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Mega-Sena acumulada. Setenta milhões. Convertendo, dá uns quinze milhões de dólares. Maine ou Montana? – se pergunta ele pegando o celular para conferir os números sorteados. Ele que nunca joga, que ri de quem faz uma fezinha e que repete por aí que loteria é imposto cobrado de quem não sabe probabilidade. O volante está amassado. E pensar que um pedaço de papel pode valer tanto e pode valer nada. Ele confere o número do sorteio. Tá certo. E agora os números apostados. O primeiro é 08. O segundo é 09. Caramba! Acertei os dois.
Dinheiro não resolve todos os problemas da vida. Mas seria tão bom. Porque, por um lado, daria um pouco de tranquilidade. Pararia de trabalhar por um tempo (duas semanas), mas jamais pararia de trabalhar. Investir? Nada mal morar num sítio. Numa ilha. Sempre quis ter um barquinho. Construir e habitar um farol no meio da cidade. Me dedicar à filatelia. Por outro, tanta dor de cabeça. Os aproveitadores. Dizem que parentes surgem assim, do nada. Sem falar na tentação de virar escravo do dinheiro. Quanto mais se tem, mais se quer. O terceiro número é 17. Adoro números primos. Não sei por quê. Acertei também.
E agora?
Antigamente o terno pagava um bom dinheirinho. Mas era na Loto, aquela de cinco números. Agora não paga nada. Mas a quadra paga e... Vinte e três (23). Dois, três. Acertei de novo. A coisa ficou séria. Quadra paga um pouquinho. Menos de milão, mas já ajuda. Vou doar tudo para a igreja. Ou talvez comprar livros e criar um Clube do Livro para leitores carentes. Vou comprar um chapéu-panamá de verdade, não esse de camelô e que pinica a cabeça. Amor, você não vai acreditar! Resolvi jogar na Sena e fiz a quadra! (E de soslaio vejo o número seguinte. O 27, que não é primo, mas tem cara de primo e...).
...a quina! A quina! A quina! Corre aqui que eu fiz a quina. Quanto dá isso? Uns trinta mil? Aí a coisa começa a ficar séria. Convertendo, dá uns seis mil dólares. Pouco. Melhor do que nada. Será que dá para comprar uma Kombi? Melhor trocar o bifocal. Tá caro. Será que tem que pagar Imposto de Renda? Vou perguntar para a minha irmã. Viajar não. Odeio viajar. Hahahahaha. O sítio. A tranquilidade. Maine, definitivamente Maine. Passar os dias criando. Escrevendo. Quarenta e... Não acredito! Eu AMO números primos. ...três. Quarenta e três. O nome do licor! Estou rico. Amor, vem cá. Estou rico. Estamos. E agora?

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



