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Olá, amigos. É sabido que passei os últimos dias me dedicando a criticar milionários de colete por “se esquecerem” de colocar numa pesquisa eleitoral o pré-candidato do PODEMOS, Arthur do Val. Mas, em meio às brigas com traders e coisas do tipo, tive um insight e estou inclinado a acreditar que não fui o único a receber essa luz: a terceira via é problemática em sua essência.

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Não se trata de uma crítica a um candidato específico e suas características, mas de um problema estratégico e geral daqueles que se colocam contra Lula da Silva e Jair Bolsonaro. Um problema conceitual, ainda não resolvido. Deixemos, portanto, a Faria Lima de lado. Hora de refletir.

Antes de tudo, devemos nos ater a ele, o eleitor. Se a oposição a Lula e Bolsonaro — a negação da dualidade — é tão óbvia, não haveria de ser tão difícil a construção deste caminho, certo? Mas eis que o tempo passa, e nada muda. Por que essa parcela do eleitorado parece estar limitada aos 15%? Creio que a resposta seja cognitiva: o público capaz de avaliar múltiplas opções e deliberar em busca da melhor é diminuto se comparado ao total dos votantes.

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O ser-humano, via de regra, decide com maior facilidade quando é apresentado ao menor número possível de opções. Isso ocorre nos mais variados setores da sociedade, seja em algoritmos de redes sociais, serviços de streaming, restaurantes, bens e serviços e em opiniões políticas — que na verdade não configuram exatamente opiniões. São preferências, inclinações, impulsos, forças intuitivas que se perdem caso a complexidade do objeto confunda a capacidade de desejar. 

Me parece natural, portanto, que já em sua gênese, a terceira via se afastou do eleitor médio ao apresentar seis candidatos, como num estranho campeonato por atenção que mais confunde que auxilia. Mais: parece também um cardápio infindável de cantina italiana, com centenas de opções que denotam, antes de tudo, a falta de foco do restaurante. Falar em terceira via, enquanto conceito, é aceitável em círculos mais restritos. Para o grande grande público, entretanto, é tiro no pé.

É por isso que a postura de um Kassab, todo faceiro em busca de “alternativas” para a “terceira via”, diz muito sobre o momento atual: ao propor novos candidatos, outros “nomes sobre a mesa”, o cacique sem lado serve, antes de tudo, à candidatura de Lula, interessada no dualismo com Bolsonaro. Lula, assim como Kassab, tem ciência que a variedade confunde, atrapalha. E sabe que a opção do PSD por Eduardo Leite — candidatura natimorta — é nada além de jogo diversionista.

Sérgio Moro, nome mais forte deste campo, sabe que não há tempo para experimentos e indefinições. Cobrou publicamente a unificação da “terceira via”, recado claro para João Doria, em evento para clientes do BTG Pactual. Alerta, com urgência, para a necessidade de cerrar fileiras num nome só. Mas assiste, impotente, um jogo entre grandes partidos — PSD, União Brasil, MDB à frente —, que cozinha em banho maria esta alternativa em nome dos bons acordos que podem coletar à frente.

Em termos conceituais, também, o problema não para por aí. Um único candidato — possivelmente Moro — não poderá continuar carregando a bandeira “nem Lula, nem Bolsonaro” como seu carro chefe. O candidato do Podemos precisa entender que ele deve ser rival de apenas um deles; o famoso “ou ele, ou eu”. É assim, neste instante, que Lula trabalha. É ele, representando o “bem”, contra Bolsonaro, representando o “Demo” encarnado. 

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Não faz o menor sentido para Moro falar em “nem um, nem outro”. É muito mais acessível para o eleitor o entendimento de que há uma rivalidade entre dois candidatos, que possuem um histórico de enfrentamentos, que possuem ideias antagônicas, que irão se enfrentar na reta final. E essa construção, pela própria natureza do discurso petista, depende da redenção de Lula através da danação de Moro. É entre o juiz e o ladrão.

Primeiro, pois o petista está liderando a corrida eleitoral, e a boa estratégia política aponta que devemos focar no líder. Em segundo lugar, Lula precisa falar de ex-juiz da Lava Jato para sustentar sua narrativa de que foi preso injustamente. Natural que Moro se aproveite da oportunidade. Em terceiro, pois há mais espaço para Moro crescer junto ao anti-petismo do que ao anti-bolsonarismo, que quando cresce, traz rejeição ao juiz junto de si.

Veremos como este novo Moro, mais agressivo e assertivo, se comporta diante deste desafio. É hora de superar Bolsonaro. Não apenas nas pesquisas, mas também na mentalidade.