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Thiago Braga

Thiago Braga

Entender a história da guerra é entender a história dos homens. Uma nova coluna todo domingo.

Interpretação ou falsificação?

Nolan e sua “estranha” interpretação da Odisseia

Adaptação de A Odisseia (2026), de Christopher Nolan, mostrando Samantha Morton como Circe e Lupita Nyong’o como Helena de Troia. (Foto: Divulgação/Universal Pictures)

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Como funciona esse lance de interpretação? Tenho visto muitos comentários dizendo que, na Odisseia, Nolan está apenas fazendo sua interpretação da obra de Homero, escrita no século VIII antes de Cristo.

Mas, novamente, repito a pergunta: até onde vai esse argumento da interpretação? Já discutimos outras vezes aqui na Gazeta sobre a polêmica escolha de Lupita Nyong’o para representar Helena de Troia: uma grega que, por milênios, a iconografia e a literatura greco-romana descrevem como branca, de cabelos claros. Isso seria questão de interpretação da obra homérica?

A palavra “interpretação” significa extrair sentido e significado de algo, compreender mensagens implícitas, intenções, contextos

Ora, a escolha de Lupita para ser Helena extrapola esses sentidos, pois faz justamente o contrário: ignora a função de Helena no contexto em que ela está inserida. Para os gregos, a pele clara era o padrão idealizado de beleza, e sabemos que a Guerra de Troia, de acordo com Homero e a tradição clássica, tem como causa principal Helena e sua beleza.

Logo, usando como base o poema homérico e seu contexto histórico-cultural, como poderíamos interpretar uma beleza grega da forma oposta ao que era considerado fundamentalmente belo para os gregos? Lupita Nyong’o, sem dúvida alguma, é uma atriz bonita para os nossos dias. Mas, de acordo com a idealização de beleza grega antiga, as evidências mostram que ela não se encaixaria no brilho e na claridade que representavam o tom da pele que excedia a própria natureza humana. Era algo divino!

Porém, a interpretação de Nolan vai atingindo níveis ainda mais “confusos” e distantes do contexto original da obra. Um dos melhores exemplos no filme é Circe. Ela é descrita na Odisseia como uma deusa de belos cabelos. Ela habita um palácio belo, de amplas colunas polidas, com servas alegres ao seu redor, cantando com belas vozes de ninfas. Porém, no filme, Circe é uma senhora mal-humorada, de expressões vazias, cabelos feios, com aparência desleixada, morando numa espécie de barraco. Onde entra a interpretação de Nolan neste caso? O que vemos claramente é uma inversão completa de Homero e das descrições que ele faz. Como interpretar Circe de outra forma além de ser bela, morando em um palácio belo, cercada de belas servas?

Repito a pergunta inicial: o que é interpretação de texto? Quais os limites dessa interpretação dentro da obra que serve de base para o filme? Quando podemos dizer que uma interpretação se torna uma distorção, ou pior, uma falsificação da obra? Boas respostas a essa pergunta podem ser a chave para compreendermos onde nos encontramos no estado da arte moderna e para onde vamos.

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