Águas termais em Yellowstone: acredita-se que a vida na Terra começou com uma “sopa” de água e elementos químicos básicos.| Foto: Karen Bleier/AFP/Getty Images

Retornando de uma semana extremamente produtiva no Reino Unido, onde participei de um congresso de ciência e religião promovido pela Universidade de Birmingham, encontro uma notícia fascinante vinda de lá. Pesquisadores do University College London publicaram na Nature os resultados de uma pesquisa que chega mais perto de compreender como surgiu a vida na Terra. Em vez de tentar formar peptídeos – cadeias de aminoácidos, essenciais para a formação de proteínas – a partir de água e aminoácidos, o que vinha sendo feito sem resultados, a equipe da UCL usou água e aminonitrilas, precursores dos aminoácidos. E deu certo. Não se trata, claro, de conseguir criar vida em laboratório – os próprios pesquisadores deixam claro que estão muito longe disso –, mas de entender os processos que permitiram o salto da matéria inorgânica para a orgânica.

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Claro, existem jeitos e jeitos de trazer essa notícia para o público. Existe, por exemplo, a abordagem corretíssima do site Science Daily, que explica a pesquisa de forma que o leitor comum possa entender, usando o material fornecido pelos próprios pesquisadores, com o link para o artigo da Nature, enfim, limitando-se a contar o que foi descoberto e o que isso significa para a ciência. E existe o desastre do El País, que me fez parafrasear no título a famosa afirmação de Albert Einstein a Georges Lemaître: o repórter, antes mesmo de explicar no que consiste a pesquisa britânica, já enfia péssima metafísica goela abaixo do leitor. Começa citando uma série de versões de livros sagrados sobre o surgimento da vida, e em seguida traz um bioquímico de uma universidade espanhola afirmando que os resultados obtidos no University College London nos aproximam da “prova definitiva de que a vida emerge da química e que não é preciso recorrer a nenhuma força sobrenatural”.

Leia também: E se a vida não foi criada diretamente por Deus? (16 de agosto de 2018)

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Reportando dessa maneira uma pesquisa tão inovadora, fica parecendo que a construção do conhecimento científico sobre as origens da vida na Terra é um aspecto secundário, é menos importante, não passaria de um instrumento para a verdadeira obsessão, para o que realmente importa, que é demonstrar a inexistência de um criador. Não uso “obsessão” à toa; no dia seguinte ao da reportagem sobre a pesquisa da UCL, o El País publica texto do mesmo repórter, desta vez uma entrevista com um Nobel de Química, Roger Kornberg, que simboliza exatamente aquilo que os ingleses chamam de “nothingbuttery”, uma supersimplificação da experiência humana, reduzida a “não mais do que (insira aqui o termo de sua preferência)”. Kornberg diz que “a vida é química, nada mais e nada menos”, que o cérebro não passa de “uma coleção de fios e interruptores”, e que as pessoas resistem a essa ideia porque “querem associar às suas próprias experiências algum significado especial, como a religião”.

E por que tudo isso, além de um tremendo non sequitur – “se a vida surgiu graças a processos naturais, não existem forças sobrenaturais ou um criador” –, é péssima metafísica? Porque é o tipo de raciocínio que insiste em ver a divindade ou a ação divina apenas naquilo que a ciência atual não consegue explicar, o persistente “Deus das lacunas”. O cientificismo ateu depende desse tipo de deus para continuar fazendo sua propaganda, porque só esse tipo de deus “recua” ou se torna “irrelevante” à medida que o conhecimento científico avança. Pessoas como o repórter do El País ou o químico Kornberg não conseguem (ou não querem) sair desse esquema mental primitivo e fazer considerações mais elaboradas sobre em que consiste a ação divina no mundo, sobre como funciona a Providência, sobre como Deus está por trás das leis da natureza, leis essas que tornam possível algo acontecer “por conta própria”, seja o Big Bang, seja o surgimento da vida, seja a evolução das espécies. Essa “religião” que “recua à medida que a ciência avança” é apenas uma caricatura desenhada por quem não passou do mais básico do básico quando se trata de pensar fora da bolha criada pelos próprios preconceitos.