundo.”
— São Josemaria Escrivá, Forja, 85

Estou numa fase de faróis. Não, não os de carro. Estou falando daquelas estruturas costeiras ou remotas que serviam para orientar as embarcações, antes do GPS. Aquelas que são atingidas por ondas e rendem belos cartões-postais. Comprei livros. Admirei pinturas e fotografias. Assisti a documentários. E, num deles, produzido pela BBC em 1973, aprendi uma lição necessária, ainda mais nestes tempos de eleição e jornalismo decadente, quando todo mundo está tentando convencer todo mundo a mudar o país e o próximo, de preferência numa tacada só. Tempos revolucionários.

O faroleiro lá, enclausurado. A rotina dele é simples e inegavelmente entediante. O faroleiro vive à base de comida enlatada, anotações inúteis e uma ou outra vistoria para se certificar de que está tudo bem com o farol. Aí ele vai explicar ao entrevistador o que o motiva a realizar o trabalho árduo e solitário de manter o farol funcionando. O salário é que não é. Cito de cabeça e dou uma poetizada, mas ele diz algo como: “Fico feliz em saber que meu trabalho pode ter salvado ao menos uma vida nos navios que passam por aqui e que, ao avistarem o farol, evitam as pedras, o naufrágio e a morte”.

Uma única vida

O faroleiro. Ele jamais terá certeza de que seus gestos burocráticos e sua disciplina militar salvaram realmente alguma vida. Pelo contrário! Ele só terá certeza da utilidade do seu trabalho no dia em que falhar. Isto é, no dia em que deixar de cumprir seu dever e, por isso, uma embarcação se chocar contra as pedras e as pessoas morrerem. O faroleiro cujo ânimo (seria exagero chamar de entusiasmo) se deve totalmente a uma fantasia que apenas muito de leve toca uma realidade na qual os naufrágios raramente ocorrem: a fantasia de que seu trabalho é, de alguma forma, essencial.

Aquilo me pegou. Me puxou pelo colarinho. Me arrastou farol acima, de onde eu avistava embarcações ao longe. Cada qual com milhares de pessoas a bordo, talvez. Sem nenhum perigo de naufragar. Não hoje. E, mesmo assim, é preciso manter acesa a chama e disparar uns estampidos em caso de névoa forte. É preciso suportar a solidão e o tédio porque deles talvez dependa uma única vida, que há de fazer a diferença em outras vidas, que hão de fazer a diferença em tantas mais. Sem garantia de absolutamente nada. Apenas porque é o certo.

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