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Transformando em crônica heroica o noticiário de cada dia.

Saudade

Fiquei sabendo da morte do amigo pela televisão

GENETON MORAES NETO
Geneton: que saudade! (Foto: Reprodução/ TV Brasil (EBC))

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Hoje faz dez anos daquela segunda-feira. Naquele tempo, eu trabalhava como tradutor e estava começando a emergir de uns escombros que nem te conto. E trabalhava do mesmo jeito que hoje em dia: computador no colo e tendo a TV por ruído branco. A TV que ficava ligada na GloboNews, mais por costume do que por interesse. Começou o jornal das 18h. E os olhos azuis de Leilane Neubarth anunciam a morte do meu amigo Geneton Moraes Neto.

Cara, eu chorei. Chorei de uivar. Sabia que o Geneton ainda estava internado, mas, caramba! Tinha falado com ele pelo telefone. Ele parecia melhor. Com seu indisfarçável sotaque, Geneton me contou que chegou consciente ao hospital. “Depois apaguei. Eu podia ter morrido ali”, disse e eu me lembro bem do alívio na voz dele ao constatar que estava vivo. Vivo. Ele queria saber de mim, mas não havia muito a saber. Ao final da ligação fiz algo que não me é característico. Disse que o amava.

Saudade do meu amigo

Na TV, o obituário continuou no Jornal Nacional, do qual Geneton foi editor-executivo. Cargo que ele, repórter por excelência, odiava. William Bonnet o chamou de “Gênio-ton”. E eu chorava porque não sei se ele era mesmo gênio, mas sei que foi uma das pessoas mais generosas que tive a sorte de conhecer. Foi amigo quando mais precisei. Era paciente e tolerante com meus surtos de polzonoffite. Foi pelo exemplo que Geneton me ensinou a ser uma pessoa melhor.

Aí me lembro das reações à morte do amigo. Gente dizendo que ele era comunista. Ou “agente da Globo golpista”. Afinal, eram os idos de 2016. Imaginei a família lendo aquilo e quis pedir desculpas, consolá-los, dizer, contra todas as evidências, que não, a Humanidade não se resumia àqueles comentários nojentos. Naquele dia, perdi um amigo e o mundo perdeu uma risada, um olhar cheio de curiosidade, transbordando curiosidade, e um jeito assim desengonçado de se expressar com as mãos. A generosidade de Geneton faz falta. Saudade do meu amigo.

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