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Um retrogosto de lavagem. E memórias. Havia prazer, sem dúvida. Orgias que não eram só da carne. A alegria transbordava. Nos dias seguintes, porém, vieram a fome e a miséria de saber que não era para sempre. Chegou a hora de voltar. Reconhecer o erro primordial e tantos erros depois desse. As pessoas que instrumentalizei. Os senhores a que servi em troca de um conforto, uma preguiça, uma cosquinha, um elogio que confundia com cuidado e amor. E depois a fome. Costelas à mostra.
No caminho de volta, há tantos que vão. Quero lhes falar para ficarem. Mas eles vão e seguem num cortejo de bovinos rumo ao matadouro. Festejam a mesma falta liberdade que já festejei um dia. Um cortejo de futuros cadáveres. Ali no meio a menina linda de braços dados ao menino cujos olhos brilham. Ah, as promessas que jamais se realizarão. Engano. Também me seduziu o súcubo com histórias de aventuras e imortalidade.
Escarro
Volta enquanto é tempo!, quero dizer. Digo. Escorre pela minha testa o escarro do desprezo alheio. Estou velho, cansado e sobretudo arrependido. Um passo, outro passo. Tantos passos ainda me separam da casa paterna. Volta!, repito e levo um soco seguido por um riso. Meus avisos grisalhos são piadas que ofendem os sonhos da juventude. Também eu cuspi e agredi e zombei dos que me alertavam. Volta, ouvi sem dar ouvidos. Me perdi sem nunca esquecer o caminho de volta. Graças a Deus.
Agora falta pouco. Quero colo. Deitar minha cabeça em ombros cansados e experientes. Estou exausto. Preciso dormir sentindo os dedos do velho nos meus cabelos, dizendo que passou, passou, passou. Sou criança. Nunca fui outra coisa que não uma criança. Mimado e birrento. Me perdoa. Pela dor que te causei, que causei aos outros, que me causei. Me aceita como a um escravo que de bom grado lhe serve. Sou o que você quiser. Me faça.

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



