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A derrota de Flávio Bolsonaro (PL) para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deslocou para o Congresso a batalha política e institucional da direita contra a aliança entre o presidente reeleito e o Supremo Tribunal Federal (STF). O primeiro desafio para parlamentares opositores será converter a força que ganharam das urnas em controle real da Câmara e, sobretudo, do Senado.
O PL terá 121 deputados e 28 senadores em 2027, maiores bancadas de partido nas duas Casas há décadas. Seu peso lhe garante protagonismo, mas ainda exige alianças com a centro-direita. Na Câmara, a esquerda e a centro-esquerda somam 124 cadeiras, forçando Lula a negociar fora de seu campo.
A oposição reunirá 45 senadores em 2027, enquanto a atual base governista recuará de 38 para 26, nove deles petistas. A contagem indica vantagem clara, mas não assegura disciplina em votações. Para chegar aos 41 votos exigidos para obter o comando do Senado, o PL depende de 13 apoios de outras legendas.
“Lula venceu no Executivo, mas os seus adversários prevaleceram no Legislativo”, resumiu Juan Carlos Arruda, do Ranking dos Políticos. Ele lembra que o Senado é decisivo para filtrar indicações ao STF, além de embaixadores e diretores de agências reguladoras. “A maioria hostil no Senado poderá fazer o governo moderar nos nomes indicados”, prevê.
Disputa pelo comando do Congresso será o primeiro teste da oposição
Rogério Marinho (PL-RN) e Tereza Cristina (PP-MS) aparecem como nomes de oposição alternativos à continuidade de Davi Alcolumbre (União-AP) na presidência do Senado. A derrota de Flávio fez Marinho, coordenador de sua campanha, rever planos. Já a senadora se oferece como ponte com o centrão, onde Arthur Lira (PP-AL) chega ao Senado para influenciar a distribuição do poder para 2027.
Alcolumbre tentará dividir o campo conservador para seguir no cargo. Hugo Motta (Republicanos-PB) entra na disputa da Câmara fortalecido pelo apoio de 12 partidos, embora o PL avalie candidatura própria, com destaque para o nome de Sóstenes Cavalcante (RJ).
A reeleição de Lula ajuda os seus aliados que presidem as duas Casas do Congresso, mas, até agora, só o chefe do Executivo assegurou a condição de líder de um dos poderes da República. Os ministros da Corte, por sua vez, não tinham alternativa a não ser atuar em favor da reeleição de Lula, para se proteger.
Não por acaso, Alexandre de Moraes organizou um jantar para reaproximar Lula de Alcolumbre. O episódio revela uma interlocução política relevante. Para a direita, o cenário que emergiu das urnas só reforça o incentivo a romper a proteção recíproca entre Executivo e Judiciário, que é sustentada pelo Senado.
Os ministros Cristiano Zanin e Flávio Dino, indicados por Lula no atual mandato, simbolizam para a direita a influência presidencial mais explícita no STF, que poderá receber ainda novos nomes no quarto mandato.
A reação dos parlamentares de direita para se contrapor aos agentes de toga do Palácio do Planalto anda em paralelo com a necessidade de buscar limites para o Supremo, sobretudo para as devastadoras decisões individuais dos magistrados.
Reforma do Judiciário e impeachment de juízes foram cobrados pelas urnas
Os campeões de voto do PL na Câmara tentarão converter popularidade em presidências de comissões e lugares na Mesa. Os postos definem relatorias, audiências e o ritmo das reformas. Sem ocupá-los, a direita pode repetir o paradoxo de reunir bancadas numerosas e assistir a bloqueios de sua agenda.
Nesse cenário, o impeachment de ministros do STF será a demanda mais clara apontada pelas urnas, mas que exige fundamento e votos de plenário. A condenação depende de 54 senadores. O processo foi dificultado ainda mais em 2025 por uma decisão monocrática do ministros do STF Gilmar Mendes. Ele elecou o quórum para as fases iniciais do processo de modo que uma maioria simples de senadores favoráveis não é mais suficiente para afastar um ministro do STF enquando corre o processo de impeachment.
Assim, mesmo os 45 senadores da próxima legislatura já classificados como oposicionistas não bastariam para abrir um processo de impeachment, caso o Senado não se contraponha à decisão de Mendes.
Reformar o Judiciário exigirá coordenação entre as Casas, negociação e capacidade de sustentar a pauta votada.
Se o quadro fiscal piorar, Lula terá menos espaço para acomodar o centrão e dificuldade para conter a insatisfação. Crise econômica, isolamento parlamentar e protestos marcaram as quedas de Fernando Collor (PRN) e Dilma Rousseff (PT). Essa combinação eleva riscos políticos para Lula, em paralelo à constatação de seus crimes de responsabilidade.
O cientista político Paulo Kramer admite a hipótese de impeachment de Lula nos primeiros anos do novo mandato petista, condicionada à economia, aos fatos concretos e, sobretudo, ao comando da Câmara.
"O cenário segue aberto. Antes disso, a oposição terá de vencer a disputa das Mesas: será ali que seu avanço nas urnas começará a virar poder de veto ou frustração de eleitores”, concluiu.

Jornalista de política e economia com foco na cobertura do Congresso Nacional. Passou pelos jornais Diário do Comércio (MG), Gazeta Mercantil, Estado de Minas, Brasil Econômico, Correio Braziliense e A Tarde (BA). **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




