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O senador Eduardo Girão durante depoimento de Dimas Covas, do Instituto Butantan, à CPI da Covid
O senador Eduardo Girão durante depoimento de Dimas Covas, do Instituto Butantan, à CPI da Covid: parlamentar perguntou sobre uso de “células de fetos abortados” na Coronavac.| Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Hoje é a vez de Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan, depor na CPI da Covid. Claro que o tema principal é a Coronavac e a “guerra da vacina” travada entre o governo paulista e o governo federal, mas o senador Eduardo Girão (Podemos-CE) acabou questionando Covas sobre a produção da vacina – mais especificamente, sobre o uso do que ele chamou de “células extraídas de fetos abortados”. Girão quis saber se o Butantan poderia fornecer amostras da Coronavac para se confirmar ou não a existência dessas células. É claro que a tuitosfera, especialmente aquela de oposição ao governo federal, caiu matando. A verdade, no entanto, é que o senador pode até ter sido impreciso no palavreado, mas tinha, sim, uma noção razoável do que estava dizendo; e mais: Dimas Covas não contou a história completa na sua resposta.

Em setembro do ano passado, publiquei um texto bastante extenso sobre o uso das linhagens celulares oriundas de fetos abortados na produção de vacinas contra a Covid-19, mas vamos aqui recordar os pontos principais e fazer a verificação das alegações contidas tanto na pergunta do senador quanto na resposta do diretor do Butantan.

Girão nem precisaria que o Butantan fornecesse amostras da vacina, porque o uso das células HEK-293 nos testes da Coronavac já é admitido pelos próprios criadores do imunizante

A linhagem HEK-293 é, sim, proveniente de um feto abortado. Foi isso que Dimas Covas omitiu na sua resposta a Eduardo Girão. Mas atenção: trata-se de um único feto abortado – mais especificamente, uma menina, abortada na Holanda, em 1972. O chefe do laboratório onde surgiu a linhagem, Alex van der Eb, contou a história da HEK-293 em depoimento nos Estados Unidos (confira as páginas 81 a 91). As células renais da menina foram extraídas e tratadas para se replicarem indefinidamente, no que se chama de “imortalização” – as células HEK-293 atuais, portanto, não são literalmente as células da menina abortada, mas réplicas criadas em laboratório. Essa linhagem celular está hoje amplamente disponível para pesquisa biomédica, como explicou Covas.

A Coronavac usou células HEK-293 em sua fase de testes. A linhagem celular HEK-293 pode ser usada de duas formas em vacinas: ou na produção, como uma espécie de “fábrica” de agentes infecciosos, ou nos testes da vacina, para verificar se o imunizante está surtindo o efeito desejado. Girão citou um artigo publicado por pesquisadores chineses responsáveis pela Coronavac (provavelmente é este material aqui) atestando o uso da HEK-293 na fase de testes – na produção, como afirmou Covas, a Sinovac usou células Vero, provenientes de macacos. Então, a rigor, o senador nem precisaria que o Butantan fornecesse amostras da vacina, porque o uso das células HEK-293 já é admitido pelos próprios criadores do imunizante. Mas há um outro motivo pelo qual de nada adiantaria o Butantan entregar uma amostra.

A vacina propriamente dita não contém células HEK-293. Isso vale tanto para as vacinas que usam essa linhagem celular na produção quanto para as que usam apenas nos testes. Mais cedo ou mais tarde, as células HEK-293 são separadas daquilo que se tornará a vacina. A Coronavac, por exemplo, usa o Sars-CoV-2 (o vírus da Covid-19) inativado. Já a vacina da Universidade de Oxford/AstraZeneca usa um adenovírus (outro tipo de vírus) atenuado, alterado geneticamente para ter uma proteína característica do coronavírus. Como afirmou Dimas Covas, é só isso que as vacinas contêm; ninguém vai achar células HEK-293 no frasco, por mais que procure. Isso nos leva ao quarto ponto.

Várias outras vacinas contra Covid-19 também fazem uso da HEK-293. A Coronavac a usou nos testes, mas a AstraZeneca a usou na produção da vacina (leia aqui uma descrição da própria Universidade de Oxford e a explicação que fiz em setembro de 2020). A outra vacina em uso no Brasil, a da Pfizer, também usou HEK-293 na fase de testes. Se você quiser saber com detalhes quais vacinas contra Covid-19 usaram linhagens celulares oriundas de fetos abortados, e em que estágio do desenvolvimento da vacina, confira esta lista bem completa do Instituto Charlotte Lozier (spoiler: das vacinas que podem vir a ser usadas no Brasil, a única que não empregou nenhuma linhagem celular proveniente de abortos é a indiana Covaxin).

Então, não adianta tirar sarro do senador como se ele estivesse espalhando teoria da conspiração na CPI. As linhagens celulares provenientes de fetos abortados existem, são amplamente usadas em pesquisa, e estão presentes no desenvolvimento das vacinas contra a Covid-19, sim. E Dimas Covas não mentiu ao dizer que a HEK-293 é de uso comum, que foi usada nos testes da Coronavac, e que a vacina não contém essas células; mas podia também ter admitido que a HEK-293 é, sim, oriunda de um aborto na década de 70.

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