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O filho do Arthur Lira está rico no governo sem corrupção
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Tento compreender a cabeça de um amante do governo. A adesão acrítica, que tudo justifica, deve necessariamente passar por cima de todo tipo de absurdo para prosperar. É como o amor de uma mulher por seu marido alcoólatra: algo mágico acontece e faz com que as agressões e o abuso sejam relevados, jogados para debaixo do tapete. 

O amor político tem dessas. Massacrado pelo preço da gasolina, da energia elétrica, pelo desemprego, covid e as múltiplas traições do presidente, o pouco que resta de governismo nas ruas  — hoje pouco mais de 20% da população — ainda nutre a estranha paixão da mulher de bêbado pelo presidente Jair, entorpecido pelo poder e pela própria ignorância. 

O tapete desta turma, porém, já está recheado demais. O amontoado de problemas impede uma defesa sólida do legado bolsonarista, restando ao fã clube a inglória tarefa de justificar: “mas e o PT?”. Com os escândalos de corrupção chegando ao quarto do presidente, na figura de Michele e seus reverendos negociadores de vacina, a argumentação do fã clube fica ainda mais falha, posto que a tese do “patriota impoluto” cai por terra. Deveria ser suficiente, imaginamos. Por vezes, não é.

Para quem relevou a atuação desumana do presidente durante a pandemia, um roubo de vacina aqui e acolá soa impessoal demais para despertar sua indignação. “Roubo acontece, o PT roubou mais”, dirão. “As vacinas não funcionam mesmo, isso não interessa”, deveremos ouvir. Os detalhes pessoais, humanos, por vezes, são capazes de atrair mais a atenção (e por que não a ira) do cidadão comum, que vê no comezinho — no banal — um pouco das minudências que lhe cercam e incomodam na vida quotidiana.

O que não dizer, portanto, dos atuais filhos da “nova era” que fazem fortuna no governo Bolsonaro? Me refiro aos sucessores de Lulinha, os Ronaldinhos dos negócios, o quarto fantástico da rachadinha: Dudu, Flavinho, Carluxo e Renanzinho. A despeito da atuação mais “discreta” do vereador e do deputado federal (apenas rachadinha e cargos fantasma no PTB), há de se convir que vivem o “bem bom” há bastante tempo, resultado do filé mignon do papai.

A mansão de 6 milhões de Flávio Bolsonaro é apenas a ponta do iceberg; o tráfico de influência de Jair Renan, ainda mais absurdo pela idade e pelos claros sinais de pouca inteligência do rapaz, movimenta grandes empresários ao redor do jovem, que lhes oferece espaço no Planalto em troca de “doações” e agrados dos mais diversos. Não há sequer o silêncio da militância acerca do caso. Bolsonarista de verdade vem a público defender o enriquecimento de seus amos, dando a isso o nome de “conservadorismo de verdade”.

Sei que a idolatria e o amor ao chefe explicam tamanha cegueira…. mas justificam? Percebam, amigos leitores fãs do presidente. Você que coloca comida na mesa da sua família, você que luta diariamente para se manter de pé diante de uma crise que só aumenta. Você não se sente humilhado diante de tal situação? Não te dói saber que figuras inexpressivas, burras, gente que nunca bateu um prego numa barra de sabão, está ficando milionária, às custas do erário, enquanto tua vida permanece dura, árida? 

A submissão e a leniência são características basilares de povos dominados, gente afeita à tirania e ao populismo. O bolsonarista se vê como um bravo, mas se comporta como um poodle de madame diante dos abusos de seu político. Não percebem que tal comportamento, indigno para homens que cantam o hino com tamanha energia, que elevam suas vozes na hora de defender um “Brasil grande!”, não condiz com a imagem que gostam de passar?

Me choca tamanha contradição. A ponto de tentar entender quais são os limites da submissão. Na manhã desta quarta-feira (14), descobrimos que o talentoso Arthur Lira Filho, primogênito do presidente da Câmara, amealha contratos de publicidade com o governo federal, mordendo comissões que variam de 7 a 15% dependendo do cliente. “Arthurzinho”, como é conhecido o filho do condenado, tem apenas 20 anos de idade. Antes de se tornar um fenômeno da publicidade, era estagiário num restaurante de Brasília. Em pouco tempo, venceu.

Aos leitores aqui presentes: não te causa revolta um fato como este? Não te humilha, não coloca sua dignidade no chão, saber que o futuro dos seus filhos jamais será tão fácil e glorioso quanto o do filho do presidente da câmara? Tentarei ter boa vontade: relevo aqui a paixão que sentem pelos filhos do Bolsonaro. Mas a submissão ao compadrio, ao tráfico de influência, ao enriquecimento ilícito, deve se estender até a seus aliados? 

Percebam, amigos, Arthur Lira não é um “cristão patriota”. Foi, sempre, aliado do PT. É representante maior do centrão, aquele ajuntamento de malfeitores cantando em verso e prosa pelo General Heleno. A defesa dos contratos de seu filho de 20 anos não deveria soar natural, mas é, posto que Arthur Lira é aliado de Bolsonaro, e portanto “não há nada de errado no assunto”. Já imagino os comentários “se for provado que é corrupto, que pague”, algo engraçado no governo demite delegados da PF e afasta promotores que investigam a família presidencial. É a impunidade patriótica, a moral de nióbio, a cloroquina anti-corrupção.

Nada irá acontecer com o filho de Arthur Lira, que permanecerá rico sem trabalhar, servindo ao lobby de seu pai. Não haverá comentário indignado nas rádios governistas, tampouco nos jornalistas de tratamento precoce. O silêncio é sepulcral. Patrimonialismo verde-amarelo é bem-vindo quando seu próprio patrimônio é recheado. Tem gente ficando rica defendendo o indefensável, e nada indica que será diferente até o fim deste governo. 

Mas pergunto: e você, que nem sequer recebe pra isso? Será você a consentir com o sucesso do “Arthurzinho”? Minha esperança aguarda um não como resposta; meu ceticismo, por sua vez, já sabe o que vai acontecer…

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