Publicidade
Polzonoff

Polzonoff

Transformando em crônica heroica o noticiário de cada dia.

Literatura

Marmeladov

MARMELADOV
Tive uma experiência quase mística ao me deparar com a figura de Marmeladov nas primeiras páginas de "Crime e Castigo". (Foto: Michail Petrovich Klodt/Domínio Público/ Wikipedia)

Ouça este conteúdo

Não sei o que aconteceu. Não tem explicação e talvez por isso mesmo tenha sido até um milagre. Do nada, fui até a estante e peguei “Crime e Castigo” para ler. Precisa dizer que o autor é o Dostoiévski? Tá bom, eu digo: é do Dostoiévski. Me sentei para ler e, algumas páginas romance adentro, deu um clique. E, quando percebi, estava chorando, chorando mesmo, lágrimas rolando, mulher perguntando se eu estava bem, vergonha, o corpo se sacudindo em soluços, mais choro. Tudo por causa do Marmeladov.

Marmeladov que é, para usar uma terminologia muito cara ao nosso tempo, um loser. Um fracassado. Insuportavelmente humano (ênfase no “insuportavelmente”), só fez escolhas erradas na vida. É patético, no sentido de ser digno de pena. Uma pena, aliás, que ele cobra das pessoas na taverna onde se entrega ao vício. Marmeladov é um lixo de gente. Explora a filha. Impõe sofrimento à mulher. Ri perversamente ao fazer uma observação espertinha. Reconhece-se como loser, como escravo do vício. E age assim contando que será salvo pela misericórdia divina.

Amor (sim, amor!)

E eu ali, antes do choro, virando as páginas e sentindo o nó se formando na garganta. Julgando Marmeladov como se sentisse, através do tempo, seu hálito de cachaça. Ser imprestável! Canalha! Julgo eu, julga você. Julgamos nós Marmeladov. Impossível não julgar. Ora, não acabei de dizer que ele é um loser? E, no entanto, os Marmeladovs da vida estão por aí. Cada qual com sua tristeza, sua miséria e seu vício. O mundo é dos Marmeladovs – tenho vontade de gritar. Só porque eu ando muito numa fase de gritar, não sei se vocês perceberam. Vai que, em meio à eloquência embriagada dos Marmeladovs que nos cercam, alguém me ouve.

Me dou conta, então: em alguma medida, todos somos Marmeladov. Todos somos escravos do nosso orgulho. Assim como Marmeladov, não raro nos entregamos aos nossos vícios. E que se danem as consequências! Nos momentos de desespero, rezamos pedindo alguma coisa. Qualquer coisa. Juramos que vamos mudar. Mas, assim que somos atendidos em nossas súplicas, não raro jogamos tudo para o alto. Voltamos a ser o que éramos. Querendo que sintam pena de nós. Nos afundando mais e mais no erro e a crônica está acabando e não consegui expressar todo o amor (sim, amor!) que no momento sinto pelo repugnante Marmeladov. Ele que sou eu e você.

Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Principais Manchetes

Tudo sobre:

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.