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Eu tinha sonhado, sabe? Tinha sonhado com um eco na voz. A voz retumbante mas não de brado. A voz de um sonho heróico mas não à beira do Ipiranga.

Era aqui, no fulgurante José Maria Santos, a vida na morte de Sonia. José Sonia Santos, poderia ser. Ou Sonia José Santos, com sorte, num futuro promissor, num anti-Lala Schneider da posteridade feminina. O atual Lalo Schneider, pecado.

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Um sonho heróico da menina que, sem envelhecer, faz-se mulher. Uma voz que se torna brado diante das torturas banais da vida feminina. De um retumbante acontecimento que, parece-me, é lírica de mocidade: rito de passagem.

A vida feminina é curiosamente diversa do mundo, tão masculino, coitado. Dá-se nas sutilezas da histeria silenciosa e não no grito, no movimento lento e não no suor, no subtexto e não no academicismo, no sorriso que vem, inevitavelmente, vem, e permanece.

Era o texto do Nelson e por isto sonhei que era tudo quadrado. O cenário e os móveis todos naturalistas. Tudo quadrado. Pensei, oníricamente, ser um todo todo contradição – pobre Nelson.

Pobre dele tão quadradinho numa contemporaneidade destas é, mesmo, chacota. Mas ele é mais e ninguém mais que ele para se possibilitar ser tão quadrado assim. E aí vem o eco na voz, o drama do grito e a cortina que fecha no entre-ato.

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A menininha que é a Leo Glück. Uma gatinha. Ela faz manha, locomove-se lenta, posto que atenta, conversa com olhos maliciosos e você sabe que mais coisa se passa ali.

Mas ela cuida do cabelo, a maquiagem que nunca borra, a posição da perna, o bracinho suportando o rosto…tudo longilíneo, no adjetivo masculino que, se atribuido à mulher, vira substantivo.

Tudo parece se encaixar numa coreografia dos modos de agir. Uma coreografia da vida real que, aplicada ao palco, eleva tudo ao quadrado. A voz que dobra com o eco e o elemento surpresa do Teremin, assim, com letra maiúscula: Teremin.

Ela diz, sorriso maroto, braço forte: Dr. Junqueira.

Teremin.

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Tudo elevado ao quadrado.

Dotor Junquêra.

Tudo elevando o melodrama para um outro campo.

Teremin.

O rito de passagem da menina cuja morte matada reflete um inferno, ou seria inferna, Dotor Junquêra? O rito de passagem da atriz cuja vida se fez na morte de alguém.

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Teremin.

Funes o memorioso reclamava do cão que caça com gato: “como pode aquele cão ali, no próximo segundo ser chamado ainda…cão?”. Ele se indignava.

E tantos secundaram ser a pessoalidade estanque…que alguns acreditaram. Mas ela não, Dotor Teremin, ela não. E seguiu viagem fazendo passagem, seja pela valsa nº6, seja pela valsa nº2, Junquêra.

Segue passagem pelos brados, pelos sonhos, pelos retumbantes e pelos heróicos. SONIAAA! Histericamos eu, tu, ele. Dotor Junquêra paga passagem pras menininhas. Eu também. Mas Seu Junquêra é mais distinto, daí a potência ao quadrado.

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Seu Junquêra só trata menininha, mesmo quando tá chovendo. Sonia tem um caso com homem casado, sabia? Eu tenho um caso com o teatro que é uma vadia fedorenta. O belo lá era proporção, aqui é tudo. Aqui, com esta valsa, no nosso tempo histórico, o belo é feio.

E, novamente, a mulher se constitui à partir do homem. Novamente o feminino se constitui à partir do masculino. Novamente, como diria a Simone de BelaVista, a simone que só falava francês, falou, um dia, francesa: a mulher não nasce, a mulher se torna.