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Política da morte ou morte da política?
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Os 6 mil motoqueiros de Bolsonaro travaram minha cidade. Travaram não pelo número — julgavam-se milhões, mas não encheriam um quarteirão caso estivessem a pé. Travaram pois o governador do meu estado é frouxo, permitindo que os delírios de grandeza de um presidente em decadência se fizessem realidade num passeio com homens vestidos de couro.

São Paulo não é lugar pequeno. Bolsonaro mobilizou milhares de policiais e orquestrou um sistema único de fechamento de ruas, avenidas e estradas para que pudesse passear de moto. Perceba: a maior cidade da América Latina foi tornada playground para que um presidente tentasse negar o que todas as pesquisas mostram, ou seja, que sua popularidade simplesmente se esvaiu. Tal tipo de prática, comum a ditadores de repúblicas africanas, é sintoma da jequice reinante no palácio do planalto. É um país de gente sem rigor nem respeito. É um governo de  idiotas.

Eu gostaria de visitar meu pai nesse dia, mas não consegui. Motoristas de Uber deixaram de faturar, a cidade não trabalhou. O narciso da cloroquina fez questão de perambular pelas ruas de São Paulo com sua motoca pois assim lhe pareceu “atrevido”, uma “ousadia” no território de seu adversário. Avesso à política, julgou que a travessura e a provocação são razões suficientes para balizar seu mandato. Mas ora… falamos aqui realmente de um mandato?

O Brasil baterá quinhentos mil mortos no próximo final de semana. Alheio a isso, Bolsonaro festejou. Um presidente, via de regra, viveria o luto e a luta pelo fim da pandemia. O culto narcisístico, a celebração de si mesmo, a babaquice transformada em ato político, num momento como este, deixou de assombrar o cidadão comum e passou a fazer parte da realidade paralela vivida pelo presidente e os seus. O país do grupo de zap, dos milhões de alienados nas propagandas amalucadas de seus prosélitos, estava todo lá celebrando suas conquistas.

Na motociata do presidente estavam os milhões de quilômetros pavimentados por Tarcísio. Estavam as centenas de estatais privatizadas por Paulo Guedes. Estavam os pacotes anti-corrupção, o fim da reeleição, a lisura no trato com o STF, as mamatas que acabaram (sim “a mamata acabou!”), as reformas administrativa, tributária e política. Estavam ali cada um dos sonhos dos milhões de brasileiros, estes sim, que acreditaram em vão que o país poderia mudar para melhor. Não mudou.

Mas no Brasil paralelo de Bolsonaro, tudo vai muito bem. O presidente pode celebrar pois, conforme atestado pelo seu TCU, os 500 mil mortos de COVID provavelmente não morreram de COVID. São mortos controversos — mas quem se importa? O importante é alterar a contabilidade oficial. Dilma pedalou bilhões, Bolsonaro pedala cadáveres. Ou nem pedala, pois isso é coisa de comunista. Homem macho como ele anda de moto com outros amigos machos — no dia dos namorados. 

Tamanho distanciamento da realidade e falta de consideração com a dor alheia menosprezam o entendimento do brasileiro comum acerca do momento que vivemos. Existe um Brasil real para além dos seguidores do presidente. Um Brasil que já o repudia na ordem dos 60%, número próximo daqueles registrados por Dilma Rousseff em sua decadência pré-impeachment. Um Brasil que não tem razões para comemorar, empobrecido pela inflação e decepcionado com o futuro que não foi entregue. 

No Brasil real, os números do PIB que só animam o mercado financeiro são eclipsados pelo aumento real no preço do gás. E nesse Brasil estranho, majoritário porém sem voz, ecoa cada vez mais o discurso daquele que prometeu facilidades e entregou a crise que vivemos. O populista maior — mais ardiloso e profissional que Bolsonaro — que pavimenta, dia após dia, um retorno quase inevitável ao poder. Falo aqui de Lula, o petista das causas impossíveis. 

A coligação do cansaço liderada pelo operário é, de certa maneira, uma busca tranquila pela vitória por W.O., um consenso entre as forças políticas que se digladiaram anos atrás. Tais forças, envelhecidas e desgastadas, tramam por uma reconvenção do jogo sob os termos de outrora. É o arco que une antigos inimigos sob uma mentirosa bandeira de pacificação. É negação da política, posto que mera (re)acomodação.

Tal consenso pela eleição de Lula reforçará o discurso cada vez mais óbvio de que se opor ao petista é sinal de “fascismo”; de que a luta dos últimos anos, denunciada pelo petismo como parte de um ressurgimento de certa direita antidemocrática, oriunda da ditadura militar, só poderia redundar na eleição de um milico que tenta dar golpe de estado. De um milico que não se importa com gente. De um milico retrógrado e burro que que pensa dia após dia em seu projeto de poder. De um milico que sabotou vacina e ajudou a levar meio milhão de brasileiros ao óbito. 

É argumento forte. Que encontrará eco na imprensa, na academia, na máquina contadora de histórias que ressignificará todos os anos recentes. Pretendem culpar um país todo — uma maioria — pelo erro capital de terem eleito Bolsonaro. E oferecem, solidários que são, um retorno aos “bons tempos” de papai Lula. Tempos de oposição inexistente, de falsos consensos e de política restrita a grupos e agentes determinados, inacessível para a massa de pagadores de conta que cometeu o erro mortal de tomar decisões numa democracia. 

A política da morte, alicerçada por Bolsonaro, dá força à morte da política, pretendida por Lula. E não há passeio de moto, jegue ou bicicleta que irá pare esse destino. A roda do história será cruel com todos nós. É apenas questão de aguardar.

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