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Nosso repórter conversou com babalorixás, astrólogos e tarólogos para trazer as melhores e mais inquestionáveis previsões para 2022.
Nosso repórter conversou com babalorixás, astrólogos e tarólogos para trazer as melhores e mais inquestionáveis previsões para 2022.| Foto: Bigstock

Como o texto das “previsões infalíveis” é um clichê literário dos mais repugnantes e ao qual só mesmo um cronista medíocre se submete, convém começar esta crônica com uma profecia autorrealizável: ainda no primeiro dia do ano, alguém escreverá um texto com “previsões infalíveis para 2022”. E este alguém hei de ser eu.

Direi que visitarei babalorixás, ciganas, astrólogos, tarólogos e ODFAs (otherworldly digital forescaster & analyst). E na frase seguinte me pegarei pensando que alguém pode estar neste exato momento me condenando por reduzir comunidades raciais, étnicas e religiosas a estereótipos. Darei de ombros para minhas reflexões e seguirei com o texto. E começarei falando das previsões do babalorixá para os fenômenos naturais.

Sem muitas delongas, contarei como o babalorixá me recebeu em seu “ateliê de futurologia”: ele riu do meu ceticismo. Descreverei o ambiente nos mínimos detalhes. E, assim que os búzios forem lançados, serei obrigado a abrir aspas para as palavras do afrodescendente de corpanzil avantajado e voz de menino na puberdade: “O mundo será novamente assolado por catástrofes. No Pacífico, um vulcão entrará em erupção. Ou continuará em erupção, esse trecho da profecia tá rasurado aqui. Haverá ao menos um terremoto no mundo. Também vejo enchentes e secas, furacões e tornados. E em absolutamente todas as ocasiões haverá ao menos um especialista para dizer que a culpa é do aquecimento global, digo, mudanças climáticas".

Então pagarei o homem, pedirei nota e encaminharei para o departamento responsável pelo reembolso, antevendo as explicações que darei para justificar a despesa. Entrarei num táxi depois de cinco úberes (sic) cancelarem meu chamado e rumarei para o astrólogo. No caso, uma astróloga – ou pelo menos acho que é. Ela me falará de aspectos, de ângulos, de cúspides e de planetas, e me apontará o nódulo lunar. Tudo parecerá tão científico e ela falará tão bem e com uma voz tão melíflua (!) que, sem acreditar, até acabarei acreditando. Ou quase isso.

A astróloga começará com más notícias: perderemos celebridades do cinema, da música e da literatura. Da política também. Porque não sei o que o Sol, não sei o que lá na casa oito em trígono com Marte. Se entendi direito (e há, sim, uma grande chance de eu não ter entendido), ela falou de variantes do coronavírus e muita brigalhada por causa das doses de reforço da vacina. "Ao menos uma celebridade será cancelada depois de tropeçar nas palavras", previu. Percebendo meu muxoxo diante de tanto pessimismo, porém, ela abrirá o mais belo sorriso (espero que seja ela mesmo) para dizer que meu time ganhará ao menos uma partida em ao menos um dos campeonatos que disputará ano que vem. Ufa.

Da astróloga seguirei para o tarólogo. Por algum motivo que me escapa, ele estará com pressa. Muita pressa. Assim correndo como se o mundo fosse acabar amanhã (vai?), ele embaralhará as cartas e as disporá a mesa. Nem um incensozinho ele acenderá. Nem uma musiquinha da Enya ele porá para tocar. Sendo sincero, mal dará tempo de eu me ajeitar na poltrona antes de ele começar a dizer atabalhoadamente que o Enforcado ou a Torre (tudo será tão rápido que farei anotações em garranchos quase ininteligíveis) indicam um verão quente e um inverno frio. Reclamarei, claro, de previsão tão vaga, ao que ele responderá agressivamente (tarólogos são considerados os pitbulls das artes divinatórias).

“Quer uma previsão específica?! Mas bem específica mesmo?!”, perguntará ele ameaçadoramente. Sem que eu possa responder, ele dirá que um repórter (ou uma repórter), diante da neve (ou geada) no sul do país, aparecerá na televisão (ou Internet) passando a mão no teto de um carro a fim de mostrar o acúmulo de gelo. E concluirá com um “tá muito frio”. Sairei da consulta meio assustado, mas até que satisfeito, sabia?

Do pinscher ao poodle das artes divinatórias, entrego minha mão e meu futuro a uma cigana de olhos escuros enormes. Fazendo cócegas, ela explora as linhas da vida, do amor e da saúde em minha mão velha. "Você escreverá mais de duzentos textos para a Gazeta do Povo", dirá ela. "E uns o chamarão de bolsonarista, outros de petista, uns de moristas e outros de isentão", complementará ela. "Mas o mais importante é que, no primeiro texto que você publicará em 2022, depois de mencionar as previsões de um babalorixá, um astrólogo (era homem), um tarólogo e de uma cigana, você abrirá um parágrafo para falar de política", preverá ela. Ao que responderei com um "duvido!" teimoso.

Deixando o melhor para o final, pegarei outro taxi e atravessarei toda a cidade para encontrar num barraco um eremita que, me garantirão os produtores desta crônica, é o mais sábio e o melhor jogador de runas e ODFA do Universo. Pesquisarei o que são runas e não entenderei nada. Mas cumprirei a pauta mesmo assim. Fingirei que acredito na palavra dos produtores e chegarei ao barraco esperando encontrar um senhor magro de longuíssimas barbas. Que me oferecerá um chá suspeito (que recusarei) antes de fazer as tão aguardadas previsões eleitorais para 2022.

Nem precisarei perguntar quem vencerá as eleições de 2022. O eremita jogador de runas e ODFA se adiantará e dirá que o novo (ou velho) presidente do Brasil será um homem. Coitada da Simone Tebet, pensarei, mas não direi nada para não correr o risco de sofrer sanções do TSE. Diante do silêncio, o eremita se sentirá seguro para falar mais. E falará.

E ele não me decepcionará: “O nome do novo (ou velho) começa com consoante. Ele terá mais de 35 anos. Vencerá aquele que prometer acabar com a corrupção e com a fome, e que se disser capaz de resolver todos os problemas econômicos”. Perguntarei se é só isso e ele dirá que é só isso e que as runas estão um tanto confusas hoje e o programa que ele desenvolveu para a análise de ODC (otherworldly digital content) está com um bug. E eu voltarei para a redação onde comporei essa crônica planejando encerrá-la com minha onomatopeia preferida. Humpf.

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