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Ricardo Gomes

Ricardo Gomes

Casas Bahia e Marabraz

A prosperidade não sai de graça

Casas Bahia
Fechamento de lojas atinge quase 30% da rede da Casas Bahia em todo o país. (Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo/Arquivo)

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Casas Bahia e Marabraz pediram recuperação judicial praticamente ao mesmo tempo. Antes delas, outras empresas importantes haviam seguido pelo mesmo caminho. A lista cresce, dando sinais de uma tempestade que já se vê no horizonte, e seria confortável imaginar que estamos apenas diante de empresas que administraram mal seus negócios, erraram em seus investimentos ou perderam espaço para concorrentes mais eficientes.

Certamente há casos assim. Empresas quebram também em economias saudáveis – e é bom que seja assim. O capitalismo funciona porque premia o acerto e pune o erro. Mas, quando o fenômeno deixa de ser excepcional e começa a se espalhar por diferentes setores da economia, convém olhar além das portas das empresas.

A economia brasileira não vai bem. Juros elevados, crédito escasso, famílias endividadas e atividade econômica pressionada formam um ambiente particularmente hostil para empresas que dependem de financiamento e consumo, como o varejo. A dívida das Casas Bahia supera R$ 17 bilhões. A Marabraz chegou à recuperação judicial com passivo de R$ 140 milhões. O Grupo Toky, controlador da Tok&Stok e da Mobly, já havia recorrido ao mesmo instrumento para renegociar cerca de R$ 1,1 bilhão.

Há uma bomba-relógio armada, que o governo tenta evitar que exploda antes das eleições. Os sinais, todavia, estão aparecendo

Não são casos isolados. Em 2025, 2.466 empresas brasileiras estiveram envolvidas em processos de recuperação judicial, recorde da série histórica da Serasa Experian.

Alguma coisa está acontecendo, e há uma bomba-relógio armada, que o governo tenta evitar que exploda antes das eleições. Os sinais, todavia, aparecem no juro do financiamento da casa própria, no cartão de crédito, no endividamento familiar, no crediário de quem compra uma geladeira. Também na empresa que deixa de investir e na loja que fecha. E, como agora estamos vendo, aparece também no balanço das grandes empresas.

Há uma lição política importante nisso.

Durante muito tempo, criou-se no Brasil uma espécie de ilusão de que os grandes empresários, os investidores e aquilo que genericamente chamamos de “elite econômica” poderiam assistir à deterioração das instituições e das contas públicas a uma distância segura, porque, afinal, eram ricos. O pobre sofreria com a inflação; a classe média pagaria mais impostos; o pequeno empresário enfrentaria a burocracia e o crédito caro; mas quem possuísse patrimônio, acesso aos mercados financeiros e bons advogados encontraria alguma maneira de se proteger. Até certo ponto, encontra, mesmo pagando caro por tudo isso. Mas, depois, a conta chega. E talvez isso devesse provocar uma reflexão entre aqueles que têm maior capacidade de influenciar os destinos do país.

Existe uma compreensível tentação entre empresários de afastar-se da política. Empreender no Brasil já exige energia suficiente. É preciso cuidar dos funcionários, dos clientes, dos impostos, dos fornecedores, dos bancos, dos concorrentes e de uma burocracia que parece dedicada a tornar cada uma dessas tarefas mais difícil. Há, ainda, o medo: num país em que o poder público dispõe de instrumentos imensos de fiscalização e regulação, expor opiniões pode ter custos. O silêncio parece, muitas vezes, prudente.

Mas o afastamento também tem um preço. Quando aqueles que possuem experiência, capacidade de organização, recursos, conhecimento e influência se retiram do debate público, o espaço não permanece vazio. Outros o ocupam. A política continuará existindo mesmo que as pessoas mais capazes decidam não participar dela. E continuará tomando decisões sobre seus impostos, seus negócios, seus empregados, sua propriedade e o futuro de seus filhos.

Os americanos gostam de repetir que freedom is not free – a liberdade não é grátis. A expressão lembra que sociedades livres não surgem espontaneamente e tampouco sobrevivem sem que alguém esteja disposto a defendê-las. Há um custo nisso.

Existe uma compreensível tentação entre empresários de afastar-se da política. Mas o afastamento também tem um preço

A prosperidade também não é grátis. Ela depende de trabalho, investimento, inovação e empreendedorismo. Mas depende também de boas instituições, responsabilidade fiscal, segurança jurídica e governos submetidos a limites. Construir e preservar essas condições tem um custo. Parte desse custo é participar.

Não se trata de pedir que empresários abandonem suas empresas para fazer política, nem de imaginar que exista uma “elite” homogênea que deva compartilhar uma mesma posição ideológica. Uma sociedade livre é necessariamente plural. Trata-se de reconhecer que maior capacidade de influenciar a sociedade traz consigo maior responsabilidade de contribuir para ela.

Talvez as recuperações judiciais que agora chegam às maiores redes brasileiras estejam lembrando algo semelhante sobre a economia. Pode-se tentar ignorar o desarranjo da política econômica brasileira. Mas ele não ignorará ninguém.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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