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Independentemente do resultado, esta foi a pior eleição de todos os tempos. Para mim. E essa constatação não tem a ver com as muitas mentiras, bate-bocas e baixarias. Nem com as figuras deploráveis cujo nome nem vale a pena citar. Outro dia estava andando na rua XV e... não. Essa constatação não tem a ver com a profissionalização da militância. Com o bolinho que pretende me convencer a mudar o voto. Nem com a retórica do medo vezes medo elevado ao medo. Tem a ver mesmo é com a relação entre as pessoas comuns. Entre mim e você. Havia um quê de desconfiança no ar e não suporto isso.
Foi a pior eleição de todos os tempos porque, mais do que nas outras, esse pleito despertou o pior nas pessoas. Raros, raríssimos foram os interlocutores que encontrei e que não cederam a alguma forma de fanatismo, no sentido que Amos Oz dá ao termo no livro “Mais de uma luz”. Sensível que sou a essas coisas, notei que muita gente se orgulhava da própria hipocrisia. Da própria burrice. Argumentos os mais tolos, falaciosos e fanáticos eram ditos como verdade. Como argúcia! E ai de quem tentasse refutar. Ninguém estava disposto a ouvir ninguém porque o outro lado era sempre estúpido e indigno. Que coisa.
Sempre foi assim
E o pior é que amanhã (26) será como se nada disso tivesse acontecido. Pior?! Dizem justamente o contrário. Que o melhor do brasileiro é que a gente se xinga, dá unfollow e vira a cara uns para os outros durante a campanha eleitoral, mas que no dia seguinte todo mundo volta a se sentir irmanado neste nosso fado tupiniquim. Pode ser. Tomara que seja. Mas me parece que nestas eleições alguns cortes foram mais profundos. Na alma. E aí é preciso todo um esforço para perdoar o coleguinha que te humilhou porque não passa de um coitado inseguro que precisa da vitória do candidato e do partido dele para se sentir superior.
E aí talvez alguém me interrompa para dizer que sempre foi assim, Paulo. “Sempre foi assim” – o argumento dos covardes. Daqueles que não acreditam na própria capacidade de serem melhores do que já foram um dia. Sempre foi assim: as pessoas umas contra as outras. “Não entendo como alguém tão inteligente como você pode votar no Fulano”. Sempre foi assim: bandido contra escroque. Mentiras, promessas vazias, trapaças mil. Pode ser, mas das outras vezes não me afetou tanto. Talvez porque esta tenha sido a primeira eleição que acompanhei sabendo que a santidade está ao alcance de todos. De todos. E porque, para mim, ficou mais claro do que nunca: o problema não são eles; somos nós.

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



