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Algumas decisões recentes dos órgãos de Justiça envolvendo famílias que educavam os seus filhos em modalidade de homeschooling, isto é, sem que as crianças frequentassem uma instituição escolar, deixou muita gente estupefata. E não sem razão. Algumas famílias integralmente dedicadas à formação dos filhos, cujos pais decidiram, em suma, orientar todas as suas escolhas de vida à educação das crianças em sentido amplo e profundo, podem acabar sendo julgadas como tendo cometido um “abandono intelectual”. O desconcerto da medida é flagrante quando se o contrasta com algumas situações vividas nas escolas, onde algumas crianças são não apenas abandonadas intelectualmente, mas expostas a expedientes degradantes – quando não têm, por vezes, sua integridade física ameaçada.
Por irônica coincidência, eu ouvi esta semana o relato de uma família com recursos parcos que matriculou as filhas numa escola estadual, mas que, por orientação da própria diretora!, levou a mais velha para casa, após ter feito um boletim de ocorrência registrando a quarta ou quinta agressão que a menina sofria de um outro garoto (coisa perigosa, acabou caindo e batendo a coluna na quina de um banco...) O garoto, este sim, pobrezinho, padece de um abandono, não só intelectual, mas moral, afetivo, total. Foi fácil para esses pais perdoarem o agressor mirim, ao notarem que ele simplesmente reage assim ao sofrimento que experimenta em casa, e que não recebe a devida orientação para lidar com ele. Por mais que a escola faça, não é possível suprir aquilo de que o garoto precisa. Quem está “abandonado”?
Esses meus questionamentos não têm como arcabouço a afirmação tácita de que todas as escolas são ruins, ou de que a concepção de uma educação de crianças em contexto escolar seja intrinsecamente ruim. Também não veicula tacitamente a ideia de que a educação domiciliar seja em absoluto um modelo excelente – até porque nenhum modelo existe em absoluto, mas sim em cada caso concreto –, muito menos a de que o homeschooling seja recomendado, indicado, aconselhado para qualquer família. Não, nenhuma dessas coisas. Todas as minhas ponderações têm como fundamento, agora sim, um princípio verdadeiro e geral, que deve ser respeitado por todos e levado em considerações por todos os governos, órgãos, instituições educacionais e... pelas próprias famílias. Falo ao mesmo tempo de um direito e de uma responsabilidade.
Antes de citar qualquer documento que advenha da autoridade religiosa, reproduzo algo que se lê na Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada na ONU em 1948. Artigo 26:
“1. Todo ser humano tem direito à instrução. [...]
2. A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos direitos do ser humano e pelas liberdades fundamentais. [...]
3. Os pais têm prioridade de direito na escolha do gênero de instrução que será ministrada a seus filhos.”
Uma tendência bastante perigosa de nossa época é imaginar, em suma, que de algum modo a educação dos filhos pode ser terceirizada
Diz – repito – que os pais têm prioridade de direito na escolha do gênero de instrução que será ministrada a seus filhos. O Brasil é signatário dessa declaração, e aliás participou ativamente de sua elaboração.
São João Paulo II, em 1994, publicou uma importante Carta às famílias. Pelo número 16, dizia o pontífice polonês:
“Os pais são os primeiros e principais educadores dos próprios filhos e têm também neste campo uma competência fundamental: são educadores porque são pais. Eles partilham a sua missão educadora com outras pessoas e instituições, tais como a Igreja e o Estado; todavia, isto deve verificar-se sempre na correta aplicação do princípio da subsidiariedade. Este implica a legitimidade e mesmo o ônus de oferecer uma ajuda aos pais, mas encontra no direito prevalecente deles e nas suas efetivas possibilidades o seu limite intrínseco e intransponível.”
Ali se afirma que o fato de sermos pais está intrinsecamente ligado ao papel de educar: são educadores porque são pais. A subsidiariedade do papel que têm o Estado e a Igreja não pode ferir o direito prevalecente dos pais. Diz também, a esse respeito, o Catecismo da Igreja Católica, nos números 2211 e 2221:
“A comunidade política tem o dever de honrar a família, de a assistir e de nomeadamente lhe garantir ... a liberdade de fundar um lar, ter filhos e educá-los de acordo com as suas próprias convicções morais e religiosas.
O papel dos pais na educação é de tal importância que é impossível substituí-los. O direito e o dever da educação são primordiais e inalienáveis para os pais.”
Entre uma e outra coisa, quero dizer, entre estes princípios de primazia e direito dos pais de escolherem o modo de educar seus filhos e aquelas medidas em que o Estado se arroga o direito de defini-lo, está o grande problema de nossa época. Todo o problema gira em torno da unidade, da indivisibilidade que há na autoridade dos pais, que é composta de direito e responsabilidade.
Giremos a questão no ar, como uma maçã, para que possamos apreciá-la desde vários pontos de vista.
Uma tendência bastante perigosa de nossa época é imaginar, em suma, que de algum modo a educação dos filhos pode ser terceirizada. Muitos pais, ao encontrarem uma boa escola, experimentam um certo alívio íntimo, como se houvessem finalmente transferido para mãos especializadas a tarefa difícil de formar um ser humano. Mas nenhuma instituição, por excelente que seja, pode substituir aquilo que apenas uma família é capaz de oferecer. A formação fundamental do homem acontece no lar.
É ali que a criança aprende a amar, a confiar, a obedecer, a falar, a olhar o mundo. É no ambiente doméstico que se formam os hábitos mais profundos da alma: o modo de tratar as pessoas, a relação com a verdade, o senso de ordem, a delicadeza, a capacidade de convivência, o gosto pelas coisas belas e bem-feitas. Tudo o mais será, em maior ou menor medida, um prolongamento dessa primeira escola invisível que é a família. Por isso os pais continuam sendo os principais educadores dos filhos, ainda quando delegam parte da instrução a professores. A escola participa da missão educativa; não a substitui.
Os colégios viraram algo mais parecido com uma fábrica da Revolução Industrial, ou mesmo com uma penitenciária, do que com uma casa, ou um mosteiro, como antigamente
Talvez um dos maiores erros modernos tenha sido transformar os colégios em instituições cada vez mais parecidas com repartições burocráticas – ou pior: com mecanismos de controle coletivo. Muitos estabelecimentos de ensino perderam completamente a atmosfera humana necessária à formação de uma criança. Tornaram-se lugares frios, impessoais, governados pela rotina, pela padronização e pelo anonimato. Os colégios viraram algo mais parecido com uma fábrica da Revolução Industrial, ou mesmo com uma penitenciária, do que com uma casa, ou um mosteiro (que é um outro tipo de família e de lar), como antigamente. E, bem, uma criança não pode amadurecer bem em ambientes desumanizados.
Uma escola deveria ser, de certo modo, uma continuação do lar, no sentido de conservar algo da vida humana concreta: o cuidado com os detalhes, a limpeza, a ordem, a presença pessoal, a amizade, o interesse verdadeiro pelos alunos como pessoas. É curioso quando alguns educadores desprezem as “meras aparências”, como algo puramente exterior. A limpeza das salas, o estado das carteiras, os vidros quebrados, as lâmpadas queimadas, o ambiente feio e descuidado – tudo isso seria secundário diante dos “verdadeiros problemas pedagógicos”. No entanto, o descuido material nunca é apenas material. Ele revela uma forma de olhar para as pessoas. Ambientes degradados comunicam silenciosamente que nada ali é realmente amado (preciso colar junto do artigo fotos de escolas públicas brasileiras, ou o leitor já sabe bem do que estou falando?).
Toda casa simples procura conservar certa dignidade. Substituem-se os objetos quebrados, limpam-se os móveis, organiza-se o espaço. Não porque isso seja luxo, mas porque o ser humano necessita de ordem exterior para respirar interiormente. Um colégio incapaz de cuidar minimamente do ambiente dificilmente conseguirá ensinar aos alunos o amor pelas coisas bem-feitas.
No outro extremo do problema, temos os colégios mais ricos e bem equipados, que mergulharam de cabeça nas novas tecnologias, trocaram papel e lápis por tablets, e... esqueceram-se totalmente de que a educação não é algo material. A ordem, o cuidado, o zelo, a responsabilidade pelas coisas materiais não é, em si mesma, material, certo? Não são as coisas por si mesmas que importam, afinal. É possível que um colégio tenha prédios magníficos, equipamentos modernos, programas sofisticados – e ainda assim fracasse miseravelmente na formação das pessoas. E também é possível, naturalmente, em ambientes modestos, quase pobres, construir verdadeiros lares educativos, onde as crianças cresçam cercadas de ordem, amizade, exigência e sentido humano.
Talvez essa seja a pergunta decisiva para toda escola: as crianças sentem-se ali como números ou como pessoas? Porque um colégio só se torna verdadeiramente educativo quando deixa de parecer uma prisão ou um parque de diversões e começa, ainda que imperfeitamente, a parecer uma casa.
Há uma diferença essencial entre ensinar e educar – diferença tão grande quanto a que existe entre fabricar objetos e formar almas. Ensinar pode tornar-se um processo mecânico. Antigamente, esse “ensino mecânico” era a transmissão impessoal de datas, fórmulas, listas, definições, nomes de rios, capitais e presidentes, como quem alimentava uma máquina de repetição. Atualmente, o “ensino mecânico” é ainda um pouco mais cruel: trata-se da programação de comportamentos e a inculcação de valores nem sempre verbalizados, por técnicas das quais pode-se ter notícia, por exemplo, por meio do livro Maquiavel pedagogo. Educar, porém, não é uma coisa nem outra... Educar é coisa de gente de verdade. Exige presença, conhecimento pessoal, vínculo humano, responsabilidade moral. Exige olhar para um aluno e enxergar nele não um número, mas uma pessoa. É por isso que a educação em massa, embora talvez inevitável em muitos contextos modernos, carrega consigo um perigo permanente: transformar o colégio, ou numa repartição pública, ou num negócio lucrativo, e o aluno, numa peça indistinta de um sistema.
Pode-se instruir multidões. Pode-se ensinar conteúdos em massa. Mas educar é necessariamente um ato pessoal. Também porque a educação verdadeira não se dirige apenas à inteligência; dirige-se à vontade, ao caráter, à sensibilidade, ao senso moral, ao gosto, à capacidade de amar o bem e desejar a verdade. Ela procura formar o homem inteiro. O conhecimento que se recebe na educação, quero dizer, todo seu aspecto intelectual, não pode ser um conteúdo à parte, desconectado do restante. O verdadeiro conhecimento transforma a pessoa. Por isso o verdadeiro colégio deve aspirar a ser uma extensão do lar – e por isso o lar, se assim for desejado e organizado pelos pais educadores, pode ser o ambiente central de toda a educação, e pode, sim, conter a formação intelectual.
Um colégio-lar nasce da convicção de que cada aluno merece atenção pessoal, e respeito como pessoa
Num lar autêntico, ninguém é reduzido a uma matrícula. Cada filho é conhecido pelo nome, pelo temperamento, pelas limitações, pelos talentos e pelas feridas. Conhece-se sua forma de estudar, suas facilidades e dificuldades, seus entusiasmos e medos. Sabe-se quem são seus pais, qual o ambiente em que vive, quais problemas o cercam. É assim que deveria ser também numa escola verdadeiramente humana. Um colégio-lar nasce precisamente dessa convicção: a de que cada aluno merece atenção pessoal, e respeito como pessoa. O ambiente escolar deveria reproduzir, nesse sentido, o clima de uma família numerosa e bem orientada: firme, ordenada, mas também calorosa e humana. Isso exige um enorme esforço dos educadores. Exige entusiasmo – essa virtude esquecida sem a qual toda pedagogia apodrece.
Os grandes centros de formação nunca se distinguiram apenas pela qualidade técnica dos seus métodos, mas por uma atmosfera invisível que impregnava tudo: professores que acreditavam profundamente no valor da missão que exerciam. Onde existe entusiasmo verdadeiro, a rotina perde força. Onde ele desaparece, mesmo os melhores sistemas degeneram. Quando uma escola alcança essa atmosfera, muitas estruturas artificiais se tornam desnecessárias. Desaparecem naturalmente os delatores, os castigos, as humilhações, os mecanismos obsessivos de controle. Permanece apenas aquilo que realmente educa: o encontro entre as pessoas.
No fundo, toda a questão escolar talvez possa ser reduzida a uma única pergunta: queremos formar homens livres ou apenas administrar comportamentos? Aquilo que vem do Estado revela um direcionamento bem claro para a segunda opção. E em nossas casas, no fim das contas, a grande pergunta talvez deva ser esta: o que estamos construindo dentro de nossas casas? Lares de verdade, ou um espaço de mera sobrevivência cansada? Eis o grande drama contemporâneo: multiplicamos escolas, tecnologias, métodos e avaliações, mas esquecemos que a verdadeira educação continua dependendo, como sempre dependeu, da qualidade humana daqueles que educam – como em nossas casas. Nenhuma reforma pedagógica substituirá um professor que ama a própria missão, e nenhum sistema salvará uma escola em que desapareceu o espírito de lar. Ou seja, nenhuma escola será sinônimo de verdadeira educação se não for uma continuação daquilo que pretendem os pais.
Queremos formar homens livres ou apenas administrar comportamentos? Aquilo que vem do Estado revela um direcionamento bem claro para a segunda opção
“Os pais são os primeiros e principais educadores dos próprios filhos e têm também neste campo uma competência fundamental: são educadores porque são pais.” “Os pais têm prioridade de direito na escola do gênero de instrução que será ministrada a seus filhos.” “A comunidade política tem o dever de honrar a família.”
Os pais, aqueles que assumem sua responsabilidade como tais, que buscam ser aquilo que deveriam, apesar de todas as dificuldades, transformam seu amor em fidelidade concreta mesmo quando o entusiasmo já passou; transformam o dever em serviço; transformam a rotina em ocasião de entrega; transformam suas casas em lugares onde os filhos possam respirar estabilidade, verdade, esperança e afeto. Os filhos talvez nunca percebam imediatamente o tamanho desse esforço... A infância costuma ser distraída demais para compreender a grandeza dos sacrifícios cotidianos! Mas o ambiente espiritual de uma casa molda silenciosamente a alma deles. Uma família em que há presença verdadeira, coerência, perdão e fé deixa marcas que nenhuma pedagogia consegue substituir.
Se não servem aos pais e àquilo que eles, em seu direito e responsabilidade inalienáveis, desejam para seus filhos, as escolas podem ser fechadas sem nenhum prejuízo para as pessoas. Talvez quem se prejudique sejam os políticos e os empresários... Se servem aos pais e os apoiam e ajudam na educação de seus filhos, se são extensões da educação doméstica, as escolas merecem ser louvadas e favorecidas. Ninguém sequer questionaria serem ou não obrigatórias, porque seriam desejáveis e desejadas. Pois, dito numa frase, educar é sempre algo que se faz em casa. Cabe às escolas parecerem-se, mais ou menos, com um verdadeiro lar.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos




