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Ainda o acidente

Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

MORREU NA CONTRAMÃO
Naquela manhã, Marcelo Cordeiro fez planos para um futuro que jamais se concretizaria. (Foto: Paulo Polzonoff Jr.)

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No dia seguinte, já no conforto do meu lar, quis saber mais sobre o acidente. Na verdade, quis saber qualquer coisa sobre a vítima fatal que vi lá coberta por uma lona preta. Aquela cena. E logo na primeira busca descobri o nome do caminhoneiro: Marcelo Cordeiro. Ele tinha apenas 37 anos, morava em Campo Grande, MS, e, pelo que se deduz do discreto perfil dele no Facebook, atualizado pela última vez em 2025, tinha um filho pequeno.

Dos familiares, não encontrei manifestação. Dos colegas de trabalho, apenas uma, anônima, dizendo que Marcelo Cordeiro era um homem “trabalhador e cheio de sonhos e esperanças”. Na hora, me lembrei da música do Chico Buarque. “Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”, cantarolei baixinho e logo em seguida me perguntei se deveria contar isso na crônica. Taí. Continuei a busca, mas não encontrei muita coisa porque a verdade é que os rastros que a maioria das pessoas deixa no universo digital não são mesmo muitos.

Lacunas

Sobre o caminhão que Marcelo Cordeiro dirigia, há muito mais informações. O Scania R124 GA4X2NZ 420, placa MEK9D18, tinha 20 anos de uso e, de acordo com o portal Estradas, não poderia estar trafegando por causa de uma irregularidade no cronotacógrafo – a “caixa preta” do caminhão. Mais interessante foi descobrir que o caminhão que Marcelo dirigia tinha sido usado para o tráfico de drogas. Mas isso foi lá em 2010 e não, o Marcelo não esteve envolvido no crime. O caminhão acabou arrematado num leilão da PF realizado em 2023, por R$137 mil.

Se ele era um bom pai, não sei. Bom motorista? Sei menos ainda. Bom homem? Não tenho a menor ideia! Assim como não sei se Marcelo Cordeiro foi o responsável pela própria morte ou se os freios falharam naquele trecho realmente complicado da BR-277. E, em não sabendo nada dessas coisas, vou preenchendo as lacunas com a imaginação. Na manhã do dia 30 de julho de 2026, Marcelo Cordeiro acordou cedo para entregar uma carga de frangos congelados em Paranaguá. Tomou café. Entrou na cabine do caminhão. Acelerou. Fez planos para um futuro que jamais se concretizaria. Morreu às 12h20. Na contramão. Atrapalhando o tráfego nas duas pistas da BR-277.

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