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Em seu filme de 1977, O ovo da serpente, Ingmar Bergman retratava a paulatina degradação de um casal na Berlim do ano de 1923. Ali a fome e o desemprego estavam generalizados, e começava a aparecer, visível como sob a casca transparente de um “ovo de serpente”, o germinar do totalitarismo e do antissemitismo que eclodiriam mais tarde. Aos que nunca assistiram ao filme, devo adiantar: não assistam se estiverem buscando algo relaxante, inspirador ou edificante. O filme é tenso, trágico, preocupante. Contudo, relembro essa peça do cinema justamente porque tem algo na nossa situação atual que é também muito tenso, trágico e preocupante – perturbador, como o filme é perturbador. Eu fiquei pensando nele desde que, na quinzena passada, publiquei aqui artigo sobre os propósitos de Ano Novo, dizendo que, na circunstância em que a maioria se encontra, qualquer propósito de início de ano seria algo vão sem que antes se recuperasse a capacidade mesma de cumprir um mínimo propósito, a capacidade de fixar a atenção, em suma, sem que antes se prestasse o devido cuidado ao vício do celular e das redes sociais.
Falei ali sobre os problemas que esse hábito terrível causa à nossa faculdade da atenção, e também à faculdade da nossa memória, e sugeri algumas medidas, dicas simples, que poderiam abrir o caminho para uma melhora. Mas depois pensei, entretanto, que talvez não tenha dado a devida dimensão do problema, que não é apenas grave, mas gravíssimo, capital, e que deveria aprofundá-lo um pouco mais, já que não o vejo sendo tratado em outros meios. Falo sempre sobre o problema do uso de telas com nossos filhos, e incentivo o seu abandono. Mas reparem que já há uma geração inteira que não sabe o que é a vida sem elas – e os próprios pais, adultos, como tirarão das mãos de seus filhos aquilo que está grudado às suas próprias?
No filme de Bergman, o casal tenta escapar da miséria aceitando uma espécie de emprego com seus benefícios: o homem deve trabalhar em suspeitíssimos e escusos escritórios do regime, e o casal pode então morar num pequeno apartamento oferecido pelo empregador. Como disse acima, o filme retrata a paulatina degradação desse casal, num crescente de irritação, angústia, medo, desconforto, doença, incompreensão, desespero. Ladeira abaixo, eles param à beira da loucura. Descobre-se, enfim — atenção!, spoiler —, que aquilo tudo faz parte de um tenebroso experimento humano, promovido por insanos cientistas pré-nazistas: naquele pequeno apartamento, está o tempo todo sendo liberado um gás que adoece e confunde o ser humano, enquanto seu comportamento é observado por câmeras e vigias atrás dos espelhos.
Aonde quero chegar? Ao fato de que o uso viciante dos celulares e das redes sociais está crescendo a olhos vistos, como uma cria de serpente sob a casca transparente; está sendo inalado no nosso ar, todos nós estamos vivendo imersos nessa atmosfera enlouquecedora; as pessoas estão ficando verdadeiramente viciadas, e estão sofrendo as graves consequências desse vício, e mesmo assim a maior parte das pessoas parece estar demorando a se dar conta da gravidade do problema. Trarei abaixo algumas informações e algumas conexões, tiradas especialmente do livro já mencionado antes, o estudo do Dr. Iturrieta, doutor em filosofia política e jurídica pela Universidade Carleton do Canadá.
O uso viciante dos celulares e das redes sociais está crescendo a olhos vistos, como uma cria de serpente sob a casca transparente
Chamo a atenção, hoje, não diretamente para o que o uso intenso e adictivo das redes sociais causam no cérebro humano, mas sim para as mudanças que elas vêm causando ao nosso comportamento.
No final do século xx, os pesquisadores começaram a identificar a dependência de internet como um novo distúrbio clínico. Observou-se que a experiência digital ativa mecanismos cerebrais semelhantes aos provocados por substâncias químicas: momentos de excitação e prazer seguidos por um desejo crescente de repetição. Ainda quando a tecnologia era limitada, já se notava seu potencial de gerar dependência. Com a popularização dos smartphones, da internet rápida e do acesso constante, esse potencial foi amplificado de forma dramática.
A dependência digital pode ser descrita como um conjunto de preocupações, impulsos e comportamentos mal controlados relacionados ao uso da tecnologia, capazes de provocar sofrimento psicológico, prejuízos sociais e deterioração da vida cotidiana. Ela se manifesta quando a pessoa recorre repetidamente a um comportamento que produz alívio ou prazer imediato, mas gera danos significativos a médio e longo prazo. No caso da internet, esses danos incluem alterações neurológicas, transtornos emocionais, conflitos interpessoais, sintomas de abstinência e recaídas frequentes.
Nas últimas décadas, a proporção de pessoas afetadas por algum grau de dependência digital cresceu de forma acelerada, especialmente entre jovens. Em vários países, observa-se uma concentração maior desses quadros em faixas etárias mais novas, e o número de indivíduos encaminhados a tratamento clínico aumentou de maneira exponencial. Em algumas regiões do mundo, já existem centenas de clínicas especializadas no tratamento da dependência tecnológica.
Apesar disso, ainda é comum resistir à ideia de que o uso do celular possa ser comparado a outras formas de dependência. No entanto, as consequências do uso abusivo da tecnologia apresentam características muito semelhantes às observadas no abuso de substâncias: sintomas de abstinência, alterações de humor, mudanças no funcionamento cerebral, liberação repetida de dopamina, prejuízo em áreas essenciais da vida e dificuldades crescentes para cumprir obrigações básicas.
Do ponto de vista neurológico, o mecanismo é claro: a repetição contínua de estímulos altamente recompensadores leva o cérebro a reduzir progressivamente a produção de dopamina. Com isso, torna-se necessário aumentar a intensidade ou a frequência da experiência para alcançar o mesmo nível de satisfação. Entre um estímulo e outro, instala-se um vazio emocional cada vez mais profundo, que reforça o ciclo de dependência. E esses efeitos são bem visíveis no cotidiano: basta observar a reação de uma criança quando o dispositivo lhe é retirado, ou a dinâmica de muitas famílias durante as refeições, em que cada membro permanece imerso em sua própria tela.
Hoje, torna-se cada vez mais difícil ignorar a responsabilidade das grandes empresas de tecnologia. Investigações recentes indicam que plataformas digitais são deliberadamente desenhadas para capturar e manter a atenção do usuário, explorando mecanismos psicológicos e neurológicos para maximizar engajamento. Esses sistemas não apenas incentivam o consumo, mas também moldam percepções, influenciam a forma de pensar e produzem visões distorcidas sobre a realidade, sobre si mesmo e sobre os outros. A dependência da internet não é fruto do acaso. Ela resulta de um processo cuidadosamente estudado, testado e refinado em tempo real, sobre milhões de usuários, para que cada elemento — design, cores, sons, notificações e algoritmos — seja cada vez mais eficaz em capturar e reter a atenção. O objetivo central dessas plataformas é alcançar níveis extremamente elevados de engajamento, sem que o bem-estar do usuário represente um critério relevante nessa equação. As grandes plataformas tecnológicas dependem da extração massiva de dados e do tempo de permanência do usuário para gerar lucro. Criar comportamentos adictivos significa aumentar ganhos financeiros, razão pela qual não há incentivo real para limitar esses mecanismos.
Especialistas em ética da tecnologia têm insistido que o problema não está na falta de força de vontade individual, mas no fato de que os sistemas digitais são deliberadamente projetados para minar o autocontrole humano. O ambiente digital, assim configurado, torna-se muito mais propício à dependência do que qualquer contexto que a humanidade tenha conhecido até hoje!
A migração para o mundo digital foi tão radical que transformou o brincar, a convivência e a interação social de crianças e adolescentes em experiências predominantemente mediadas por telas
Grande parte dos aplicativos opera com fluxos infinitos de conteúdo. Não há um ponto natural de encerramento: as redes sociais nunca se esgotam, as plataformas de streaming iniciam automaticamente o próximo episódio, os aplicativos de relacionamento exploram mecanismos biológicos ligados à busca por vínculo e recompensa. Em teoria, seria possível passar uma vida inteira nessas plataformas sem jamais alcançar um fim. Não é por acaso que muitos executivos e engenheiros dessas empresas impõem limites rigorosos ao uso de tecnologia dentro de suas próprias casas... Eles conhecem de perto os riscos envolvidos e sabem o impacto que esses mecanismos podem ter sobre crianças e adolescentes.
Ora, diversos estudos indicam que crianças e jovens que passam mais tempo diante das telas apresentam maior prevalência de sintomas de depressão, ansiedade e ideação suicida do que aqueles que dedicam mais tempo a atividades não mediadas por dispositivos digitais. Um dado particularmente revelador é que o aumento significativo desses sintomas entre adolescentes coincide, a partir da década passada, com a popularização dos smartphones e das redes sociais de uso diário. Jovens que passam várias horas por dia conectados apresentam riscos estatísticos consideravelmente maiores de sofrimento psíquico grave quando comparados àqueles cujo uso é mais restrito.
As redes sociais, em particular as plataformas visuais e de consumo rápido, vêm substituindo todas as formas de interação presencial entre os jovens. A sociabilidade digital, praticamente ilimitada e desvinculada de qualquer lugar físico, cria um ambiente em que aspectos centrais da vida adolescente passam a ser expostos e avaliados publicamente. O tamanho do círculo social, a aparência física, os gostos e até a intimidade emocional ficam submetidos à contagem impessoal de curtidas e comentários — muitas vezes hostis ou depreciativos. Esse mecanismo tende a intensificar traços já delicados do comportamento adolescente, como a busca por aprovação, a comparação constante e a instabilidade emocional.
Saímos de um modelo baseado principalmente em mensagens trocadas entre amigos para outro centrado na publicação de imagens cuidadosamente editadas, expostas à espera de comentários e de uma contagem pública de curtidas. No início, poucos perceberam que essa mudança nos colocava sob um regime permanente de julgamento público, potencialmente devastador. Há situações em que uma única postagem foi suficiente para submeter uma adolescente a escárnio público — não apenas no ambiente escolar, mas também em escala muito mais ampla, por meio de ataques virtuais de desconhecidos. Essas experiências deixam marcas emocionais profundas, que frequentemente perduram por toda a vida. A migração para o mundo digital foi tão radical que transformou o brincar, a convivência e a interação social de crianças e adolescentes em experiências predominantemente mediadas por telas.
Não surpreende, portanto, que muitos transtornos psicológicos estejam associados à baixa autoestima. Ela aparece ligada a transtornos alimentares, ansiedade, depressão, comportamentos obsessivo-compulsivos, abuso de substâncias e dificuldades de relacionamento. Entre meninas adolescentes, a ligação entre redes sociais visuais e imagem corporal é particularmente intensa, o que ajuda a explicar o aumento expressivo de distúrbios alimentares nesse grupo.
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Outro ponto a se notar, talvez aparentemente menos grave, é que uma das consequências mais diretas do uso excessivo e persistente de celulares, tablets e outros dispositivos emissores de luz é a privação crônica do sono. Trata-se de um problema global que afeta uma parcela significativa da população adulta e, de forma ainda mais preocupante, crianças e adolescentes.
Entre os efeitos da falta de sono estão dificuldades cognitivas, maior propensão a doenças, alterações de humor, enfraquecimento do sistema imunológico, problemas cardiovasculares, distúrbios metabólicos, depressão, obesidade, diabetes e maior risco de determinadas enfermidades graves. Diversos autores têm apontado que vivemos uma verdadeira crise de privação de sono, com impactos profundos na saúde, no trabalho, nas relações familiares e na estabilidade emocional. Muitos adolescentes dormem significativamente menos do que o necessário, em grande parte devido ao tempo prolongado diante do celular.
Há ainda uma explicação biológica clara para o problema. A luz azul emitida pelas telas, embora não seja prejudicial aos olhos em si, interfere diretamente no ciclo circadiano. Esse tipo de luz sinaliza ao cérebro que é hora de despertar, inibindo a produção de melatonina, o hormônio responsável pelo sono. Quando a exposição ocorre nas horas que antecedem o repouso, o relógio biológico se desregula, dificultando o adormecer e comprometendo a qualidade do descanso. Dormir pouco, portanto, não é apenas uma consequência colateral do uso de tecnologia, mas parte integrante de um ciclo que afeta profundamente o equilíbrio físico, emocional e mental.
E a relação entre depressão e privação de sono é bidirecional: quem dorme mal tende a desenvolver sintomas depressivos, e quem está deprimido frequentemente apresenta distúrbios do sono. Jovens que dormem menos do que o recomendado apresentam maior probabilidade de desenvolver sintomas depressivos e riscos associados ao suicídio.
Uma revisão dos estudos mais relevantes sobre a saúde mental de adolescentes nas últimas décadas revela um panorama alarmante. A partir de 2010, observou-se um crescimento acentuado nos índices de depressão, ansiedade, automutilação e suicídio, especialmente entre meninas. Uma variável chama particularmente a atenção nesse período: a migração massiva da população adolescente para o mundo digital a partir de 2010. É difícil ignorar o paralelo entre o aumento do uso do celular, a migração massiva para o mundo digital — especialmente para as redes sociais — e a escalada de problemas psicológicos graves entre adolescentes. Desde 2010, o uso do celular e das redes sociais foi a única atividade que cresceu de maneira realmente significativa entre adolescentes. Diante disso, torna-se difícil atribuir o aumento da privação de sono, da depressão, da ansiedade, dos problemas de autoestima e dos distúrbios alimentares a outro fator principal.
O mais inquietante é que ainda não conhecemos plenamente a extensão dos danos causados por esse hábito. Os membros mais jovens da chamada geração do smartphone ainda estão alcançando a idade adulta, e somente nos próximos anos será possível dimensionar com maior clareza as consequências dessa exposição precoce e contínua à tecnologia.
Como eu quisera demonstrar, estamos todos inalando um gás mortal, que nos vem deprimindo, confundindo, isolando, machucando — e quando nos daremos conta? Que futuro está preparado para um mundo de viciados assim?
Diz o personagem Brutus, na peça Júlio César, de Shakespeare:
... portanto pensemos nele como um ovo de serpente,
Que, chocado, crescerá maligno segundo a sua natureza;
Mate-mo-lo ainda dentro da casca.




