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Thiago Braga

Thiago Braga

Entender a história da guerra é entender a história dos homens. Uma nova coluna todo domingo.

Helena e Clitemnestra

Militantes continuam falando besteira sobre a Odisseia

Lupita Nyong’o foi confirmada como intérprete de Helena de Troia e de sua irmã, Clitemnestra, no novo "A Odisseia", dirigido por Christopher Nolan. O filme, baseado no poema clássico de Homero, tem estreia prevista para 16 de julho. (Foto: Gage Skidmore/Wikimedia Commons)

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Estávamos todos enganados: Lupita Nyong’o não será apenas Helena de Troia; ela será a irmã de Helena também: Clitemnestra. Detalhe: as duas nem eram gêmeas na história, eram meio-irmãs. Helena era filha de Zeus e Clitemnestra filha de Tíndaro; mas no filme, as duas vão ser a mesma pessoa.

Isso deu a maior confusão na internet: os trailers do filme A Odisseia já são os trailers com mais dislikes da carreira de Nolan. O diretor está claramente sentindo a pressão do público pelas alterações flagrantes do clássico de Homero. No caso de Helena, sempre foi retratada como grega branca, de cabelos claros, seja em textos antigos, seja na iconografia milenar, tanto grega quanto romana, quanto medieval. Então ficou óbvio para todo mundo que alterar a etnia de uma eurodescendente para uma afrodescendente era uma sinalização de virtude explícita de Nolan para a cultura woke, e para ganhar pontos para o Óscar também, já que inclusividade é um dos requisitos para a premiação do Óscar.

Porém, os sinalizadores de virtude fofinhos resolveram defender Nolan usando a história e a cultura grega para validar a escolha de Lupita para ser Helena de Troia: que, para os gregos, seria a coisa mais normal do mundo Helena ser negra, porque os gregos admiravam os negros, que os deuses eram negros, que a Grécia era negra e que os gregos eram negros.

Eu fiz esses três vídeos no meu canal Brasão de Armas analisando as fontes primárias gregas, iconografia, estudos especializados sobre o assunto e análise de DNA dos gregos antigos, para colocar um ponto final nessa falsificação toda. Era melhor os sinalizadores de virtude terem ficado só no “argumentinho” de que o filme é do Nolan e ele faz o que ele quiser; porque até eu concordo com isso.

Esse filme é dele: se ele quiser (e for autorizado pela companhia) colocar todos os gregos como negros ou asiáticos, ele coloca. Mas até os militantes precisam que a escolha tenha um mínimo de coerência cultural e histórica, por isso precisam usar e abusar da história para defender essas distorções modernas.

Quer ver um ótimo exemplo disso? Essa matéria da Veja publicada no dia 13 de maio tem um título interessante: “A polêmica vazia (e racista) sobre Lupita Nyong’o ser a nova Helena de Troia”. O leitor deve imaginar que “vazia” é a matéria da revista. A matéria diz que a “Odisseia é uma ficção”! Porém, a Odisseia é uma ficção para quem? Para nós hoje, do século XXI, ou para o povo que contou essa história nos três milênios anteriores? Para eles, as pessoas dentro daquela história eram reais, faziam parte da sua história, eram imaginadas como reais.

Quando Homero escreveu a Odisseia, ele não escreveu pensando nos moderninhos do século XXI; ele escreveu pensando no povo e na cultura da época dele

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Os mais de 12 mil versos da Odisseia eram decorados inteiros nas escolas gregas na Era Clássica. Quando os poetas e os artistas pintavam seus heróis e heroínas, eles descreviam a sua própria história e seu próprio povo e como eles eram: sua cor de pele, seu fenótipo, sua etnia... Por isso é um abuso um moleque em pleno século XXI dizer que a Odisseia é ficção, se ela não foi criada para ser uma ficção, e se ela é uma ficção “pode ser retratada como o artista quiser”. Errado!

Se eles querem tratar a Odisseia como mera ficção, ela é uma ficção que outro povo escreveu: a história cultural de um povo que reverenciou aquelas pessoas por milênios deve ser respeitada e retratada como eles criaram! Então, NÃO... Lupita Nyong’o NÃO pode — e NÃO deve — ser Helena de Troia em A Odisseia!

Se a Odisseia é só uma ficção que não exige respeito nenhum pelo contexto cultural grego, por que Nolan escolheu logo a Odisseia em vez de inventar sua própria história? Porque ela é uma obra respeitada e reverenciada por milênios.

Se a Odisseia fosse uma obra que todo mundo pudesse alterar do jeito que quisesse, já que é uma ficção, como essa obra sobreviveu por milênios mantendo as características básicas da obra original do século IX a.C. e das artes gregas representando a obra?

Se ela é uma ficção e pode ser alterada da maneira como qualquer pessoa quiser, por que os tradutores não tiram do texto “Helena de braços brancos” e colocam “Helena de braços negros” então? Por que toda Helena de Troia pintada em qualquer canto do mundo por milênios sempre foi uma Helena de Troia branca? É porque todo mundo que escolheu tocar naquela obra de arte manteve o respeito ao povo que a criou e não se achou no direito de mudar etnias ou padrões estabelecidos por milênios.

Para os militantes que dizem que a Odisseia é só uma ficção, precisam lembrar que não é a sua ficção; é uma ficção que outro povo criou. A aparência dos personagens já existe; os criadores disseram qual é a cor de pele deles, a cor de cabelo... E no caso de Helena de Troia, o criador daquela “ficção” já disse a cor da pele dela: Helena de braços brancos!

Alterar isso é falsificar a criação original! Ou o que os militantes achariam se Nolan fizesse um filme sobre as ficções africanas, tipo Mami Wata, considerada a mais bela das mulheres na mitologia africana, rainha dos rios, e colocasse Sidney Sweeney para fazer o papel dela? Ora, é apenas ficção, Mami Wata nunca existiu, não é mesmo? Esse é o tipo de pergunta que militante moderninho, com todo o seu malabarismo egocêntrico, é incapaz de responder.

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