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Tubo de Ensaio

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Ciência, religião e as pontes que se pode construir entre elas

Meio ambiente

Leão XIV recorda que crise ambiental é resultado da crise moral

Leão XIV meio ambiente Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação
Leão XIV celebra Missa pelo Cuidado da Criação em Castel Gandolfo, em setembro de 2025. (Foto: Yara Nardi/EFE/EPA/Pool)

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A próxima terça-feira, 1.º de setembro, é o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação – em algumas igrejas, o dia ainda marca o início do “Tempo da Criação”, que vai até 4 de outubro, festa de São Francisco de Assis. O papa Leão XIV celebrará uma missa no Borgo Laudato Si’, em Castel Gandolfo, e usará as orações e leituras que ele mesmo inseriu no calendário litúrgico em junho do ano passado – e que foram escolhas muito felizes. No último dia 20, o Vaticano divulgou a mensagem papal para esse dia de oração, e ela está muito boa, muito distante do que já chamei em outras ocasiões de “ambientalismo bocó”.

O papa escolheu relacionar o tema ambiental com o cenário atual, marcado especialmente pela guerra. A agressão russa contra a Ucrânia já tem quatro anos e meio, e os Estados Unidos se enfiaram em uma guerra contra o Irã que não tem previsão para terminar. “A guerra deixa também para trás uma destruição social e ecológica que perdura por gerações. Além disso, a interação entre os conflitos armados e a degradação ambiental cria frequentemente um ciclo vicioso, que destrói ecossistemas, contamina recursos essenciais, como o ar e a água, e compromete a segurança alimentar”, afirma Leão XIV. E, em seguida, o pontífice desenvolverá seu tema central: a verdadeira origem do mal da guerra, e do mal da devastação ambiental.

“As discórdias que vemos no mundo, como a violência, a injustiça e a degradação ecológica, não são simplesmente o resultado de sistemas ou estruturas insuficientes, mas estão ligadas ‘com aquele desequilíbrio fundamental que se radica no coração do homem’.”

Leão XIV, em mensagem para o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação.

“As discórdias que vemos no mundo, como a violência, a injustiça e a degradação ecológica, não são simplesmente o resultado de sistemas ou estruturas insuficientes, mas estão ligadas ‘com aquele desequilíbrio fundamental que se radica no coração do homem’”. Que desequilíbrio é esse? Se formos olhar a Gaudium et Spes, o documento do Concílio Vaticano II de onde o papa tira a citação, veremos a resposta: é a fraqueza humana, fruto do pecado. “O coração humano é o lugar onde acontecem as lutas fundamentais e onde a nossa condição decaída se revela. Não é meramente a sede das emoções, mas o centro da pessoa: o lugar onde convergem razão, desejo, vontade e consciência. (...) As feridas da guerra e a degradação da terra estão, portanto, intimamente ligadas à condição do coração humano”, prossegue o papa.

“As causas profundas dos conflitos e da exploração da criação têm origem numa crise ética e cultural, que inclui a perda do sentido dos limites, a vontade de domínio, a busca do lucro imediato e a incapacidade de reconhecer a dignidade, concedida por Deus a cada pessoa humana”, diz Leão XIV. Reparem: a crise ambiental é o resultado de uma crise moral, não de “sistemas” ou “estruturas”. Essa é a ideia central e fortíssima, que o “ambientalismo bocó” não percebe ou não quer perceber. Mas Leão XIV não introduz nenhuma novidade; ele apenas recorda o que outros papas antes dele já disseram. O capítulo 3 inteiro da Laudato Si’ é dedicado a isso, como fiz questão de lembrar quando a encíclica do papa Francisco foi publicada, porque eu sabia que a imprensa secular não daria atenção a esse ponto. Leão XIV cita, a esse respeito, outro predecessor: Bento XVI, que na missa inicial do seu pontificado afirmou, na homilia, que “os desertos exteriores multiplicam-se no mundo, porque os desertos interiores tornaram-se tão amplos”.

(Aliás, falando em outros papas que também souberam tratar do meio ambiente dando-lhe a correta dimensão, recomendo muito a leitura da mensagem de Bento XVI para o Dia Mundial da Paz de 2010 e a mensagem de São João Paulo II para o Dia Mundial da Paz de 1990.)

E, no fim da mensagem, o papa afirma que só existe um jeito de resolver não só a crise das guerras, mas também a crise ambiental: com “qualidades [que] brotam de corações moldados pelo Evangelho e sustentados pela graça de Deus”:  “a verdade, o diálogo, a paciência, a bondade, a justiça, a misericórdia, a compreensão, o cuidado e o amor”. Apenas assim é possível, diz Leão XIV, “transformar os indivíduos, renovar as comunidades e curar as feridas do nosso mundo”. O “ambientalismo bocó” prescinde totalmente da dimensão espiritual que está envolvida no cuidado com a natureza criada por Deus, e por isso não tem como ser bem-sucedido. Já o cultivo das virtudes cristãs é um caminho seguro para levar a humanidade a perceber que, embora uma árvore não tenha nem de longe o mesmo valor ontológico de um ser humano, há um dever do homem para com a criação porque ela também saiu das mãos de Deus e é amada por Ele.

Há muito tempo eu insisto que a pauta ambiental só virou monopólio da esquerda porque todos os demais deixaram que isso acontecesse; e, quando isso aconteceu, o fato de ela estar apenas na boca da esquerda levou conservadores e direitistas a ter aversão a qualquer conversa sobre meio ambiente. Isso foi um grande erro. O cristianismo, longe de ser causa de devastação ambiental, como chegou a ser sugerido nos anos 60, é uma força poderosa no cuidado com a natureza graças à noção do homem como “guardião da criação”. Recuperar esse sentido, sem se deixar levar por ideologias tresloucadas que negam o papel especial do ser humano – “uma visão correta da relação do homem com o ambiente impede de absolutizar a natureza ou de a considerar mais importante do que a pessoa”, diz Bento XVI –, é o que têm feito vários líderes cristãos, incluindo os papas. Vamos dar ouvidos a eles.

João Pessoa e São Paulo recebem eventos de ciência e religião em novembro

Novembro tem dois ótimos eventos de ciência e fé. No começo do mês, de 3 a 7, ocorre o 1.º Congresso Brasileiro Interdisciplinar Fé, Razão e Ciência, na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em João Pessoa, organizado pelo Grupo de Pesquisa CNPq/UFPB – Meio Ambiente e Crenças: Pesquisas Multidisciplinares em Ciências Ambientais, Ciências das Religiões e Teologia, pela Pastoral Universitária da Arquidiocese da Paraíba e pelo Centro de Estudos do Seminário Arquidiocesano da Paraíba, com apoio de entidades como a Sociedade Brasileira de Cientistas Católicos (SBCC). No feriadão da Consciência Negra, é a vez de a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência realizar a 5.ª Conferência Nacional Cristãos na Ciência, em São Paulo, que começa na noite da quinta-feira, dia 19, e termina no sábado, dia 21. Estive em duas das quatro conferências anteriores, e foram uma oportunidade incrível de aprendizado e contatos.

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