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Um cientista mostra um telescópio ao papa João Paulo II durante o Jubileu dos Cientistas, em 25 de maio de 2000.
Um cientista mostra um telescópio ao papa João Paulo II durante o Jubileu dos Cientistas, em 25 de maio de 2000.| Foto: EPA/Ansa/Vatican Pool

Uma coisa muito bacana do Grande Jubileu do ano 2000 foi que, dentro dele, houve vários “minijubileus” destinados a grupos específicos, inclusive várias categorias profissionais: houve o jubileu das famílias, dos sacerdotes, dos catequistas, dos artistas, dos atletas, dos doentes e pessoal de saúde, dos migrantes... Lembro que o Jubileu dos Jornalistas caiu bem no meu aniversário; fui à missa na catedral de São José dos Campos com meus pais, a missa dominical normal, e no fim chamaram à frente os jornalistas que estivessem presentes, ganhamos uma plaquinha comemorativa...

Mas estou divagando. O que importa é que hoje, 25 de maio, completam-se 22 anos do Jubileu dos Cientistas, e queria compartilhar com os leitores o belo discurso que São João Paulo II fez na ocasião, após uma missa celebrada pelo cardeal Paul Poupard, então presidente do Pontifício Conselho para a Cultura (posto que hoje é ocupado pelo cardeal Gianfranco Ravasi). O Jubileu dos Cientistas, diz o papa, “confirma que se pode ser um pesquisador rigoroso em todos os campos do saber e um fiel discípulo do Evangelho”. Em um discurso com citações de Padres da Igreja, do Concílio Vaticano II e, como não poderia deixar de ser, da encíclica Fides et Ratio, João Paulo II afirma que “o rico panorama da cultura contemporânea, no alvorecer do terceiro milênio, abre inéditas e promissoras perspectivas no diálogo entre a ciência e a fé” – de fato, àquela altura as relações entre ciência e religião já eram tema tratado com seriedade dentro da academia, mas ainda não tinha chegado com força à opinião pública; isso aconteceria nos anos seguintes, especialmente graças a uma série de livros dirigidos ao público geral, como Deus, um Delírio, de Richard Dawkins, e A Linguagem de Deus, de Francis Collins, ambos lançados em 2006.

“Sede, portanto, antes de tudo apaixonados pesquisadores do Deus invisível, o único que pode satisfazer o anseio profundo da vossa vida, cumulando-vos com a sua graça.”

São João Paulo II, durante discurso aos cientistas em 25 de maio de 2000.

O papa recapitula a contribuição da Igreja e dos católicos para o desenvolvimento da ciência, recusa o reducionismo que só considera válido o que pode ser apreendido pelos sentidos, exorta os cientistas a não deixar de lado a reflexão ética em seu trabalho e a participar “com toda a vossa energia na elaboração de uma cultura e de um projeto científico, que deixem sempre transparecer a presença e a intervenção providencial de Deus”, lembra que a “fé não teme a razão”, enfim, há muita riqueza no discurso. Mas a minha frase favorita é “Deus gosta de ser ouvido no silêncio da criação”.

Deus gosta... faz lembrar um pouco o trecho do livro dos Provérbios em que a Sabedoria diz que “desde o princípio, antes do começo da terra (...), junto a ele [ao Senhor] estava eu como artífice, brincando todo o tempo diante dele, brincando sobre o globo de sua terra, achando as minhas delícias junto aos filhos dos homens” (Prov 8,22.30-31). Dá até para imaginar Deus se alegrando a cada vez que um cientista descobre mais um detalhe do intrincado funcionamento do universo – e se regozija mais ainda quando esses descobridores “ficam atônitos e humildes diante da ordem criada e sentem-se atraídos pelo amor do Autor de todas as coisas”, tendo “uma percepção velada da presença de Deus, uma presença que ele [o cientista] é capaz de discernir no ‘manuscrito silente’ que o Criador inscreveu na criação, reflexo da sua glória e grandeza”, ainda nas palavras de João Paulo II.

Então, caros cientistas, estejam certos: Deus se alegra quando vocês usam sua inteligência para compreender melhor o universo que Ele criou e as suas regras. Ele se alegra quando vocês explicam aos demais cada pedacinho do quebra-cabeça do universo. E, fundamentalmente, Ele se alegra quando vocês fazem seu trabalho com amor, com honestidade intelectual, com respeito à dignidade do ser humano. Que a mensagem do papa João Paulo II seja uma injeção de ânimo para cada um em seu laboratório, sua biblioteca, sua sala de aula.

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