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Tubo de Ensaio

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Catolicismo

Padre exorcista associou ETs a demônios e perdeu o cargo: sensatez ou exagero?

padre ets demonios
A Bíblia diz que demônios se disfarçam de "anjos de luz". O padre Stephen Rossetti afirma que eles também podem se disfarçar como extraterrestres. (Foto: Imagem criada utilizando Google Flow/Gazeta do Povo)

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Na década de 60 do século passado, o suíço Erich von Däniken sugeriu que as divindades cultuadas por povos antigos eram, na verdade, alienígenas que haviam visitado a Terra, e com isso ganhou uma legião de seguidores e inspirou séries televisivas como o caricato Alienígenas do Passado. Pouco mais de um mês atrás, o padre Stephen Rossetti sugeriu que os ditos objetos voadores não identificados (óvnis, UFOs, Fenômenos Anômalos Não Identificados ou seja lá que outra nomenclatura se dê hoje a isso) são, na verdade, resultado de atividade demoníaca, e com isso ganhou um castigo: o arcebispo de Washington, cardeal Robert McElroy, removeu o padre Rossetti do cargo de exorcista da arquidiocese, posto que ele exerceu por quase 20 anos.

Em um curtíssimo comunicado de dois parágrafos, o cardeal McElroy – por quem não nutro nenhuma simpatia, como sabem os leitores da minha outra coluna, sobre temas católicos – disse que “as afirmações feitas pelo monsenhor Rossetti ligando UFOs à presença demoníaca, e o recente uso das mídias sociais por parte do Centro [o Centro de Renovação Espiritual São Miguel, dirigido pelo padre], minam gravemente o ensinamento muito preciso da Igreja sobre o demônio e sobre os exorcismos”. Mas vamos olhar isso com mais calma.

A Igreja não diz absolutamente nada sobre vida fora da Terra. Nem que existe, nem que não existe. Cabe à ciência fazer as buscas e analisar eventuais sinais

O cardeal McElroy não menciona especificamente a irriso infidelium, ou “zombaria dos infiéis”, mas acredito ser muito provável que ele tivesse isso em mente, e até entendo a sua preocupação. Santo Agostinho, em uma passagem de A Interpretação Literal do Gênesis que já citei muito aqui, e São Tomás de Aquino alertavam muito para isso: se um católico dissesse alguma sandice e a promovesse como doutrina ou opinião católica, os não crentes olhariam para aquilo e diriam “se ser católico é ter de acreditar nisso, eu é que não vou querer ser católico”. Mas, se é realmente essa a preocupação (justa) do cardeal, temos de olhar bem as nuances.

A Igreja Católica não ensina nada sobre extraterrestres

Como já vimos aqui em outras ocasiões, a Igreja não diz absolutamente nada sobre vida fora da Terra. Nem que existe, nem que não existe. Há católicos para quem a existência de vida em outros planetas é ao menos provável, como o irmão Guy Consolmagno, ex-diretor do Observatório Vaticano; outros dirão que não (em certos casos, alegando a enorme e altamente improvável combinação de fenômenos físico-químicos que permitiu o surgimento da vida na Terra), e outros ainda nem se preocupam com isso. Cabe à ciência fazer as buscas e analisar eventuais sinais. E, a bem da verdade, os teólogos talvez só teriam de se fazer algumas perguntas caso descobríssemos vida inteligente fora daqui; não sei se a descoberta de vida microscópica ou bacteriana faria alguma diferença significativa para aquilo em que os católicos acreditam.

O irmão Consolmagno, aliás, bem como outros cientistas católicos, como seu antecessor na direção do Observatório Vaticano, o padre José Funes, respondem ao “paradoxo de Fermi” – que consiste na pergunta “se a chance de haver outras civilizações fora da Terra é tão grande, por que não temos sinais delas?” – afirmando que as distâncias no espaço são tão grandes que, mesmo havendo vida inteligente em outros lugares, talvez jamais haja contato entre nós e esses alienígenas por impossibilidade física pura e simples. E, lendo o Substack de Gavin Ashenden, um ex-anglicano (não um ex-anglicano qualquer; ele foi bispo e capelão honorário da rainha!), conheci o trabalho de Hannah Fry e Peter Backus, para quem as chances de contato entre nós e uma civilização extraterrestres são muito, mas muito, mas muuuuuuito minúsculas, não apenas por causa das distâncias, mas do tempo: um povo extraterrestre teria de lançar sua expedição contando que encontraria uma civilização “em funcionamento” – imaginem, por exemplo, se a Terra fosse visitada por ETs antes de surgir o Homo sapiens, ou depois que os seres humanos tivessem desaparecido.

E aí temos de nos perguntar: se as chances de contato entre nós e alienígenas inteligentes (ainda que existam) é ínfima, e se os supostos avistamentos de UFOs não tiverem nenhuma outra explicação racional – como efeitos ópticos, ou outros objetos feitos pelo homem, ou fraude pura e simples –, o que eles seriam? É aqui que entra o padre Rossetti.

Hipótese do padre Rossetti não é tão absurda quanto o cardeal afirma

Em O mundo assombrado pelos demônios, Carl Sagan gasta um pouco de tinta zombando da coloridíssima demonologia medieval, mas parece que estamos caindo no extremo oposto quando se afirma que o padre Rossetti está prejudicando “o ensinamento muito preciso da Igreja sobre o demônio e sobre os exorcismos”. Acontece que, segundo esse “ensinamento muito preciso”, o diabo é enganador por natureza, e para isso usa todos os truques possíveis. Se São Paulo diz aos coríntios que o diabo pode se disfarçar até de anjo de luz (2Cor 11,14-15), do que mais ele poderia se disfarçar?

O amigo Leandro Monteiro recuperou uma citação interessantíssima em que Santo Atanásio narra um episódio da vida de Santo Antão:

“[O demônio] projetou a imagem ilusória de um grande disco de prata sobre o caminho. Antão, porém, penetrando o ardil daquele que odeia o bem, deteve-se e, mirando o disco, desmascarou nele o demônio dizendo: ‘Um disco no deserto? De onde vem isto? Esta não é uma estrada frequentada e não há sinais de que alguém tenha passado por este caminho. É de grande tamanho e não poderia ter caído inadvertidamente. Em verdade, ainda que tivesse sido perdido, o dono teria voltado a procurá-lo e seguramente o haveria encontrado, pois esta região é deserta. Isto é engano do demônio. Não frustrarás minha resolução com estas coisas, demônio! Teu dinheiro pereça contigo!” E, ao dizer isto Antão, o disco desapareceu como fumaça.”

Disco de prata, hein?

Quando coloca o demônio no meio da história, o padre Rossetti destoa da atual sensibilidade “moderna”, “científica”, o que for, e isso é embaraçoso para quem deseja estar bem com a atual sociedade “ilustrada”

Em resumo, o que o padre Rossetti diz sobre a relação entre supostos UFOs e demônios é possível? Sim, é possível – ao menos dentro do que a Igreja Católica crê a respeito do diabo e de como ele age. Há como ter certeza absoluta de que o padre está certo? Não, não há. E isso basta para um bispo tão alinhado com o Zeitgeist (inclusive no que ele tem de pior) como é o cardeal McElroy. Quando coloca o demônio no meio da história, o padre Rossetti destoa da atual sensibilidade “moderna”, “científica”, o que for, e isso é embaraçoso para quem deseja estar bem com a atual sociedade “ilustrada”, como diz Ashenden. E, então, o cardeal precisa mandar um recado a essa sociedade, punindo o padre e mostrando que não tem nada a ver com isso.

Além disso, temos um detalhe importante. Não vi a íntegra do vídeo do padre Rossetti – até onde eu sei, ele o colocou em status privado depois da decisão do cardeal McElroy. Mas, dos cortes que achei na internet, ele deixa muito claro que suas afirmações não são doutrina católica, mas apenas sua opinião pessoal, o que mitiga muito qualquer avaliação que se possa fazer a respeito dessas declarações em relação com a fé católica.

O padre Rossetti pode até estar errado, muito errado. Sua opinião é de fato incomum, mas não incompatível com a doutrina da Igreja. Se de fato a decisão do cardeal McElroy foi motivada apenas pelo que está no comunicado da arquidiocese – sabe Deus se há algo que não foi dito –, só um católico com mentalidade muito cientificista pode aplaudi-la.

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