Hawking na abertura dos Jogos Paralímpicos de Londres, em 2012: inquestionável em seu campo, cometeu equívocos fora dele, mas mesmo assim ele acabou contribuindo com um melhor entendimento do que significa a criação. (Foto: Leon Neal/AFP)| Foto:

O blog teve mais uma de suas paradas longas e involuntárias, desta vez devido a um período bem corrido: espero não precisar me mudar tão cedo no futuro… e a morte de Stephen Hawking me pegou bem no meio de caixas e mais caixas, orçamentos e burocracias para resolver.

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Que Hawking foi um gênio em seu campo, a física, é indiscutível. Ele está no patamar de um Newton, de um Faraday, de um Einstein, enfim, ele entra em qualquer lista dos maiores físicos de todos os tempos. Mas ele também demonstra que mal faz a hiperespecialização que torna as pessoas praticamente ignorantes sobre outros campos que não sejam o seu. Quando se trata do divórcio ocorrido entre a ciência natural e a filosofia, isso é ainda mais catastrófico. E isso explica, por exemplo, que Hawking tenha dito, em 2011, que a filosofia “estava morta”, ou que demonstrasse um grande desconhecimento do verdadeiro significado da criação ex nihilo quando tentou explicar por que Deus seria desnecessário, já que as próprias leis da natureza permitiriam que um universo surgisse do nada – afirmação que só pode ser feita por quem não entendeu muito bem o que seja o “nada”.

Recomendo aqui alguns poucos textos que tratam de Stephen Hawking, seu trabalho e o impacto de suas afirmações. Começo com o também físico Stephen Barr, que já em 2010 demonstrou como Hawking estava errado no que imaginava ser a “criação a partir do nada”, neste artigo publicado pela First Things. Aliás, a respeito desse tema também tenho que recomendar a entrevista que fiz no Chile com o professor William Carroll, da Universidade de Oxford.

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No site Church Times, destaco dois artigos. O primeiro, de Adam Becket, é mais uma compilação de reações à morte de Hawking entre pessoas dedicadas ao diálogo entre ciência e fé, como David Wilkinson, Rodney Holder e Michael Beasley. Não creio que Hawking concordaria com algumas das coisas que eles disseram – Wilkinson afirmou que Hawking “demoliu os pequenos deuses e nos deixou com o maior, o Deus bíblico”, e Holder disse que “Hawking não desafiou a teologia, apesar de ser ateu”; talvez tivesse sido mais preciso dizer que o físico até quis apresentar um desafio consistente à teologia, mas não conseguiu justamente por lhe faltarem alguns conceitos filosóficos.

Bem mais interessante é o texto de Andrew Davison, que mostra como Hawking passou do agnosticismo de Uma breve história do tempo ao ateísmo de O grande design, trata um pouco de sua militância em outros campos, como o desarmamento nuclear e as questões ambientais, mas o ponto principal do autor é o “favor” que Hawking fez aos teólogos, em sua opinião. Mesmo tendo concepções bastante equivocadas sobre a questão da existência e o papel de Deus na criação – ou, talvez, justamente por ter essas concepções –, o físico forçou a teologia a repensar com mais profundidade o que significa a criação, como ela se identifica (ou não) com um início temporal, como “funciona” o ato criador de Deus. Em outras palavras, ao negar o Deus criador, Hawking fez os teólogos se perguntarem novamente sobre o que é e como age um Deus criador.

Da minha parte, lamento que Hawking não tenha compartilhado da visão do diretor do Observatório Vaticano, Guy Consolmagno, que, duas semanas antes da morte do físico britânico, afirmou que a pesquisa sobre o universo também é um ato de devoção. Lamento que sua inquestionável autoridade em termos científicos e a admiração que Hawking, sua extraordinária história de vida e seu trabalho tenham despertado tenham carregado outras pessoas para o ateísmo que ele professava (fenômeno que todos nós já experimentamos em algum grau com as pessoas que admiramos, ou não?). Mas espero sinceramente que ele tenha se reconciliado com seu Criador antes de partir e que agora seja capaz de contemplar a verdade completa que ele sempre procurou.

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