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Unidos sob o termo pejorativo “bolsonarismo”, milhares de cidadãos foram às ruas defender pautas que expressam cansaço e frustração. Por que não ouvi-los?
Unidos sob o termo pejorativo “bolsonarismo”, milhares de cidadãos foram às ruas defender pautas que expressam cansaço e frustração. Por que não ouvi-los?| Foto: Sérgio Limaq AFP

Sábado à tarde. Tenho minha sonequinha sagrada interrompida por buzinas. No começo é uma aqui e outra ali. Baixinho, e com um pé lá e outro cá, praguejo imaginando um improvável engarrafamento na minha rua tranquila. Mas depois ouço o Hino Nacional, buzinas, o Hino da Independência, buzinas, buzinas, buzinas. E uma vizinha que se esgoela na résistance de balcon, gritando “Fora Bolsonaro!”.

Não dá para negar. A manifestação de sábado, dia 1º de maio, foi gigantesca para os padrões da pandemia e da data, que há décadas é feudo da esquerda. Por isso mesmo que, num esforço de reportagem, troquei o pijama, as pantufas e a touquinha por um traje mais aceitável e fui até a esquina ver do que se tratava a manifestação.

E o que vi foi o mesmo bolsonarismo cuja inexistência (!) eu pretendia argumentar num texto natimorto: um monte de pautas difusas que giram em torno de uma noção bastante particular de conservadorismo e que tem na figura de Jair Bolsonaro a personificação transitória de seus anseios.

O problema do termo “bolsonarismo”, aliás, é justamente essa ligação com o homem que ocupa atualmente o Palácio do Planalto. É diferente de “petismo”, embora todos saibam que o petista é necessariamente um “lulista”. A palavra, dita sempre com aquele tom de nojinho arrogante, passa a impressão de que as pessoas que saíram às ruas no 1º de maio seguem cegamente um líder no tocante a tudo isso que tá aí, talquei? Não é bem assim.

Mas essa nem é a questão aqui. A questão aqui é reconhecer como legítimas as demandas (eita jargãozinho feio!) de uma parcela considerável da população que está cansada – e não é de hoje. Cansada de ter sua renda transferida, por força de leis, portarias e sei lá mais o quê, para uma casta de privilegiados. Cansada dos desmandos do STFPT. Cansada de ser xingada por analistas viciados em antagonismo. Cansada da sensação de ter sua vida controlada por meia dúzia de “iluminados”. Cansada.

Diversão para idosos entediados

Essas pessoas nem sempre sabem expressar suas frustrações e muitas vezes enxergam soluções fáceis e mágicas para problemas complexos. Qual o problema disso? A ditadura do operariado, o desenvolvimentismo unicampiano, o sindicalismo (argh), a reforma agrária feita na marra não são também soluções fáceis e mágicas, tornadas legítimas, quando não queridas, apenas porque caíram nas graças do bom-mocismo acadêmico?

Daí em manifestações como a de sábado sempre aparece alguém pedindo intervenção militar, quando não golpe mesmo, A-I5 e o escambau. E todo mundo fica oh! que absurdo! É reprovável? Com certeza. Mas por que não tentar ver nessas pessoas algo que vai muito além da sanha autoritária, do sadismo ou de uma nostalgia infértil? Por que não tentar entender o que as leva a pedir uma saída extrema dessas?

Não, Renan Santos, o 1º de maio não foi “diversão para idosos entediados”. Não, Mariliz, não se trata de uma “seita antidemocrática” que a senhora e a sua turma pretendem varrer da história, não sei se por meio da forca ou do paredão. É gente cansada de ser explorada por quem posa de Robin Hood, mas que adora compartilhar um Romaneé Conti com os ricos – os mesmos ricos progressistas que ele extorque com a conversinha mole de “acabar com as desigualdades sociais”.

Porraqui

Sempre que vejo uns tiozinhos e tiazinhas pedindo intervenção militar, minha reação instintiva também é a de balançar a cabeça negativamente e soltar uma fileira de tsc, tsc, tsc. Mas reconheço que essa minha reação é sobretudo preguiçosa. Dá muito mais trabalho tentar entender o que levou essas pessoas a se frustrarem com a nossa democracia a ponto de preferirem um regime de força e arbítrio.

Outra demanda com a qual pessoalmente não concordo, mas que é legitimíssima, diz respeito às armas. Para quem já foi assaltado ou teve um parente vítima de violência, a questão da autodefesa é primordial. E não adianta vir sociólogo ou estatístico falar que arma não resolve. Para essas pessoas traumatizadas pela violência o que não resolve é a hipocrisia desarmamentista atual.

O bolsonarismo que foi às ruas no 1º de maio tem ainda entre seus valores versões conflitantes de patriotismo e de liberalismo, a defesa da família tradicional e a crença de que o trabalho, e não o parasitismo, é que dignifica o homem. Por que expressar esses valores seria menos digno do que defender a submissão do país ao já mítico Foro de São Paulo, promover golden shower em público ou ainda pedir mais e mais e mais e mais verbas para pagar o salário de doutrinadores, digo, professores? Não é.

Você pode não concordar com essas pautas. Pode até considerá-las produto de uma profunda ignorância política e econômica. Mas meu ponto aqui não é defender ou condenar aqueles que perderam a fé na democracia ou que estão porraqui com o autoritarismo light travestido de ciência nesta pandemia. A questão é reconhecer que essas pessoas, aglutinadas sob o termo pejorativo “bolsonarismo”, têm necessidades e aspirações legítimas que estão sendo ignoradas por um Estado infestado de socialismo.

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