Mercado espera novo corte da Selic| Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
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Na próxima quarta-feira (5), o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central deve cortar novamente a taxa de juros no país, para 2,0% ao ano. É isso, pelo menos, o que indica a maioria dos economistas de mercado segundo o Boletim Focus, divulgado às segundas-feiras pela manhã, em um relatório compilado de perspectivas para os indicadores do Brasil. Além disso, há expectativa de que este seja o último corte na Selic da série que começou meses atrás. O número representa algo inimaginável na cabeça dos brasileiros se lembrarmos onde estávamos há menos de três anos, com taxa de juros de dois dígitos.

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Um aspecto importante de todo o processo é que a Selic baixa poderá ser prolongada por muitos meses, a depender, em especial, do cenário fiscal do Brasil ou de uma eventual retomada da inflação. Para este ano, espera-se que o IPCA encerre dezembro em 1,6%. Já no cenário fiscal, há grandes preocupações diante dos gastos necessários do governo em meio à pandemia do novo coronavírus e negociações que estão em curso no Congresso Nacional para flexibilizar o teto de gastos.

Como já sabe grande parte da população, a regra da poupança estabelece a ela rendimento de 70% da Selic, iria então para 1,4% ao ano. Mais um ponto bastante discutido é que muitas outras taxas do setor bancário parecem ainda não acompanhar o ritmo de redução da Selic na medida que a população e o governo desejam para impulsionar a retomada da economia. Um exemplo claro está nas taxas de financiamento imobiliário.

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Nos bancos públicos, por exemplo, ela está atrelada aos juros, algo próximo de 6,5% ao ano. Nas instituições privadas, a taxa alcança o mínimo de 7% ao ano em algumas modalidades. Menciono isso até por questões de comparação com fundos imobiliários, pensando em custo de oportunidade sobre investimentos no modelo físico tradicional ou nos ativos negociados em bolsa. Por essa razão, sugiro levar em conta vários aspectos antes de investir dadas as perspectivas futuras: imobilização dos recursos, expectativa de valorização, recebimento de dividendos e/ou aluguel, burocracia, entre outros. Não estou aqui para dizer invista em “x” ou “y”, mas para orientar que seja ainda mais racional neste momento.

Levanto aqui mais um ponto interessante nesse momento de juros baixos e que vai para a turma do “a renda fixa morreu”. No mês de julho, em meio ao cenário de perspectivas futuras, alguns dos títulos do Tesouro Direto, como o atrelado à inflação, medido pelo IPCA, apresentou rentabilidade de dois dígitos em seus vencimentos mais longos. Isso ocorre por serem mais “sensíveis” a mudanças bruscas nas expectativas. No entanto, não recomendo e nem estimulo realizar operações de curto prazo nestes títulos, mas é importante observar que eles trazem oportunidades para quem está atento ao dia a dia dos investimentos. Mesmo ainda na renda fixa, muitos gestores de crédito privado seguem informando que alguns ativos tem sido encontrados com taxas bem acima da normalidade nos últimos meses em meio à crise econômica.

Mais um item importante atrelado aos juros se refere à continuidade de crescimento de novos investidores em bolsa, o que já tenho discutido aqui nas últimas semanas. É cada vez mais evidente que o brasileiro terá que correr mais riscos se quiser buscar rentabilidade maior para sua carteira no curto e médio prazos. Com Selic em 2%, nos próximos meses deveremos ter uma enxurrada de pequenos investidores trazendo parte de suas aplicações ou de sua renda para a bolsa. Com uma melhor acessibilidade, mesmo para aqueles de baixa renda, e com discursos mais simples encontrados nas redes sociais, vislumbro milhares de novos entrantes ainda num curto espaço de tempo. Só recomendo a todos que tenham suas referências, como analistas e especialistas, e que estes tenham responsabilidade para “abraçar” os calouros no mercado.

Por fim, acredito que será muito importante para o país ter essa “bandeira” de juros baixos, apesar de alguns citarem que não somos um país desenvolvido para manter a Selic tão baixa quanto em 2% ao ano. Ficar neste patamar poderá desencadear uma série de situações positivas, como o incentivo ao empreendedorismo e portanto, à economia. O que o brasileiro menos deseja neste momento é voltar ao patamar ao qual estávamos acostumados. Que este novo, mais baixo, tenha vindo para ficar e com as saúdes fiscal e inflacionária sendo acompanhadas de perto, para não perdermos mais uma década.