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Imagine um dia de chuva muito intensa, a água caindo do céu às torrentes. O som forte da enxurrada enche de ruído os nossos ouvidos, a vista fica totalmente prejudicada. Ainda mais para quem esteja dentro do carro: todo mundo sabe o quanto é péssimo guiar debaixo de chuva, o caudal assolando o vidro do para-brisa, e as palhetas, desesperadas, lançando água para um lado e para o outro, com a mesma aflição de um marujo que quisesse pôr água para fora do seu barco com um balde, sob pena de naufragar se não for suficientemente rápido.
Ninguém sai de casa com este tempo, mas, e quem já estava fora de casa? É preciso enfrentar. Pobre de quem está a pé, porque a capa de chuva não basta, o guarda-chuva já virou pelo avesso, tentamos nos cobrir com o jornal... Ah, eu deveria ter dito que estamos no Rio de Janeiro, numa rua de estrutura bem limitada, iluminação amarela fraca, a água escoa com dificuldade pelas bocas de lobo. Dentro dos carros, atenção redobrada, atenção triplicada, muita tensão. Avançam devagarzinho, como a gente, no quintal, com medo de escorregar, os fuscas e os opalas pelas ruas. Ah, sim, porque eu esqueci de dizer que estamos no Rio de Janeiro da década de 60, mais para o fim do decênio.
Dona Mercedes, já com seus 70 anos, não enxerga nada. Deveria ter saído de casa? Será que se arrependeu? Provavelmente. Está apressada para sair logo da chuva, embora já esteja molhada até os ossos, e vai dando passinhos mais lépidos – os mais rápidos que pode antes de correr, porque correndo se arriscaria muito a cair. Vê a faixa de pedestres; hesita, olha para os lados, e não enxerga nem ouve motor de carro algum. E então, quando avança para além do meio-fio, tum!
Havia um táxi percorrendo a avenida, o chofer não via um palmo à frente do vidro. Atropelou a senhora, lançou seu corpo para longe. Uma fratura na base do crânio. O taxista, mortificado, fez tudo o que se deve fazer, tudo o que podia ser feito. Prestou socorro, levou-a ao hospital, ficou ao lado do esposo da senhora até o último segundo. Dignou-se sepultar aquela cujo destino se cruzara – infelizmente? que desejava com isso a Providência? –, cujo destino se entrechocara fatalmente com o dele naquele dia de dilúvio. “O chofer não teve culpa”, como ouvimos lá na canção.
A dificuldade de perdoar não diz respeito apenas à gravidade da ofensa recebida, mas à qualidade do amor que somos capazes de oferecer
Passam-se dez anos. Um belo dia, sai um cidadão do Aeroporto Santos Dumont. Um pouco ofegante, porque não é dos mais magros, faz esforço por arrastar sua bagagem, limpa o suor da testa com as costas da mão esquerda. Ergue-a, então: – Táxi! E um carro amarelo se aproxima do meio-fio.
A viagem transcorre em silêncio pelas ruas da Cidade Maravilhosa. O pensamento do passageiro voou longe... repassou agenda, pensou em roteiro, em gravação, em telefonemas pendentes... E seus olhos escorregavam, através da janela do carro, neste dia de luz diáfana e clara, em que se podia ver tudo perfeitamente, pelas velhas ruas do Rio de Janeiro.
Quando chegam ao destino, ao parar o carro, o motorista é tomado de uma tensão extra. Não se vira imediatamente, para receber o valor da corrida, seguir seu caminho. Fica parado com as mãos no volante. Por quê? Então toma coragem, se vira, e diz ao que estava no banco de trás. Fui eu que atropelei a senhora sua mãe. E, desde então, ao longo desses dez anos que se passaram, não tenho dormido, não tenho paz. Eu preciso que o senhor me perdoe. – Mas o senhor não teve culpa alguma, e já está perdoado desde aquele dia em que socorreu minha mãe, levou-a ao hospital, e ficou ali, sentadinho ao lado do meu pai, até que tudo terminasse. – Mas eu preciso que o senhor me perdoe, que diga “Eu te perdoo”, insiste o homem, cujo destino se cruzou, felizmente, com a daquele ilustre passageiro naquele dia. – “Então eu te perdoo, vai em paz”, diz o homem, ecoando as palavras rituais que pronuncia um sacerdote, e se põem os dois a chorar, a chorar mais lágrimas do que as que lavavam as ruas naquele dia, dez anos atrás, e que agora lavam duas almas, lavam uma história, de fonte que jorra para a vida eterna.
Para quem acaso não saiba, a história em questão é do artista Jô Soares, falecido há poucos anos. Ele mesmo narrou essa história (com alguns detalhes a menos, que eu mesma imaginei). E ressaltava em seguida, esse enorme coração, que o perdão é a coisa mais importante.
Rememorando essa história, por esses dias, pensei que trazer o tema para a reflexão desta coluna fosse uma boa ideia. Embora eu já tenha tratado dele tempos atrás, sua riqueza é inesgotável. O perdão é uma realidade tão misteriosa, tão desconcertante, tão libertadora e tão incrível, que nunca será demais mergulhar nesse gesto que é a concretude do amor. Porque, francamente, perdoar não é fácil. E essa afirmação, banal na aparência, tantas vezes repetida, esconde uma verdade que poucas pessoas estão dispostas a encarar de frente: a dificuldade de perdoar não diz respeito apenas à gravidade da ofensa recebida, mas à qualidade do amor que somos capazes de oferecer. E, mais ainda, à imagem que fazemos de nós mesmos.
Quando alguém nos fere – e aqui não falo de frivolidades, mas daquelas feridas que marcam, que deixam uma dor que às vezes nem sabemos nomear –, o primeiro impulso raramente é a generosidade; é o espanto. É o “como você pôde?!” É, por vezes, o desejo de que aquela página nunca tivesse sido escrita no livro da vida. O perdão começa num lugar improvável: não na força, mas na vulnerabilidade de quem foi atingido e, mesmo assim, decide olhar além do golpe.
Há uma frase que resume bem o movimento interior que o perdão exige: “Eu te amo mais do que a dor que você me causou”. Simples de dizer, custosa de viver. Porque perdoar não é fingir que a ofensa não existiu, nem minimizá-la por conveniência. É, ao contrário, reconhecê-la em toda a sua extensão – e, mesmo assim, recusar-se a deixar que ela seja a última palavra sobre quem a cometeu.
Existe, porém, uma condição prévia para que o perdão seja genuíno: o conhecimento honesto de si mesmo. Quem acredita estar imune ao erro, quem se vê num patamar de onde julga os que caíram, não perdoa: condescende. E há uma diferença abissal entre as duas coisas. A realidade é que somos seres frágeis. Não no sentido derrotista da palavra, mas no sentido preciso: estamos, todos nós, a um passo de decisões que não faríamos em condições normais. Uma doença na família, uma mudança brusca de circunstâncias, um período prolongado de exaustão – e tudo aquilo que construímos com tanto cuidado começa a rachar. Um abismo chama outro abismo, como se sabe. E quem não tem essa consciência sobre si mesmo tende a olhar para o outro que caiu com estranheza, como se a queda fosse uma anomalia, e não uma possibilidade sempre presente na condição humana.
O principal obstáculo ao perdão não é a gravidade da ofensa: é o orgulho. Não necessariamente o orgulho ruidoso, mas aquele mais silencioso e insidioso que se disfarça de sensatez
É justamente essa consciência – de que somos feitos do mesmo barro – que nos torna capazes de uma misericórdia verdadeira. Não a misericórdia piegas, que se compraz na própria benevolência, mas aquela que reconhece no outro um espelho possível de si: eu sei do que você é feito, porque eu também sou feita dessa matéria. E logo se vê que o principal obstáculo ao perdão não é a gravidade da ofensa: é o orgulho. Não necessariamente o orgulho ruidoso, que se proclama superior em voz alta, mas aquele mais silencioso e insidioso que se disfarça de sensatez. O que nos faz dizer “não foi assim tão grave” quando somos nós os autores da ofensa. O que nos faz reduzir o outro a “sensível demais” quando ele se magoa com o que fizemos. O que nos impede de ir até alguém e dizer, simplesmente: “Errei, perdoe-me”.
Pedir perdão é um gesto grande. Há quem diga que ninguém é tão grande quanto quando se ajoelha – e a imagem, longe de ser piegas, é precisa. Porque pedir perdão de joelhos, no sentido próprio ou figurado, não é se diminuir: é reconhecer a realidade. É dizer: eu errei, e esse erro importa, porque você importa. É a contrição verdadeira, que não se contenta com um “desculpa” automático, jogado no ar como quem pede licença numa calçada movimentada.
A contrição verdadeira leva a outra coisa: ao propósito de não repetir. E esse propósito, para ser honesto, precisa de meios concretos: Fugir da circunstância que nos trouxe até ali; afastar-se de companhias ou situações que nos enfraquecem; construir, ativamente, as condições para não voltar ao mesmo abismo. Sem isso, o pedido de perdão, por mais sincero que pareça no momento, não passa de um alívio temporário, e a reincidência confirma o que a contrição negava.
Cada pessoa tem o seu tempo para absorver uma ofensa, para reconhecer que errou, para se dispor ao encontro, e forçar esse tempo é tão contraproducente quanto ignorá-lo completamente. Porque o silêncio prolongado alimenta a imaginação, e o que era uma mágoa administrável vai se tornando, dia após dia, uma narrativa inteira de ressentimento. Algo que muitas vezes não era tão grande assim se transforma numa bola de neve, e as duas pessoas que precisavam se encontrar ficam cada vez mais distantes, presas numa guerra que já ninguém mais sabe ao certo como começou.
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Por isso, às vezes cabe a quem foi ofendido tomar a iniciativa. Não para absolver precipitadamente quem errou, nem para engolir o que não deve ser engolido, mas para abrir a porta do diálogo, oferecer uma brecha por onde a reconciliação possa entrar. Esse gesto, aparentemente pequeno, pode ser o que desfaz um nó que nenhuma das partes conseguia desatar sozinha. Reduzir uma pessoa ao pior que ela fez é uma operação que parece justa – e é exatamente aí que mora o engano. Porque a justiça, sem misericórdia, vê o ato e perde de vista o autor; condena o erro e, com ele, condena também tudo o que aquela pessoa ainda poderia ser.
O Evangelho guarda uma cena que ilumina isso com precisão. Uma mulher, conhecida na cidade por sua vida pública de pecados, entra na casa de um fariseu onde Jesus estava à mesa. Chora aos pés dele, molha-os com as lágrimas, seca-os com os cabelos. O fariseu a vê e julga: uma pecadora. Jesus a vê e perdoa – mas, antes disso, vê. Vê além do rótulo, além da história que a cidade conta sobre ela. “Você vê essa mulher?”, pergunta ao fariseu – e a pergunta é uma acusação suave: você está olhando, mas não está vendo.
Há mães que entendem isso intuitivamente. Que são capazes de olhar para um filho que falhou – gravemente, até – e continuar enxergando quem ele é, para além do que ele fez. Esse olhar não é ingenuidade; é uma forma de amor que aposta na pessoa para além das suas circunstâncias. É o olhar de quem acredita que o erro não é a definição do outro – que há ali um Davi escondido no mármore, esperando ser revelado. Michelangelo dizia que esculpir era retirar o que não era a figura. Talvez perdoar seja algo assim: retirar, com paciência, o que não é a pessoa. O que foi feito de ruim não a define. Ela é imagem e semelhança de algo muito maior – e pode chegar a uma plenitude que, sem um olhar misericordioso próximo, dificilmente alcançará.
O perdão é um ato de fé. Fé de que o outro é mais do que o seu pior momento
Uma pessoa de quem gosto muito costumava dizer que nunca precisou aprender a perdoar, porque aprendeu a amar. À primeira vista parece um atalho fácil, quase um aforismo de calendário. Mas quanto mais se pensa nisso, mais a frase revela sua verdade radical: quando o amor é profundo o suficiente, o erro do outro não desaparece do campo visual, mas deixa de ser o centro da cena. O que chama a atenção não são os defeitos, mas a dignidade. É claro que isso não se conquista de uma vez. É um exercício – para nós, e para os filhos que criamos. Ensiná-los a pedir perdão quando erram, mesmo sem intenção de ferir. Ensiná-los a dar tempo ao outro, sem abandonar o esforço de reconciliação. Ensiná-los que reconhecer o próprio erro não é fraqueza, mas grandeza!
No fundo, o perdão é um ato de fé. Fé de que o outro é mais do que o seu pior momento. Fé de que o amor tem mais força do que o ódio. Fé de que vale a pena, sempre, escrever de novo a história. Nem todos nós vivemos situações graves, acidentes, crimes, grandes injustiças – mas alguns de nós vivemos, sim. E então? Também podemos dizer que nem todos terão, como o taxista do acidente e Jô Soares, um presente tão grande de Deus, uma oportunidade assim dramática, quase cinematográfica, de nos reencontrarmos face a face com nosso passado, para enfim pedir perdão e perdoar. Mas a cada um caberão as oportunidades que a Providência reserva, e o importante é não desperdiçá-las, por piores que elas pareçam. Nunca será exatamente gostoso, atrativo, desejável. Mas pedir perdão e perdoar, cada um por suas razões, que se completam e definem, é verdadeiramente, profundamente desejável e libertador. Nos dias de chuva e nos dias de sol, o nosso destino se cruzar a todo momento com os das outras pessoas... Que estejamos sempre prontos a perdoar e amar.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos








