Elza Soares: sambas e scat jazzístico registrados em CD e DVD ao vivo
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Já não era sem tempo! Demorou!!! Pensa bem: quase meio século de carreira e 70 anos de nascimento, claro, não assumidos. Disse, certa vez, que sua idade é “24 horas”. He he… Boa!

Aliás, tiradas espirituosas parecem vir como mecanismos de defesa. Os solavancos pelos quais passou lhe deram maior ligeireza de raciocínio e um poder de regeneração não encontrados em armarinhos de miudezas existenciais onde metáforas, assim como miçangas, são vendidas em dedal.

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Ela brilha. Todo mundo vê, todo mundo gosta, muitos se embevecem e poucos adquirem seus discos. Manetas! No entanto, quando ela aparece sob a vibração dos refletores, aplaudem. Os pagantes pedem bis, inclusive os manetas. Para mim, polir totens com saliva e dedos é necessário.

Negócio é o seguinte: Elza Soares, enfim, ganha o primeiro DVD. CD vem na cola. Ao vivo. Pela Biscoito Fino em parceria com o Canal Brasil. Pois é… Se estacionar nessa do “se fosse aquele show”, “se fosse quando”, “se fosse naquele ano”, “se aquele disco virasse”. Se, se , se, se… Só aconteceu agora. Fato. Ponto.

Se houvesse devida reverberação, respeito –causa nacional – Elza teria a discografia em catálogo e passos documentados. Registros.

Eu te amo – “Beba-me” é o nome do pacote com CD e DVD. Elza e seu timbre inconfudível, a rouquidão e o scat jazzístico que a diferenciam das sambistas – assim se lançou e agüentou firme e forte o estandarte de “mulata assanhada”. Hum! Menos mal.

Desaforos pessoais desceram goela abaixo e ela cantou. Assim mesmo, cantou. E canta! Elza bebe do samba! Bebe samba! Também pelo pop/rock e não quebra telhas.

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Cantora veterana, os cambaus. Contemporânea! “Beba-me” é samba! Trocadilho com “Beija-me” (Roberto Martins-Mário Rossi),que gravou há encarnações.

Na condução geral, José Miguel Wisnik e Wadim Nikitim e Nando Duarte (direção musical). Cozinha orquestral – em que brilham os metais- formada por músicos que obedecem o estalar de dedos de Elza.

Entre eles, o percussionista André Vercelino, que foi-se embora de Londrina. Elza vai se aquecendo e de repente uma moça da platéia grita: “Elza, eu te amo”. Ela: “eu também”. As tais ligeirezas…

Álbum, 15 faixas. DVD, 22 canções. Emas é ao vivo e em cores que Elza arrebenta. Emociona. Faz pedra se mexer sozinha. De mansinho, entra em cena cantando “Meu Guri” para em seguida soltar “Dura na Queda”, ambas de Chico Buarque.

Essa última feita especialmente para ela. Um trecho: “vagueia/ devaneia / já apanhou à beça/ mas pra quem sabe olhar/a flor também é ferida/ aberta/ e não se vê chorar/ o sol ensolarará a estrada dela. Autobiografia. Metalinguagem.

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Sim, o sol ensolarará a estrada D´Elza…


Transcendências– Elza está um pouco contida. Recupera-se de recentes problemas de saúde. Apóia-se numa cadeira. Samba como pode e quando dá. Ampara-se, senta-se, busca em vários momentos amenizar possíveis desconfortos. O tutano é denso, o incrível poder de empatia e jeito de devorar gente que a vê e ouve… A gente até esquece da cadeira. Mero objeto cenográfico. Crível.

Elza dilata pupilas com seu jeito divertido, irreverências mil e potência vocal. Dá vontade de levantar do sofá e bater palma com vontade. Te juro! Duvida? Pode tratar de coçar o bolso e comprar o DVD (e de quebra o CD) e vê se há algum exagero de minha parte.

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Como resistir a “Estatuto da Gafieira” (Billy Blanco)? Desconstrução de “Pra que Discutir com Madame” (Janet de Almeida- Haroldo Barbosa), que João Gilberto levou anos pra formatar. He he!!

Elza revisita-se.Busca na memória sambas antológicos. A lista é imensa. Tem “Malandro” (Jorge Aragão-Jotabê, regravado em 1974), “Pranto Livre” (Everaldo da Viola-Dida, de 1974). Não poderia faltar “Se Acaso Você Chegasse” (Lupicínio Rodrigues-Felisberto Martins) e “Salve a Mocidade” (Luiz Reis).

Mas nem tudo é samba. Há “Rap da Felicidade” (Julinho Rasta – Kátia; aquela “eu só quero é ser feliz…”) e “A Carne” (Marcelo Yuka- Seu Jorge- Eilson Capetete).

Andamentos intimistas: “Dor de Cotovelo” (Caetano Veloso) e a reflexiva “Flores Horizontais” (Oswald de Andrade- José Miguel Wisnik).

Chega de destrinchar “Beba-me”. Tem que ver e ouvir. Para colocar as suscetibilidades à prova. Cada um acolhe Elza Soares de acordo com o estado de espírito. Por trás de cada nota, solfejo, inflexão há um poderoso canal de comunicação.

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Não me refiro apenas aos recursos vocais. Mas às cores que circundam essa senhora cantora que, em cena, aniquila brevidades e dispara figuras de linguagem. Hipérboles, principalmente!

Diva ou deusa, Elza é sagrada. Sagrada. Sagrada!!!!!!!! “Beba-me” repara um pouco o descaso…Tem mais pela frente?