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Alexandre entrou correndo em casa, todo esbaforido, o suor pingando da famosa calva. Ao vê-lo nesse estado, Viviane imaginou o pior: um golpe. Ou um impeachment, sei lá. Mas se fosse algo do tipo Alexandre não estaria rindo o mais lindo dos sorrisos. Aquele que é até difícil de imaginar. E estava. “O que foi, meu amor?”, perguntou ela enquanto Alexandre remexia os armários. “Você não vai acreditar no que me aconteceu hoje”, disse ele, abrindo e fechando portas e rindo de uma felicidade que Viviane não compreendia e o leitor não compreende. Ainda.
“Então conte, homem!”, exasperou-se ela. Ele contou que estava sozinho no plenário, quando ouviu uma voz o chamando. “Olhe para mim”, pedia a voz, num tom de ordem mansa. Alexandre hesitou. Concentrado que estava em acrescentar mais um ponto de exclamação numa decisão qualquer, ele relutou em erguer a cabeça. Em voltar os olhos para o crucifixo que parecia ser a fonte daquele pedido estranhamente amoroso. “O crucifixo?!”, perguntou Viviane, sem acreditar no que ouvia do marido.
Bacias e toalhas
Alexandre fez que sim e sorriu com todos os dentes da alma, antes de desistir de abrir armários e perguntar à esposa onde estava a bacia. Como se ela soubesse. “Vou precisar de toalhas também”, disse. Viviane não estava entendendo nada. Sei que você também não está. Então: Alexandre voltou os olhos para o crucifixo e ouviu o argumento mais convincente do Universo. Um argumento que nem ele nem ninguém podia refutar. “Nem o diabo?”, perguntou Viviane. Nem. A essa altura Alexandre já tinha encontrado a bacia e as toalhas. Com a mão na maçaneta ele se virou para a esposa, deu-lhe um beijo e disse que ela iria entender. Saiu.
Viviane se jogou no sofá e ligou a televisão na esperança de que algum jornalista esclarecesse o que havia acontecido com o marido poderoso e famoso. Não tardou. Em poucos minutos, o telejornal exibia imagens ao vivo da Praça dos Três Poderes. O aviso de URGENTE piscava na tela. “Não acredito”, disse ela de si para si ao ver Alexandre no meio do povo. Agachado. Lavando os pés de um homem qualquer. E de outro e de outro. Ela chorou. Primeiro de raiva. Depois de mais raiva ainda. Até que ouviu uma voz lhe pedindo: “Olhe para mim”. Ela olhou.

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



