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Uma família brasileira na China

Enviado por christianedumont, 25/05/15 8:32:46 AM

你们好,

Ni men hao,

Dando continuidade ao post “Gazeta do Povo na China”, na semana passada a Nora me telefonou dizendo que nós havíamos ficado entre as dez famílias mais bonitas da China. Uau! De quinze, eles selecionaram dez! Que honra!

Mas isso não era tudo. Eu deveria participar de uma entrevista com o pessoal do Governo na sexta pela manhã e ela, infelizmente, não poderia ir comigo. A roubada do ano!

Obviamente que minha curiosidade inata não me permitiria negar o convite então, pedi uma tradutora e fui encarar a entrevista com unhas e dentes. Só que, como já era de se esperar, o evento não era exatamente uma entrevista, mas uma cerimônia em praça pública, com direito a palco e plateia. E eu lá, imaginando um plano de como fugir sem ser capturada pelo pessoal do Governo.

No entanto, o que tinha para ser a grande roubada do ano, foi a grande descoberta do ano! Olhem só que interessante.

A cerimônia começou com a apresentação dos ganhadores que subiram ao palco para a foto oficial e a tal entrevista. Eu e mais um casal fomos entrevistados: _ “Você gosta daqui; por que escreve seu blog; como se diz “oi” em português” e só. Eu caprichei no mandarim e fiz meu número direitinho.

 

Eu e os outros candidatos

Eu e os outros candidatos

 

Arranhando o mandarim durante a entrevista

Arranhando o mandarim durante a entrevista

Em seguida, um grupo de senhores e senhoras de mais de 60 anos subiram ao palco para apresentar um número de dança que estava muito bem ensaiado. Agora entendo por que há tantos velhinhos nos parques aprendendo a dançar. Não é só por prazer, mas também em alguns casos para efetivamente se apresentar em eventos organizados pelo Governo.

 

Grupo da terceira idade

Grupo da terceira idade

Dando sequência à cerimônia, um membro do governo subiu ao palco para fazer o discurso oficial. A tradutora estava meio sem graça por eu ter que aguentar todo aquele blá, blá, blá em chinês, mas eu estava muito curiosa para saber o que ele tanto dizia. E sabem o que era?

Ele falou sobre a importância de se constituir uma família; da responsabilidade social que isso implica e em como devemos lutar pela felicidade de nossos familiares, cuidar da saúde, não jogar e não beber. Além disso, e talvez principalmente, que as pessoas que trabalham para o Governo (que, na China, é grande parte da população) não deviam usar o dinheiro público em benefício próprio nem serem corruptos.

Depois que ele terminou o discurso que não passou de dez minutos, um grupo de teatro muito divertido se apresentou no palco. E sabem do que se tratava a peça? De um funcionário do governo que tinha um carro oficial, mas voltava para casa de transporte público. A esposa, o pai, a mãe e o vizinho ficavam pressionando o rapaz para usar o carro para passear, mas ele não se deixou corromper.

Em seguida, a apresentadora dá uma de Sílvio Santos e faz um quiz com as pessoas da plateia: _ Quem deve cuidar do dinheiro público? O funcionário do governo? A esposa? Os filhos? Os pais? Todo mundo?”. As respostas estão nos papéis distribuídos antes do evento e os acertadores ganham prêmios.

 

grupo de teatro

grupo de teatro

 

Material distribuído à plateia

Material distribuído à plateia

A cerimônia termina com mais um discurso de um dos casais ganhadores (que são policiais – olha que coincidência!) e com uma cantora de música tradicional chinesa.

Leitores, vocês entenderam o que eu entendi?

O concurso A Família Mais Bonita da China é uma grande estratégia de marketing para o Governo educar o povo em relação a valores sociais. A gringa, no caso eu, sou apenas mais um chamariz para reunir o maior número de pessoas em praça pública. Este concurso começa elegendo a família mais bonita do bairro, depois a da província até chegar à China inteira. Sacaram o trabalho de formiguinha, doutrinando do micro ao macro cosmos?

E quem, no Brasil, faz este trabalho de educar o povo com relação a valores básicos como não jogar e não beber? A igreja. Mas será que está certo “terceirizar” a educação do povo usando um suposto deus como juiz do que está certo ou errado? (Eu acredito em Deus, leitores).

Enfim, sei que fui usada pelo Governo como atração especial para o evento deles, mas não fiquei nem um pouco chateada. E sabem por quê? Por que eles deram a mim e às outras 9 famílias 1.000 rmb (350 reais!), um diploma de participação e um livro sobre educação familiar (infelizmente, escrito em mandarim).

Certificao de Participacao

Certificao de Participacao

Para quem tiver curiosidade, fiz um filminho editado dos melhores momentos deste evento. E tomara que me chamem para as próximas etapas para eu continuar tendo a oportunidade de ver uma China que quase nenhum expatriado conhece.

christianedumont@hotmail.com

 

Enviado por christianedumont, 10/05/15 4:30:17 AM

你们好,

Ni men hao,

Certa vez aprendi num curso chamado “Gerenciamento de Equipes de Alta Performance” que, se você quiser ser realmente entendido, precisa falar cinco vezes a mesma coisa, para a mesma pessoa, em situações diferentes. Não é preciso ser gerente para saber que isso é verdade. Basta ser mãe para imediatamente virar o papagaio da família. Aproveitando o gancho: Feliz Dia das Mães!

Aqui na China, como a nossa comunicação com os chineses está sempre envolta numa nuvem escura de incompreensões devido às diferenças culturais e à língua, a gente precisa falar e ouvir não cinco, mas dez vezes a mesma coisa para começar a entender.

Vejam só. Minha professora de chinês e parceira profissional, a Nora, disse que ia nos colocar num concurso chamado a “Família mais Bonita da China”. Hum, que cheiro de roubada! Aqui em casa ninguém é nenhuma beldade para participar de concurso de beleza, então acho que não entendi muito bem. Além do mais, lembrei-me do programa de TV do qual participamos no ano passado: eu achando que ia dar uma entrevista inteligente sobre a Copa do Mundo no Brasil, e eles, na verdade, nos convidando para participar de uma gincana de futebol.

Bom, diante da empolgação da Nora, eu concordei em participar do concurso sem pedir maiores detalhes e mudei de assunto. No dia seguinte, ela me liga dizendo que o repórter estava vindo aqui em casa fazer uma entrevista comigo. “Como assim? Que entrevista? Em que língua? O que eu tenho que dizer? O que eu visto?”

“O que eu visto” foi um capítulo à parte. Eu separei alguns vestidinhos casual-chic que me pareceram adequados para uma entrevista às 3 da tarde, mas eles foram sendo reprovados um a um pela Nora e pela Aijiao (nossa ayi).

_ Esse é sexy demais! Esse é curto demais! Na sua idade, não se coloca perna e braço de fora. Preto é muito escuro. Esse vestido rosa é muito colado no corpo.

Sentindo que aquilo ia acabar comigo vestida num qipao (vestido tradicional chinês), me enfiei num pretinho básico e entreguei para Deus.

O repórter, Song Wen Fei, pelo qual senti uma afinidade imensa desde o primeiro momento, me entrevistou por mais de três horas seguidas. _ Você gosta da China? Você tem um blog sobre Shenzhen? Conte-me algo que seu marido fez de especial para você. E seus filhos, como você os educa? Nos dê uma dica de educação ocidental.

 

Reporter chinês Song Wen Fei

Reporter chinês Song Wen Fei

Song Wen Fei por Chris Dumont

O bombardeio de perguntas foi seguindo até que ele viu uma foto minha do inicio do ano passado e perguntou: Essa aqui é a sua filha? Eu disse rindo: _Não, sou eu antes de perder o cabelo na quimioterapia.

Pronto, a partir daí, a entrevista foi crescendo em emoção e virou uma grande catarse. Ele me fez refletir sobre como as crianças me apoiaram durante o meu tratamento, me fez lembrar de um bilhete do Marcos no qual ele dizia que eu era “a única pessoa do mundo a fazer um câncer passar despercebido” e, principalmente, de como o Luiz foi e ainda é o meu grande esteio nesta vida.

Eu falava com os olhos cheios d’água para Nora que traduzia com os olhos cheios d’água para o Song Wen Fei. Ele, por sua vez, ia anotando tudo, empolgadamente, num bloquinho de pouco mais de dez centímetros, preenchendo as folhas com caracteres lindos e bem desenhados.

Nora e Song Wen Fei

Nora e Song Wen Fei

Nora e Song Wen Fei, meus queridos chineses.

Quando voltei de uma pausa para ir ao banheiro, encontrei-o fotografando todos os porta-retratos aqui de casa. Um deles, da Imaginarium, diz “As coisas mais importantes da vida não são coisas…” . Pois saibam que ele conseguiu traduzir e publicou como legenda de uma das fotos!

 

 As coisas mais importantes da vida não são coisas


As coisas mais importantes da vida não são coisas

Nesta mesma noite, depois de ter traduzido vários dos posts que escrevi para a Gazeta, ele me enviou mais perguntas. Entre elas, uma que mostrou todo seu profissionalismo: “Se você conheceu o Luiz há 23 anos, como pode ter um filho de 25?”, fazendo referência ao meu enteado, Fernando, o qual chamei de filho durante toda a entrevista por que é assim que me sinto em relação a ele.

Conversa pelo Wechat traduzida pelo Baidu

Conversa pelo Wechat traduzida pelo Baidu

Obrigada, Google e Baidu translators!

Dois dias depois, eu recebo um link da matéria online que, rapidamente, atingiu mais de 4000 views. Eu não consegui ler nem 1% do que estava escrito. Pedi ajuda a Nora que me disse apenas “Ele escreveu absolutamente tudo que você disse”. A matéria online foi para o jornal impresso e foi aí que eu comecei a entender que a coisa é realmente séria.

http://mp.weixin.qq.com/s?__biz=MzAwMzMxMTI3Mw==&mid=204796394&idx=1&sn=1da4de743ae7d8ddbe81780b596c8f60&scene=1&from=singlemessage&isappinstalled=0#rd

Parece que este concurso é para escolher a família chinesa mais bonita (não de beleza física, mas emocional) de toda a China e que eles querem ter um representante estrangeiro entre os concorrentes. A competição começa pelos bairros e vai evoluindo até chegar ao país inteiro. O jornal circula nos centros comunitários e os funcionários colam adesivos na foto da família preferida. Também é possível votar online e a gente já está cheio de votos.

As 15 famiías mais bonitas do bairro

As 15 famiías mais bonitas do bairro

Conheçam os nossos concorrentes.

Hoje a Nora pediu cópia dos nossos passaportes e falou que seremos chamados para uma entrevista na TV. Em resumo: só mesmo na China para se participar de um concurso sem saber muito bem do que se trata e sem entender o que escreveram sobre você.

Eu estou achando tudo isso muito divertido e adorei ter conhecido meu companheiro de profissão, o Song Wen Fei. 宋文飞,我很高兴认识你!

Além, é óbvio, de ter divulgado a Gazeta do Povo e o Muffato por toda Shenzhen!!!!

Manterei vocês a par dos próximos acontecimentos!

再见!

 

 Muffato na China


Muffato na China

O reporter publicou o meu post sobre o Sea World onde havia um banner do Muffato.

 

 Gazeta do Povo na China


Gazeta do Povo na China

christianedumont@hotmail.com

 

Enviado por christianedumont, 24/04/15 5:53:58 AM

你们好,

Ni men hao,

Vou contar para vocês quatro episódios que, analisados juntos, nos convidam a uma reflexão um pouco mais profunda sobre a China.

Episódio 1

Recentemente, por conta da minha parceria com a Nora, fui assistir a uma de suas aulas de mandarim gratuitas que acontecem no Centro Comunitário administrado pelo Governo. Lá ocorrem também aulas de dança, caligrafia, pintura, workshops, tudo bancado por eles.

Neste dia específico, alguns funcionários de outras cidades estavam visitando o Centro Comunitário e, como era de se esperar, ficaram muito curiosos em relação à gringalhada conversando tatibitate em mandarim. Eu estava me sentindo um bicho no zoológico esperando me jogarem um biscoito mordido, até que um dos funcionários abriu a porta, entrou na nossa jaula, sentou no sofá e ficou assistindo a gente se embrulhar no mandarim. Graças a Buda, o celular dele tocou e seu interesse pelos animaizinhos acabou de repente. Eu fiquei muito indignada com tudo aquilo, mas percebi pela carinha da Nora que, para ela, não havia acontecido nada demais.

Episódio 2

Essa história aconteceu quando a Liu ainda era nossa ayi. Nós compramos seis cadeiras para cozinha que foram entregues num fim de tarde de domingo (a China não para, gente!). As crianças receberam a encomenda e nem repararam que as cadeiras estavam totalmente tortas. No dia seguinte, liguei para a loja para reclamar e eles disseram que não podiam trocar as cadeiras, uma vez que nós não havíamos feito nenhuma queixa na hora da entrega. Eu tentei argumentar que o significado de cadeira é algo que você coloca o bumbum em cima e senta e que, naquelas coisas de quatro pernas que eles haviam entregue, a gente não conseguia se equilibrar e caía para frente ou para o lado. Nada feito! Eles disseram que, talvez no dia seguinte, fossem mandar alguém para consertar as cadeiras.

Resolvi contar para a Liu o que estava acontecendo e ela ficou muito, mas muito indignada. Pegou o telefone, ligou para a loja, discutiu, gritou, cuspiu e desligou dizendo que em meia hora chegariam cadeiras novas. Dito e feito: meia hora depois, havia doze cadeiras na minha casa: as seis tortas devidamente consertadas e as seis novas! Quando os carinhas foram embora, perguntei para a Liu o que ela havia falado para o pessoal da loja: “Eu falei que ia contar para o Governo”, respondeu.

Liu, minha primeira e querida ayi.

Liu, minha primeira e querida ayi.

 

Episódio 3

Num bate-papo de fim de semana com amigos chineses, começamos a falar de democracia e comunismo. Há muito tempo que eu questiono a eficácia da democracia para países como o Brasil (como já comentei no post “Democracia”), mas eu disse que não achava legal o comportamento autoritário do Governo, como o que havia acontecido na sala de aula da Nora. Foi aí que nosso amigo Terry, que é um cara aberto, trabalha em multinacional e conhece o mundo inteiro nos explicou o seguinte.

Há anos a China é governada através de regimes onde há um imperador ou chefe e um povo trabalhando para ele. Portanto, todo mundo possui ligação com o Governo através de amigos, parentes ou colegas que exercem alguma função em uma das suas instituições como, centros comunitários, empresas, hospitais e por aí vai. Por conta disso, os chineses não acham que o Governo e o povo são coisas separadas, muito menos antagônicas. Existe um processo simbiótico que explica bem o porquê da Nora não ter se incomodado com o comportamento do funcionário que entrou na sua sala de aula. A sala de aula não é dela, é de todos.

Terry e Seagle, sábado passado, em nossa casa

Terry e Seagle, sábado passado, em nossa casa

 

Episódio 4

A Dantibet, uma chinesa muito querida que me conheceu por causa deste blog, é casada com um brasileiro e mora há 10 anos em Piracicaba. Foi ela quem me apresentou a uma chinesinha muito especial: a Ella. Ella (este é o seu nome ocidental; o chinês é Zhou Xun Huan)  foi morar na Inglaterra quando tinha 15 anos e ficou lá até conhecer seu marido que trabalha num consulado em São Paulo e se mudou para o Brasil. Ella, ou ela, é pianista clássica profissional, além de linda!

Enfim, estávamos conversando esta semana sobre o Brasil e Ella me disse que, em sua percepção, em nosso país existem duas classes estanques: as pessoas ricas e os serviçais. Os ricos dão ordens e os serviçais obedecem, sem questionar nada. Ella, que foi criada dentro dos hábitos da sociedade inglesa onde não há empregada doméstica, acha os empregados brasileiros subservientes demais.

 

Dantibet, sua filha Giulia, Ella e eu em janeiro deste ano: minhas queridas chinesas-brasileiras ou brasileiras-chinesas.

Dantibet, sua filha Giulia, Ella e eu em janeiro deste ano: minhas queridas chinesas-brasileiras ou brasileiras-chinesas.

 

E aí, leitores? Num país democrático, como o Brasil, existe o que manda e o que obedece. E num país comunista como a China, todo mundo se acha parte do Governo. Claro que esses são pontos de vista isolados de quem conhece apenas parcialmente o país do outro, mas não deixa de ser muito interessante, não acham?

De qualquer forma, tenho a sensação de que quanto mais eu aprendo sobre a China, menos eu sei. E o que conseguimos realmente ver e entender deste país é apenas a pontinha de um enorme iceberg!

再见

Zai jian

Christianedumont@hotmail.com

 

 

Enviado por christianedumont, 12/04/15 7:53:56 AM

你们好,

Ni men hao,

Quinta-feira passada, de volta à minha deliciosa rotina de levantar cedo, despachar as crianças para escola e ir para minha aula de yoga (sim, gente, rotina pode ser algo delicioso!), aconteceu algo muito inspirador. Bom, pelo menos para mim que estou numa fase muito espiritual que, aliás, espero que dure para sempre!

Eu saí de casa com tempo suficiente para pegar o metrô e chegar à yoga cinco minutos antes da aula começar. Só que, pela primeira na vez nos meus quase quatro anos de China, fiquei esperando o metrô por oito longos minutos e mais uns dois para ele finalmente sair da estação. Conclusão: em vez de chegar cinco minutos adiantada, cheguei dez minutos atrasada e fui barrada na porta da sala de aula!

Painel do metrô de Shenzhen

Painel do metrô de Shenzhen

Eu, aluna exemplar, há 3 anos frequentando o Yogalife, sem nunca ter chegado atrasada uma vez sequer; EU!!! fui barrada na porta da sala de aula! Como assim? Que injustiça é esta? Isso é prepotência, abuso de poder e implicância!

Minha indignação, ou melhor, arrogância era tamanha que eu desandei a reclamar com a recepcionista da academia.

_ Eu não sou aluna nova, eu conheço as regras, essa foi a única vez que cheguei atrasada, eu estudo aqui há três anos, eu falo com o professor! Pleeeeeease, me deixa entrar!!!!!!!!!!

A recepcionista, muito calmamente, me disse:

_ Olha, não tem nada a ver com o fato de você estudar aqui há anos ou nunca ter chegado atrasada antes. A questão é que você chegou muito tarde e vai atrapalhar o professor e os outros alunos se entrar agora.

O jeito foi eu ir me acalmando e caindo na real do ridículo da situação. Eu estava atrasada; a culpa era minha e o que eu estava tentando fazer era um belíssimo chantagem emocional em cima da chinesinha que, muito educadamente, não entubou. Será que é isso que eles chamam de não fazer a outra pessoa “perder a face”, traduzindo, ficar numa situação constrangedora?

Depois de beber um chá, reencontrar o meu equilíbrio emocional e juntar minha face estatelada no chão da academia, me dei conta de algo muito legal!

Há exatos 2 anos, eu relatei no post Universidade de Shenzhen ao seu Alcance uma situação em que fui pivô de uma discussão entre a recepcionista do dormitório dos alunos internacionais e uma aluna inglesa da universidade (cara, como a gente pode ser arrogante sem nem perceber!). Quando a discussão entre as duas acabou, eu pensei, “Meu Deus, será que um dia eu vou falar mandarim como essa inglesinha a ponto de conseguir bater boca com um chinês?”.

Pois bem, a resposta está aí: eu tive minha primeira discussão em chinês e acho que me saí muito bem! Aprender mandarim é possível, minha gente!

Agora vem o lado espiritual de que falei. Nada na vida é bom ou ruim. Tudo tem um motivo para acontecer. É só uma questão de prestar atenção nos recados externos. A gente precisa parar de enxergar a vida com um álbum de fotografia e começar a vê-la como um filme. Uma foto sozinha não conta uma história. Um filme tem começo, meio e fim.

E o fim desta pequena história é que, em vez de deixar o fato de ter sido barrada na aula estragar o meu dia inteiro, consegui transformá-lo num motivo de comemoração por ter, finalmente, admitido para mim mesma que eu falo chinês! Ops, menos Chris! Que eu falo um-pouquinho-de-chinês!

 

 Recepcionista Yogalife em Shenzhen (o chinelinho é obrigatório)!


Recepcionista Yogalife em Shenzhen (o chinelinho é obrigatório)!

 

再见

Zai jian!

christianedumont@hotmail.com

 

 

 

Enviado por christianedumont, 01/04/15 5:43:28 AM

你们好,

Ni men hao!

Eu já disse isso uma vez e repito: todo mundo que vem morar na China ou escolhe este país como destino turístico tem um ou mais parafusinhos frouxos dentro da cachola. Tão mais fácil ir para Orlando, passar as férias na Disney! Paris, Roma, Lisboa, Madrid! Tantos lugares lindos, a apenas 12 horas de distância do Brasil! Enfim, meus pais, cujos parafusos estão muito bem apertadinhos e que aos 80 anos de idade jamais incluiriam a China em seus roteiros de viagem, decidiram vir, pela primeira vez, nos visitar em Shenzhen. Chegaram no início de dezembro do ano passado, para poder me acompanhar na última sessão de quimioterapia e ficaram para o natal e réveillon! Maior presente do que esse, a Família Brasileira na China não poderia ter recebido.

Este post, em homenagem aos dias maravilhosos em que passamos juntos, vai contar o que seres humanos normais, com tudo dentro da caixinha, precisam se submeter para sobreviver do outro lado do mundo! Bom, antes de tudo, um breve perfil dos meus queridos progenitores.

Meu pai gosta de ter uma agenda organizada, saber com antecedência onde vai, o que fazer, como chegar, com quem falar e por aí vai. Em resumo, gosta de ter tudo sob controle. Tudo sob controle na China, pai? Missão quase impossível!

Minha mãe gosta de uma boa aventura, desde que não inclua duas coisas: comida feita no óleo e ter que subir escada. Comida sem gordura na China, mãe? Metrô sem escadaria? Missão mais impossível ainda!

Familia feliz!

Familia feliz!

Bom, como sempre faço com clientes e amigos que vêm nos visitar, imprimi cartões com o endereço de casa escrito em mandarim e coloquei-os junto da cópia dos passaportes dos meus pais, caso um deles se perdesse na rua. Em seguida, troquei os chips dos celulares brasileiros por chips chineses, o que, imediatamente, desencadeou uma enxurrada de mensagens da China Mobile, iniciando assim o doloroso processo de “perda total de controle” da situação.

_ O que eles estão dizendo? Vai ver o telefone está sem dinheiro. E se for algo urgente? Precisa responder?

Placar: China 1 x Brasil 0

Mensagem da China Mobile: moleza de ler!

Mensagem da China Mobile: moleza de ler!

No dia seguinte, precisávamos trocar os dólares que papai havia trazido para resgatar logo sua independência financeira. Como aqui ele estava “surdo, mudo e analfabeto” segundo ele mesmo, o jeito foi apelar para o Dudu como guia turístico (eu ainda estava na fase de não poder sair de casa). Parênteses: Quem conhece o Eduardo de outros posts, deve estar imaginado o quão poderoso ele se sentiu carregando vovô e vovó para cima e para baixo, falando inglês e mandarim fluentemente.

Mas o que ninguém contava aconteceu: os dólares de carinha pequena não foram aceitos pelas casas de câmbio e nem os de carinha grande que estavam um pouco sujinhos e mofados. Ou seja, grande parte do dinheiro que papai trouxe não tinha valor. E, para piorar um pouco mais a situação, seu cartão de credito Visa não era aceito em lugar nenhum. Aqui na China, a bandeira oficial é a UnionPay. Marquinhas desimportantes como Master, Visa ou American Express podem até ser aceitas, mas a confusão é grande!

Placar: China 2 x Brasil 0

 Notas de dólar nova e antiga e cartão UnionPay do Bank of Chin


Notas de dólar nova e antiga e cartão UnionPay do Bank of Chin

Continuando o jogo, no fim de semana levamos os avós para comer fora pela primeira vez. Existe uma rede de restaurantes de chineses muçulmanos que serve um macarrão delicioso. Pronto, é lá mesmo que nós vamos! Antes, porém, eu avisei a todo mundo que o restaurante era super simples, com banquinho em lugar de cadeira, papel higiênico em lugar de guardanapo, mas que a comida era deliciosa e muito, muito barata. Média de 15 RMB (8 reais) um pratão de macarrão com cogumelos, ovos, vegetais, carne de vaca, de carneiro… só não rola carne de porco por motivos religiosos.

Minha mãe entrou no restaurante e começou a respirar pela boca para não sentir cheiro de óleo. (Hummm, mau sinal). Tentou fingir que não estava com fome, suspirou dali, se mexeu daqui, mas acabou escolhendo um prato e, para felicidade geral da nação, gostando! Só que, provavelmente por conta dos temperos muito fortes e diferentes usados na comida chinesa, ela passou mal à noite toda e amanheceu, como diz ela, um trapinho.

Placar: China 3 x 0 Brasil

Restaurante muçulmano em Shenzhen

Restaurante muçulmano em Shenzhen. Que peruca é essa que eu estava usando? Pareço o Zacarias!!!!

Depois de a mamãe estar totalmente recuperada, levei-os para fazer os programas turísticos mais legais de Shenzhen que, para mim, são: comprar peixe vivo no Mercado Municipal, ver as miniaturas das principais atrações turísticas do mundo no parque Window of the World, passear no Shenzhen Bay, almoçar no OCT Loft, tomar um café no OCT, jantar no Sea World, comprar muamba no mercado de artigos falsificados de Luohu, visitar a vila dos pintores em Dafen e, como não podia deixar de ser, fazer uma boa massagem.

Além disso, como eu precisava ir ao consulado brasileiro resolver uns problemas burocráticos, levei-os também à cidade de Guangzhou cuja parte nova é linda! Quem nos levou foi o Lee, um dos motoristas que prestam serviços para os estrangeiros e que é também uma espécie de amigo da família. Lá pelas tantas, o Lee para puxar assunto no carro, disse que o pai dele era capitão de navio. Eu falei, “O meu também”. Ele muito orgulhoso complementou: “O meu transporta produtos pelo rio”. Eu retruquei: “O meu é almirante de esquadra da marinha brasileira”. Ponto para o Brasil!!! Num país comunista, onde as forças armadas são efetivamente respeitadas, meu pai era, na visão do Lee, o homem mais importante do Brasil. A partir daí, ele só o tratava de “my general” e batia continência toda vez que papai entrava ou saía do carro.

Placar: China 3 x Brasil 1

 

Lee e sua van.

Lee e sua van.

Depois de Guangzhou, fomos visitar Macau. Em Macau, num dos hotéis cassino mais famosos de lá, o The Venetian,  a China fez mais um ponto. Depois de comermos num restaurante chiquérrimo para comemorar o fim da quimioterapia, papai foi todo contente pagar a conta com seu cartão Visa. Precisa dizer o que aconteceu? O cartão não passou e pronto. Eu abri minha carteira e comecei a contar as patacas, mas não havia o suficiente nem para pagar a metade do jantar. Eu, nervosa, só conseguia resmungar baixinho: “I don’t have mataca, sorry, pacata, sorry, pataca.”

Bom, o jeito foi tentar trocar os dólares numa das bancas do cassino. E lá fui eu, com dólares de cara pequena, cara grande, mofados e sujinhos entre as mesas de blackjack e máquinas de caça-níqueis, rezando para eles aceitarem. O primeiro macauense que me atendeu rejeitou os dólares, mas em se tratando de um cassino, a gerente acabou trocando. Quando cheguei de volta ao restaurante, meus pais pareciam a Magnólia e o Severo da novela Império sendo monitorados de longe pelo maitre desconfiado.

Placar: China 4 x Brasil 1

 The Venetian hotel e seus canais de Veneza no 2o andar do edificio


The Venetian hotel e seus canais de Veneza no 2o andar do edificio

A próxima parada foi em Hong Kong. Depois de andar quilômetros dentro de uma das suas gigantescas estações de metrô e já vislumbrando a escadaria que nos aguardava para sairmos dela, avistei maravilhada um elevador. Minha mãe já estava tão cansada, que não dava para exigir dela mais nenhum esforço físico. Na frente do elevador, havia uma catraca para passar o cartão do metrô que eu tinha, mas meus pais não. No desespero, passamos os 3 juntos agarradinhos um no outro com uma única volta da roleta, usando o meu cartão. Pegamos o elevador e, em vez de subir, ele desceu. Ou seja, não adiantou de nada! Pegamos o elevador de volta e, na hora de passar novamente na catraca, a máquina começou a apitar e um supervisor do metrô veio ver o que estava acontecendo. My general foi pego em flagrante tentando dar o golpe no metrô de Hong Kong!!! No fim das contas, eu fiz cara de turista desinformada, tomei uma bronca e ficou por isso mesmo.

Placar: China 5 x Brasil 1

Buda gigante em Hong Kong. Para quem não gostava de escadaria....

Buda gigante em Hong Kong. Para quem não gostava de escadaria….

Meus pais ficaram em Shenzhen durante 30 dias e aprenderam a gostar daqui. Minha mãe, considerada a senhora de 80 anos mais linda do mundo por todas as minhas colegas chinesas, já até ia ao cabelereiro sozinha. Meu pai saía todos os dias para caminhar na orla em frente de casa e comprar guloseimas no mercadinho aqui de baixo, onde era tratado cheio de intimidade.

Mas onde o Brasil virou definitivamente o jogo foi na hora de estabelecer relações afetivas com os chineses. Meus pais, através de sorrisos, gestos, toques e todos os tipos de mímica possíveis conquistaram o coração de duas pessoas. A primeira atingida pelo calor brasileiro foi a Linda, a motorista que nos levou para cima e para baixo em Shenzhen, trocando declarações de amor com a minha mãe e trazendo presentinhos para ela. Linda não tem mãe e se apaixonou pela minha, mesmo não falando uma palavra de inglês.

Linda, nossa motorista particular em Shenzhen

Linda, nossa motorista particular em Shenzhen

Imperdoável não ter uma foto da Linda com meus pais!

A outra foi a minha ayi, a Aijiao. Antes dos meus pais chegarem, Aijiao já havia mandado fazer cobertores e lençóis novos para colocar na cama; tinha dado um jeito no banheiro para ficar mais confortável, enfim, já tinha tomado conta da situação. Quando meus pais chegaram, foi como se os pais dela tivessem vindo visitá-la. Aijiao se surpreendeu com a jovialidade da minha mãe e com o fato dela ter todos os dentes na boca. “Kelisi (Chris), os dentes dela são de verdade?”.

Placar: China 5 x Brasil 100!

Aijiao, minha ayi, enfermeira e principalmente amiga.

Aijiao, minha ayi, enfermeira e principalmente amiga.

Não foi fácil para ninguém se despedir dos meus pais depois de tanto tempo grudados com a gente. E a China, essa nunca mais será a mesma depois que my general e sua esposa estiveram aqui!

Pai e mãe, amo vocês!

Natal 2014 em Shenzhen, simplesmente inesquecível

Natal 2014 em Shenzhen, simplesmente inesquecível

Mercado municipal de Shenzhen

Mercado municipal de Shenzhen

Mulheres fazendo compras, homens entediados

Mulheres fazendo compras, homens entediados

Muro do OCT Loft

Muro do OCT Loft

My general no museu de arte moderna de Dafen

My general no museu de arte moderna de Dafen

Não é Paris, é o Window of the World em Shenzhen

Não é Paris, é o Window of the World em Shenzhen

OCT e sua decoracao de natal duvidosa

OCT e sua decoracao de natal duvidosa

Sea World e seu ícone principal, o navio

Sea World e seu ícone principal, o navio

Shenzhen bay com a ponte que liga a Hong Kong.

Shenzhen bay com a ponte que liga a Hong Kong.

 Templo do Chen Clã em Guangzhou


Templo do Chen Clã em Guangzhou

Reveillon na churrascaria Latina no Sea World

Reveillon na churrascaria Latina no Sea World

Zai jian!

再见!

christianedumont@hotmail.com

Enviado por christianedumont, 22/03/15 6:28:33 AM

你们好,

Nimen hao,

Há mais ou menos dois anos, eu estava procurando um curso de chinês onde Mariana e Marcos pudessem ter aula juntos. Acabei batendo à porta de um Centro de Artes para crianças chinesas aqui em Shekou. Pedi informações sobre os cursos disponíveis para a recepcionista que, não entendendo nada do meu mandarim ainda primitivo, me pediu para esperar. Minutos depois, uma menina parecendo ter uns 18 anos veio me receber.

Ela me fez sentar confortavelmente num sofá e me serviu chá, respeitando todo o ritual chinês de preparar, descartar a primeira infusão, servir novamente. Confesso que nunca sei muito bem como me comportar quando me servem chá num desses potinhos minúsculos: é para beber de uma vez só que nem cachaça e oferecer um gole para o Buda, ou ir molhando o bico devagarinho?

Enfim, a menina-professora de nome Nora, vendo que eu estava tentando falar com ela em mandarim, já foi de cara corrigindo meus erros e me estimulando a falar cada vez mais. Minutos depois, eu já estava tão à vontade, que me sentia praticamente três níveis de proficiência acima do meu.

Nora, professora de mandarim em Shenzhen

Nora, professora de mandarim em Shenzhen

Nora não é uma. São duas. A Nora que você vê na superfície é uma menina frágil, de um metro e meio (alguém mais baixo do que eu!), de olhar doce, sorriso aberto e com uma empolgação típica de uma adolescente. A Nora que não se vê é uma mulher de 35 anos, com longa experiência como professora de estrangeiros, com passagens pela Beijing University e outras instituições de ensino.

Nora, minha professora, parceira e às vezes, filha

Nora, minha professora, parceira e às vezes, filha

Marcos e Mari começaram a ter aula com a Nora e, na semana seguinte, já estavam envolvidos na inauguração de um curso de salsa. Eu tinha certeza absoluta que nem um dos dois iria se despencar de casa para dançar salsa num sábado à tarde, mas errei feio! E não foi só o Marcos que a Nora enfeitiçou. Seus colegas do high school também vivem dizendo que estão precisando de aula de chinês só para ficar ao lado da menina-mulher.

Aula de salsa na Shenzhen Mandarin

Aula de salsa na Shenzhen Mandarin

Nora é louca pela cultura chinesa. Seus alunos não têm um fim de semana de sossego! É aula de como fazer jiao zi, aula de caligrafia, encontros em cafés para troca de experiências, concurso de quem fala melhor os tons em mandarim. De domingo a domingo, lá está a Nora inventado alguma coisa!

Concurso de Talentos em Shenzhen

Concurso de Talentos em Shenzhen

 

Aulas de artes para criancinhas

Aulas de artes para criancinhas

Atualmente, além de ser minha professora e da Mari, Nora é minha parceira na missão de trazer brasileiros para estudar mandarim na China. Mais do que isso. Ela me “promoveu” a Diretora de Instrução num curso que dá gratuitamente para estrangeiros. São apenas 8 aulas, mas o suficiente para você sair falando seu nome, idade, onde mora, o que veio fazer na China e outras frases de sobrevivência. Deem uma olhadinha no vídeo abaixo que eu mesma gravei como diretora de instrução. Só para esclarecer, esse cargo é apenas uma brincadeira para justificar o fato de eu ajudar a Nora com alguns pensamentos ocidentais.

 

 

Como se não bastassem as aulas e os encontros culturais do fim de semana, a Nora ainda manda dicas de mandarim para seus alunos pelo Wechat toda segunda, do tipo da que você pode ver abaixo.

Como falar carne em mandarim

Como falar carne em mandarim

 

Agora, Nora por Nora:

“Adoro cultura tradicional chinesa, viajar, fazer amigos. Não gosto de esporte, mas gosto de meditar. Vegetariana, estou tentando aprender a nadar este ano. Estou atualmente encarregada do desenvolvimento do projeto “International Community Service”.

 

Aula de caligrafia

Aula de caligrafia

Momento Merchandising: Já que a Nora adora fazer novos amigos, é muito fácil vir até Shenzhen fazer um curso de mandarim com ela. Basta entrar no site da minha parceira aí no Brasil, a Márcia da Mapaei , ou no da SGBS e programar sua viagem. Ainda dá tempo de vir nas férias de Julho!

Eu e Nora estaremos aqui esperando por vocês!

Nora e Chris

Nora e Chris

 

Lai ba!

来吧!

Vem!

christianedumont@hotmail.com

Enviado por christianedumont, 15/03/15 11:36:32 AM

Hoje, dia 15 de março, o Brasil combinou de ir às ruas para se manifestar contra o governo Dilma. O movimento, que ganhou força nas redes sociais ao longo da semana, atingiu parte da comunidade brasileira aqui de Shenzhen. Às três da tarde de domingo, quatro da manhã no Brasil, um grupo de expatriados se reuniu num gesto de apoio aos brasileiros que estão saindo, neste momento, em protesto nas principais capitais do país.

A comunidade brasileira de Shenzhen é formada por famílias que decidiram deixar o país em busca de mais qualidade de vida, assim como de profissionais que não conseguiam mais se recolocar no Brasil. Diversos pilotos das falidas Varig, Rio Sul, Transbrasil e Vasp  trabalham, hoje, por salários muito melhores para as companhias aéreas chinesas como a Shenzhen Airlines.

Pouco importa se a vinda para China foi voluntária ou forçada. Todos, ao chegarem aqui, foram impactados pela mesma sensação de que a qualidade de vida no Brasil é muito ruim. “Quando se vive no Brasil, a gente não se toca de que as coisas estão tão problemáticas. A gente simplesmente se acostuma e segue em frente”, diz um dos participantes. “No entanto, ao chegar numa cidade como Shenzhen, com transporte público de qualidade, bons hospitais a preços acessíveis e, principalmente, muito seguro é que entendemos como o Brasil parou no tempo”.

Quem, aqui da China, faz negócios com o Brasil reclama dos impostos de importação altíssimos e do esquema de corrupção que acaba financiando a roubalheira generalizada.

Uma brasileira que morava nos Estados Unidos, mas está há 10 anos na China a trabalho, diz que para ser político naquele país é preciso estudar muito. No Brasil, palhaço se elege deputado e presidente se vangloria por ter chegado até onde chegou, sem precisar completar nem o ginasial.

Esta observação me fez lembrar a antiga China de Mao, onde os professores e intelectuais foram eliminados e os camponeses, sem instrução, eleitos os donos da nação. E o motivo é rigorosamente o mesmo: assim fica muito mais fácil governar.

“Os brasileiros estão mais unidos, mas não sabem muito bem o motivo. Nas redes sociais, se encontra todos os tipos de protesto, do preço do tomate ao impeachment da Dilma”, diz um profissional de trade que participou do evento.

Mas será mesmo que os brasileiros estão mais unidos? Tirando aqui por Shenzhen, o que se vê é um grupo de pessoas mais velhas que já perderam as esperanças, e outro de jovens que estão na China, mas querem muito voltar para o Brasil.

Independente dos sentimentos de revolta, decepção ou frustração que cada um de nós possa ter, a verdade é que somos todos brasileiros e que algo maior nos une: a vontade de ver o Brasil deixar de ser somente o país do carnaval, samba e futebol.

 

Brasileiros de Shenzhen em manifestação por um Brasil melhor

Brasileiros de Shenzhen em manifestação por um Brasil melhor

 

Brasileiros de Shenzhen em manifestação por um Brasil melhor

Brasileiros de Shenzhen em manifestação por um Brasil melhor

Brasileiros de Shenzhen em manifestação por um Brasil melhor

Brasileiros de Shenzhen em manifestação por um Brasil melhor

Enviado por christianedumont, 28/02/15 11:44:41 PM

你们好,

Ni men hao,

Amigos leitores, este blog é para ser um blog sobre a China e nossas aventuras por aqui. No entanto, o câncer que me achou em meados de 2014, me forçaram a mudar um pouco o tema dos meus posts.

Agora que estou totalmente curada, consegui tempo para realizar um projeto pessoal de compartilhar informações sobre o câncer com outras pessoas que não têm acesso a elas. Depois que li o livro Anticancer do Dr. David Servan, decidi fazer um resumo dos principais pontos e transformar tudo em vídeo para facilitar e democratizar o acesso a estas informações.

Anticâncer, o livro

Anticâncer, o livro

Dr. David, médico e pesquisador, teve um câncer de cérebro e decidiu pesquisar tudo que já tinha sido publicado nas revistas médicas do mundo sobre câncer. Foi assim que ele percebeu que essas pesquisas, quando analisadas separadamente, eram um bando de informações dispersas. Porém, quando analisadas juntas, faziam total sentido e reiteravam umas as outras.

O livro Anticâncer é, portanto, um compilado de dados sobre o câncer e sobre as ações que podemos adotar no nosso dia-a-dia para nos proteger dele. Afinal de contas, como diz o próprio Dr. Servan, todos nós temos um câncer dormindo dentro de nós.

 

Como está na moda, hoje em dia, transformar tudo em pergunta (vocês já devem ter recebido algum texto do tipo “10 maneiras de ser feliz”), também estou fazendo o mesmo. O video vai respoder 17 perguntas sobre o câncer, entre elas;

  • Por que uma pessoa tem câncer e outra não?
  • Existe realmente uma epidemia de câncer na Terra?
  • Gente deprimida tem mais risco de desenvolver câncer?
  • Por que não é bom comer proteina animal?
  • Por que na Asia, as pessoas têm menos câncer de mama, próstata e colon?

Os links dos vídeos estão abaixo e adoraria se vocês pudessem compartilhar com o máximo de pessoas. Informação nunca é demais e, como diz o ditado, é poder. E neste caso, poder de proteger a própria vida e das pessoas que você ama.

Prometo que este será o último post em que falo da doença!!!!

 

 

 

再见

zai jian

 

christianedumont@hotmail.com

 

谢谢你们!

Xiexie nimen!

Enviado por christianedumont, 13/02/15 1:35:17 PM

 

Ano do Carneiro

你们好,

Estamos a uma semana da virada do ano na China. Dia 19 de fevereiro, às 7:48 da manhã daqui (21:48 da noite do dia 18, no Brasil) começa o ano 4712. O ano do carneiro. Qualquer chinês sabe que o próximo signo é o do carneiro, mas estou para conhecer algum que consiga me dizer em que ano estamos. Nem as professoras da Shenzhen University conseguiram me responder isso.

“Segundo o horóscopo chinês, tudo indica que, depois do ano intenso do Cavalo, este será um ano mais calmo. Um ano para relaxar e fazer as pazes com tudo e todos. As coisas vão progredir lentamente e as pessoas tenderão a ser mais sentimentais e emocionais. A influência do Carneiro trará mais proximidade com o lar e com a família, fazendo com que as pessoas se importem mais com aqueles que estão perto e sejam mais liberais com o tempo e o dinheiro.” Fonte: site Delas 

Embora os chineses não gostem do ano do carneiro, por considerarem um animal submisso e pronto para o abate, para mim ele tem um significado muito especial. Acabo de terminar o tratamento para evitar a volta do câncer que me apareceu, a galope, no ano do cavalo.  Este será, certamente, o ano do meu renascimento! O foguetório, dioturno, que os chineses fazem durante a semana para afastar maus espíritos vai ter uma outra função: a de comemorar a minha vitória!

Obrigada a todos pelas orações, e-mails e mensagens que recebi ao longo deste ano! Sem vocês, teria sido muito mais dificil!

Até 4712!

Três mulheres começando a viver!

Três mulheres começando a viver!

Nesta foto, tirada terça-feira, estamos eu, uma professora da escola das crianças que está fazendo quimioterapia e a filha de uma outra professora. Um trio e tanto!

 

christiandumont@hotmail.com

Enviado por christianedumont, 31/12/14 8:17:08 AM

你们好,

Ni men hao,

Dizem que se Adão e Eva fossem chineses, o pecado original não existiria: o casalzinho teria comido a cobra e não a maçã. É, faz sentido.

O que também tem feito sentido para mim, depois da surpresinha de 2014, é um novo significado que descobri para o pecado original. Acho que a grande maldição a qual o ser humano, de qualquer raça, está condenado é a de só entender a vida através da comparação. O famoso “take for granted”, ou como diz a letra da música “ Let Her Go” do Passanger:

“Bem, você só precisa da luz quando está escurecendo
Só sente falta do sol quando começa a nevar
Só sabe que a ama quando a deixa ir
Só sabe que estava bem quando se sente mal
Só odeia a estrada quando sente saudade de casa
Só sabe que a ama quando a deixa ir
E você a deixou ir”

(Tradução)

É por este motivo que eu acredito que o câncer que tive (verbo devidamente conjugado no Pretérito Perfeito) me trouxe mais coisas boas do que ruins. Não, leitores, a quimioterapia não afetou meus neurônios. Obviamente, que os efeitos colaterais do tratamento não são nada agradáveis, mas os ganhos emocionais foram imensos!

Se eu pudesse acrescentar alguns versos à música “Let Her Go”, eles seriam mais ou menos assim

* Você só dá valor à liberdade quando não tem forças para acompanhar a família num passeio de fim de semana;

* Você só dá valor ao arroz com feijão de todos os dias quando o gosto amargo na sua boca transforma tudo numa prato de fel;

* Você só vê o real valor das redes sociais quando consegue, através delas, levar/receber uma palavra de incentivo a/de desconhecidas que não estão conseguindo lidar tão bem com o câncer;

* Você só entende o quão crítico e egoísta vinha sendo quando recebe palavras de apoio das pessoas que você julgava tão desimportantes;

* Você só dá real valor às amizades quando sua amiga de infância fica enviando mensagens, ao longo do dia, lembrando que você precisa beber muita água para diminuir os efeitos da quimio;

* Você só entende o poder da oração quando ela passa a ser o único remédio possível para amenizar suas dores;

* Você só sente a força do sentimento maternal quando tem plena convicção de que “mil vezes você com câncer, do que qualquer um dos seus filhos (e, no meu caso, enteado também)”;

* Você só entende o real sentido do casamento, quando seu marido continua ao seu lado dizendo “você está linda”, apesar de estar jogada à frente da TV num sábado à noite, magra, com olheiras e totalmente careca;

* Você só sente a força dos laços familiares quando seus pais, aos 80 anos de idade, viajam 36 horas do Brasil até a China só para passar o natal ao seu lado;

* Você só dá valor à saúde quando a perde.

 

Felizmente, no meu caso, uma perda apenas momentânea, mas muito, muito, muito esclarecedora. As 6 sessões de quimioterapia já terminaram e agora vem a parte mais leve do tratamento.

Leitores e amigos, eu desejo que em 2015 consigamos enxergar o valor das pequenas coisas boas da vida e a real importância daquelas as quais nos acostumamos por conta da rotina, sem precisar perdê-las por um só minuto.

E vamos à contagem regressiva, ou melhor, progressiva!

 

 

Primeira Quimio

Primeira Quimio

 

Segunda Quimio

Segunda Quimio

 

Terceira Quimio

Terceira Quimio

 

Quarta Quimio

Quarta Quimio

 

Quinta Quimio

Quinta Quimio

 

Sexta Quimio

Sexta Quimio

 

FELIZ 2015! SAÚDE!

 christiandumont@hotmail.com

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