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Pablo Marçal (PRTB) revelou a estratégia da sua inesperada entrada na corrida presidencial. Já na primeira sabatina como candidato, feita ao canal Brasil Paralelo, nesta segunda-feira (17), disse que imporá derrota histórica ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e anulará os rivais da terceira via.
Marçal ainda justificou por que evita o confronto com Flávio Bolsonaro, com quem disputa o voto conservador. Para ele, uma desidratação excessiva do candidato do PL ajudaria Lula e poderia até criar condições para o petista ser reeleito no primeiro turno. A prioridade é, então, impedir tal cenário.
A lógica explica por que Marçal, neste momento, planeja tirar votos de candidatos que tentam se vender como opção a Lula e Flávio. Se crescer sobre Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão), concentraria os votos antipetistas e reforçaria a barreira eleitoral contra Lula.
A estratégia torna a candidatura do empresário a segunda linha de ataque da direita. Flávio preservaria o eleitorado consolidado e Marçal colheria conservadores, antipetistas, eleitores antissistema e parcela da direita avessa ao PL, mas que poderiam ser atraídos por nomes alternativos.
A candidatura registrada pelo PRTB no sábado (15), último dia do prazo, ainda depende do aval do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em razão da atual inelegibilidade de Marçal até 2032. Essa dúvida ainda pode se arrastar.
Marçal defende que evitar vitória de Lula seja prioridade de toda a direita
Com a candidatura, Marçal tenta realinhar a direita em torno do que apresenta como objetivo maior: tirar Lula do poder, acima das disputas internas do campo conservador. Sua missão, sustenta, é impedir uma quarta vitória do petista, evitando que rivalidades na direita facilitem sua reeleição.
Na sabatina, Marçal contou ter telefonado para Flávio logo após registrar a candidatura para tranquilizá-lo. O gesto contrasta com a agressividade dedicada a outros adversários e reforça a estratégia de preservar, ao menos inicialmente, o candidato oposicionista mais competitivo contra Lula.
A disposição de Marçal de preservar Flávio não surgiu com sua candidatura. Em 17 de dezembro de 2025, ainda no PRTB e antes de migrar para o União, declarou apoio ao senador num evento em Barueri (SP), prometeu ir à “guerra” com ele e o chamou de “o Bolsonaro que a gente sempre quis”.
A aproximação continuou quando Marçal mudou de partido. Na véspera de sua filiação ao União, em 6 de março de 2026, afirmou que tentaria convencer a nova legenda, comandada por Ciro Nogueira (PI), a apoiar Flávio. “Vou lutar para o meu apoio pessoal ser também o do partido”, declarou à época.
O União e o PP, com o qual forma federação partidária, acabaram se declarando neutro na reta final da eleição presidencial.
Entrada de Marçal no jogo provoca reação de rivais e impacta estratégias
O vínculo entre Marçal e Flávio alimenta suspeitas dos rivais sobre uma divisão informal de tarefas. Renan Santos afirmou que Marçal teria atuado como consultor de marketing de Flávio e que sua candidatura o beneficia. No papel de outsider, o candidato do Missão deve ser o mais afetado no novo cenário.
Renan reagiu rapidamente, classificando Marçal como “folclórico” e afirmando que sua entrada trabalha para o PL. O incômodo revela onde a candidatura surpresa pode produzir maior impacto: entre os nomes que procuram romper a polarização de Lula e Flávio. Marçal prevê 1,5% dos votos para o Missão.
Caiado aparece como alvo direto. Marçal disse que a aliança com o pragmático presidente do PSD, Gilberto Kassab, “destruiu” a candidatura do seu conterrâneo de Goiás, admitindo convidá-lo para seu governo. A mensagem rejeita a viabilidade eleitoral de Caiado e busca unidade na direita.
Marçal tem ativos específicos nessa disputa. O domínio das redes, a linguagem provocadora e a capacidade de transformar confrontos em fatos políticos permitem alcançar segmentos que campanhas tradicionais têm dificuldade. Sua entrada deve ampliar o perímetro eleitoral da direita.
Candidatura surpresa e pendente do TSE desperta forte mobilização online
O empresário encontra ressonância particular entre evangélicos, jovens e empreendedores. A combinação de fé, prosperidade, mérito e ascensão pessoal dialoga com um eleitorado majoritariamente antipetista, mas que nem sempre se identifica integralmente com a liderança da família Bolsonaro.
Esse potencial ajuda a explicar por que medir seu efeito só pela intenção de voto seria insuficiente. Marçal mostrou na eleição paulistana de 2024 capacidade de transformar frases, confrontos e controvérsias em conteúdo viral, pautando adversários e tomando espaço muito superior ao de partidos.
Flávio enfrenta situação distinta. Seu eleitorado está mais consolidado pelo sobrenome, pela identificação com suas pautas e pela polarização contra Lula. Marçal pode até lhe tirar votos, mas, inicialmente, encontra terreno entre eleitores de direita dispersos por candidaturas menores ou sem candidato.
Marçal tende a favorecer Flávio, mas isso depende do fôlego da candidatura
A variável decisiva para saber até onde Marçal ajudará Flávio está na duração de sua candidatura e a direção de suas baterias. Se concentrar ataques em Lula e na terceira via, poupando o senador, ele poderá funcionar como linha auxiliar da direita, a exemplo do Padre Kelmon (PTB) em 2022.
Se disputar frontalmente a liderança conservadora, porém, poderá fragmentar esse campo e obrigar o PL a reagir. Há uma fronteira entre cooperação circunstancial e concorrência. Quanto mais Marçal crescer, maior será o incentivo para desafiar Flávio. O personagem que hoje pode servir como segunda barreira contra Lula poderá amanhã concluir que tem força suficiente para liderar a direita.
Sobre tudo isso paira a incerteza jurídica. A candidatura nasceu de liminar que permitiu o retorno de Marçal ao PRTB e o registro no limite do prazo, mas segue submetida à Justiça Eleitoral. A condenação relacionada à campanha municipal de 2024 mantém aberta a chance de sua retirada da disputa.
Para Adriano Cerqueira, professor de relações políticas do Ibmec-BH, a entrada de Marçal acrescenta incerteza por seu poder de comunicação. Ele vê dificuldade em retirar votos de Flávio, considera altamente improvável uma aproximação com Lula e avalia que o impacto dependerá do alvo escolhido — e de quanto tempo a candidatura sobreviverá.

Jornalista de política e economia com foco na cobertura do Congresso Nacional. Passou pelos jornais Diário do Comércio (MG), Gazeta Mercantil, Estado de Minas, Brasil Econômico, Correio Braziliense e A Tarde (BA). **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




