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Roberto Motta

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Família

Maria e o suborno de fofura

Esconde-esconde com Maria tinha um ritual próprio. O esconderijo não podia ser muito difícil; na verdade, era preciso ficar quase todo à mostra. E não valia ir direto ao alvo. (Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo)

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Maria confundia lenço com lençol. Ela ainda estava aprendendo as palavras. Cometia erros engraçados e todos riam. Experimentava um chiclete e não gostava.

“Mamãe, quero esculpir.”

Esculpir era cuspir.

Quando ficava muito tempo no meu ombro, dizia que sentia “câmbrias” nas pernas.

Andava pela casa dando ordens, chorava com ciúme do irmão, pintava as próprias unhas e as unhas da mãe.

Ela falava bem explicadinho, com clareza e segurança. Quero isso. Não quero aquilo. Obrigada e por favor.

Maria corria de mim quando eu queria espremê-la nos meus braços.

“Não me pega! Não me pega!”

Eu desistia e ia trabalhar. Ela entrava devagar no escritório sem que eu percebesse.

“É papai que vai me dar banho!”, dizia, e saía correndo pelada pela casa.

Ah, Maria, em abril do ano em que você nasceu, um vulcão na Islândia cuspiu uma nuvem de cinzas que chegou até os céus da Europa, impedindo o tráfego aéreo por quatro dias. Em maio, um poço submarino explodiu, inundando o mar do Golfo do México de petróleo. Em junho, começou a Copa do Mundo.

Isso já faz dezesseis anos.

Se pudesse olhar pelos meus olhos, filhinha, você teria visto isso: uma menina vestida de rosa, puxando uma mochila rosa, caminhando atrás de mim

“Antes eu era pequenininha”, dizia ela, sentada no meu ombro. “Do tamanho daquela pitanga”, e apontava uma amêndoa no chão.

Melhor descer do ombro antes que dê câmbrias.

Maria brincava no chão do escritório enquanto eu escrevia. Eu largava minhas tarefas e ia brincar com ela.

Esconde-esconde com Maria tinha um ritual próprio. O esconderijo não podia ser muito difícil; na verdade, era preciso ficar quase todo à mostra. E não valia ir direto ao alvo.

“Papai, não é assim”, ela me repreendia quando eu a descobria atrás do pufe. “Você não olhou ali, nem ali, nem ali.”

Ali era debaixo da cama, atrás da cadeira, atrás da porta.

Eu recomeço a procura.

“Maria está aqui? Será que está aqui?”

Quando eu fingia procurá-la em uma prateleira, levava uma bronca inesperada:

“Papai, eu caibo aí, caibo?”

Não cabe, não, filhinha. Você cabe é no meu coração.

Quando era minha vez, eu me escondia atrás da porta do quarto dela, onde há um espelho. Olhei meu reflexo: estou ficando velho.

Se pudesse olhar pelos meus olhos, filhinha, você teria visto isso: uma menina vestida de rosa, puxando uma mochila rosa, caminhando atrás de mim. Você herdou a beleza, a determinação e o temperamento de sua mãe.

Eu estou perdido.

Meu pai cozinhava muito bem e comia com gosto. Tinha prazer em preparar refeições e lanches para os filhos. Minhas boas memórias de criança sempre envolviam as imagens dele e da minha mãe preparando alguma coisa.

Uma noite, eu cozinhava para Maria. Era um ovo mexido noturno que ela resolvera comer quando viu o irmão comendo.

Fomos juntos para a cozinha.

“Me leva no ombro!”

Eu quebrei um ovo na tigela e ela fez cara feia.

“Eu quero espremer o ovo!”

Pedidos, pedidos, pedidos.

“Põe pimenta no ovo!”

A pimenta era a pimenta-do-reino, que vinha em um moedor bonito. Coloquei só um pouco. Ela sumiu com o prato para o quarto. Depois de algum tempo, ela voltou.

“Papai, também estou de parabéns!”, ela disse, mostrando o prato vazio.

João, seu irmão, criou uma expressão para a capacidade que Maria tinha de convencer o pai, a mãe e o universo a fazer qualquer coisa.

João dizia que Maria fazia suborno de fofura.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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