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Ele te enganou
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A garfada gulosa na Petrobrás é mais uma capítulo da tão anunciada revelação do Bolsonaro por trás da máscara. O Bolsonaro eleito em 2018, responsável por mobilização ímpar na história recente, se foi; vida longa ao presidente que se levanta, como Daniel Silveira de coturno, a espalhar generais pelos quatro cantos de Brasília. 

Não é novidade este tipo de anúncio aqui em minha coluna. Já havia decretado o falecimento do governo Bolsonaro durante sua cruzada anti-Moro, ainda no ano passado. Não foi morte morrida, de impeachment ou causas naturais. Foi morte política, histórica, simbólica. Seu enterro carregou consigo a Lava-Jato e a sequência de lutas que transformaram o país de 2013 pra cá. Enquanto símbolo, lá restou. Enquanto governo, permanece. 

Governo que abandona não mais símbolos, porém práticas. Diferente de Moro, Castelo Branco administrou. Suas medidas tiveram efeito, sua nomeação não foi pra-inglês-ver. Por ser executivo, executou; por entregar o prometido, foi punido. Sua queda, precedida por uma crise de bastidores, revela a profunda natureza patrimonialista de Bolsonaro — sua confusão entre público e privado —, que viu na boa gestão da Petrobrás um empecilho para sua reeleição.

É no bom trabalho de Castelo Branco que a porca torce o rabo. Fosse ele presidente da petroleira nos governos Temer ou Fernando Henrique, haveria da parte do executivo o apoio político e material à sua administração. Apoio facultado mediante a crença mútua nas políticas por ele implementadas, algo natural num governo com projeto. Na administração Bolsonaro, porém, é o oposto que se impõe: Castelo Branco foi punido — jogado aos leões — por ser cumpridor do disposto em campanha.

A gestão que se desenha para os próximos dois anos não é merecedora de análise mais detalhada, pois tornou-se apenas campanha eleitoral. A lógica anterior de conflitos entre teses divergentes se foi, pois os grupos em disputa ou desapareceram, como os lavajatistas, ou se submeteram, como os neoliberais de Papo Guedes. O consórcio eleitoral, agora, agrada a militares e ao centrão. Tem Tarcísio tocando obra na base de Arthur Lira; tem milico salvando a pele na reforma engana trouxa. A configuração, para Bolsonaro, é boa. Tudo o que ele não quer é dor de cabeça.

Dor de cabeça, porém, é o preço a ser pago por governos reformistas. A transformação do estado brasileiro em máquina minimamente viável passa por confrontar corporações muito influentes e bem financiadas. Bolsonaro sabe disso, e é possível que tenha acreditado ter resolvido tal equação durante a reforma da previdência. É fato — e as notícias estão aí pra isso — que ele impediu qualquer avanço de medidas urgentes como a reforma administrativa ou do pacto federativo. Não quer a dor necessária para transformar um país doente. Preguiçoso (sempre foi), quer mel na chupeta. 

Enquanto deputado, sempre foi da turma do amendoim a reclamar das reformas dos presidentes que se sucediam. Foi contra o Real, as privatizações, a reforma da previdência, a trabalhista, a administrativa, o fim do monopólio da Petrobrás e toda e qualquer medida modernizante no governo FHC. No mandato de Temer, lutou contra a previdência, as mensalidades para o ensino público superior e o cadastro positivo, que facilitaria a cessão de crédito aos bons pagadores. Sempre votou pelo aumento de mamatas para deputados e senadores. Seu compromisso reformista é zero, ainda que não seja este seu principal problema.

Digo isso pois convicção ideológica é artigo raro no bananal. Firmeza de caráter, também. Bolsonaro não fugiu à média, parafraseando seu filhote no Flow. Covarde e oportunista, quer o caminho fácil do controle de preços e do auxílio emergencial. Quer ser carregado nos braços do povo, ser estampado na traseira do caminhão, ser celebrado pelos jornalistas que compra com dinheiro público. Quer moleza, vida fácil, reeleição. Vida essa supostamente facilitada pelo acordão pactuado junto ao judiciário— aquele que ele tanto ataca —, que acabou de limpar a pele de seu filho Flávio em mais uma rodada de impunidade nos tribunais. 

Bolsonaro, tal qual caminhão, quer banguela na ladeira. Quer descer a serra de um governo tranquilo, tocando a buzina e esquecendo a vacina. Subir, que é ruim, ele evita. Cansa demais. E o pior: gasta um diesel danado, inconveniente que prefere esquecer. A gente avisou que será pego na curva. No precipício que se avizinha, não tem acostamento nem área de escape. É rezar e torcer.

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