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O a se juntou com o h e ficou boquiaberto com mais um escândalo, uma polêmica, uma controvérsia vazia.
O b, com essa barriga aí, sempre me lembra uma criança com esquistossomose. Ou adulto depois do churrasco do domingo.
O c é um imã que só atrai coisa ruim. Deusolivre! E é também a ferradura a ornar os cascos das azêmolas que nos governam.
O d fez harmonização nas nádegas, não tá vendo?
O e eu consigo vê-lo em cima de uma motinha, todo paramentado com esse capacetinho aí.
Em geral, o f anda por aí todo elegante e só perde a pose quando alguém aponta e diz que é o s de quem tem língua presa. Maldade.
O g está gritando no meu ouvido: depende da tipografia! Na usada aqui na Gazeta do Povo, ele parece um o resgatando outro o que caiu de um penhasco. Em outras tipografias, é um 9 que transicionou e agora se identifica como letra.
Mas, pera! Quem vem lá? Ah, se não é o h com dois us, um na frente e outro atrás, fazendo hang loose, todo empolgado.
O i continua inconformado, pondo os devidos pingos nos distraídos.
O j fisgou o leitor que chegou até aqui e agora não tem jeito: vai ter que continuar.
O k chamou outro k e outro k e outro k e outro k e estão todos rindo até agora, ninguém sabe bem do quê. Ah, é de mim? Safadinhos!
O l tá ali num canto da parede, todo escondidinho, com medo de que peçam para ele fazer o L.
Em meio a essa crise toda, as portas do m estão para alugar.
Ops, uma delas foi alugada e agora só resta o n.
O o se pergunta: o que vai ser de mim se eu tomar Mounjaro?
O p e o q passaram o dia todo discutindo em frente ao espelho. Até que chegou outro p, virou pqp e foi uma confusão dos diabos.
O Q abana o rabo para qualquer um que lhe dê trela.
O r, quando bota as garrinhas pra fora... Cuidado! Sai daí, senão ele te arranha!
O s serpenteia o texto. Passa primeiro pelo T, depois pelo F. Tentação!
Por falar em T, o minúsculo (t) está lá, de braços abertos e estatelado no chão.
O u esclarece que não, não é n capotado. Mas que parece, parece.
O v conseguiu se separar do w; eram trigêmeos siameses.
O x anda macambúzio. Dizem que está numa encruzilhada.
O y é pura malícia. Vai ter que usar a imaginação.
Enquanto isso, o z se lamenta: por que sou sempre o último? Ninguém responde.
A crônica de hoje, assim como esta, publicada em 2021, foi inspirada num texto antológico do grande e saudoso Millôr Fernandes.


Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



