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Chegou a hora. Há tempos o Brasil sabia que esse momento chegaria: ou salva-se o Império de Alexandre de Moraes, ou salva-se a República. Não há meio termo.
Ninguém aposta na República (e, se aposta, é uma aposta de risco). O procurador-geral age em um processo que o envolve, e os que deveriam ser investigados estão no coração do órgão que os deveria investigar: um escândalo. Como também são um escândalo as mensagens de Daniel Vorcaro pedindo intervenção junto ao diretor da Polícia Federal. Como também é um escândalo que não tenhamos as respostas de Moraes, escondidas por alguma razão. E como também é um escândalo o contrato do Master com a esposa de Moraes, revisado pelo ministro.
São dezenas de escândalos empacotados. Agora, tudo finalmente nos leva a uma encruzilhada.
Os próximos dias dirão se o “sistema”, restabelecido no Brasil, tornou-se absoluto e total, ou se há um sopro de esperança de, gradualmente, restabelecer a República
Chegamos até aqui com a complacência das instituições e de parte da mídia, que odiavam Jair Bolsonaro a ponto de proteger (e louvar) os incontáveis abusos e absurdos a que assistimos, impotentes. Todos foram marcados pelo personalismo. Moraes encarnou um (in)justiceiro. Abandonaram-se os procedimentos e o devido processo legal. Decisões políticas tornaram-se a regra, e a perseguição política virou a marca do momento.
Jornalistas deixaram de escrever o que pensavam e passaram a escolher as palavras. Manifestações deixaram de ocorrer, por receio de repetir-se o que se deu no 8 de janeiro. Nas redes sociais, nos podcasts, o medo de perder o canal, o perfil, virou a regra. O que aconteceu no país não foi um processo de justiça; foi um processo de silenciamento. Montou-se a estrutura de poder que entregou a um punhado de não eleitos o controle absoluto.
Mas nada disso foi suficiente para que o Império de Moraes ruísse. Até que a frase de Lord Acton virou profecia: “o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente”. Protegidos pelo poder supremo, e pelo Supremo no poder, os contratos brotaram. Os resorts, as assessorias, as caronas de jatinho, os ingressos para eventos, os honorários para familiares, tudo isso corroeu o resto de credibilidade que ainda sobrava ao STF.
Mesmo com os indícios vindo à tona, ainda não é possível dizer o que acontecerá. Há alguns minutos, o ministro Edson Fachin falou em credibilidade e apuração, mas ganhou tempo: “no momento certo anunciaremos as medidas adequadas”. Paulo Gonet puxou a velha carta da Lava Jato: “é tudo nulo”. Quem garante que haverá afastamento e investigação? Ninguém. Não há confiança suficiente nas instituições hoje para assegurar isso.
Os próximos dias dirão se o “sistema”, restabelecido no Brasil, tornou-se absoluto e total, ou se há um sopro de esperança de, gradualmente, restabelecer a República.
Está nas mãos dos demais ministros do Supremo e do Senado da República. Se acobertarem os indícios, se não levarem às últimas consequências a investigação que precisa acontecer, abandonemos a ideia de viver em uma República. Seremos um país de súditos, ajoelhados diante do Imperador, que não será só Moares, mas o Sistema reunido em concílio. Disso, nem as eleições nos salvam; teremos de aceitar os fatos e conviver com eles, como tiveram de fazer tantos povos que viveram silenciados por regimes autoritários sem Estado de Direito.
Toda atenção, portanto, nos próximos dias. Eles mostrarão se há esperança de restauração da constitucionalidade no Brasil.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Ricardo Gomes é CEO do Instituto Millenium. Foi vice-prefeito de Porto Alegre (2021-2024), onde também cumpriu mandado como vereador e foi secretário de Desenvolvimento Econômico. Foi presidente do Instituto de Estudos Empresarias (IEE) e da Rede Liberal da América Latina. É advogado e consultor. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



