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Rodrigo Constantino
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Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

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No país do futebol, STF encontra tempo para decidir campeão, mas não para julgar corruptos com foro privilegiado

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O Brasil é um país meio surreal, e o “meio” é bondade minha. Vivemos a maior crise econômica de nossa história, graças ao PT, e como resultado disso e também dos escândalos infindáveis de corrupção, uma das maiores crises políticas e sociais que já tivemos desde Cabral. Reformas cruciais para a nossa sobrevivência são discutidas, e afrouxadas a cada dia. A lista de corruptos só faz aumentar. O povo sofre com o desemprego e a violência. Mas vamos parar tudo para ver quem foi mesmo o campeão em 1987, segundo os ministros do STF. Parece brincadeira!

A coluna de Ancelmo Gois fez troça da situação hoje, após dar uma informação “relevante” sobre o caso:

Um dedo do Vasco

Em seu solitário voto a favor do Flamengo, na disputa com o Sport para saber quem era o campeão de 1987, o ministro Luís Roberto Barroso, do STF, observou que o nome do advogado do clube pernambucano era Vasco della Giustina. Barroso diz que o Judiciário não é o lugar adequado para que questões de campeonato de futebol sejam decididas.

No mais…

Da forma como tudo aqui, no Brasil, é judicializado, o Supremo acabará sendo chamado para decidir se o título do carnaval carioca é da Portela ou da Mocidade. Francamente!

De fato: francamente! Tudo acaba virando assunto para o judiciário no Brasil, até a última instância (o que pode levar, como vimos, três décadas). É bizarro demais! Não só a morosidade, como o timing e a própria decisão caber ao Supremo Tribunal Federal, com coisas mais importantes pendentes – como o julgamento dos vários corruptos com foro privilegiado, outra excrescência nacional.

João Luiz Mauad, colaborador do Instituto Liberal, desabafou em seu Facebook:

Você entende por que Pindorama é um país subdesenvolvido quando vê que a mais alta corte do país, que deveria julgar somente matérias constitucionais, perde boa parte de seu dia decidindo quem é o campeão nacional de futebol de 30 anos atrás (1987). E que essa decisão é uma das notícias mais comentadas do dia, na imprensa e nas redes sociais (pelo menos aqui no Rio de Janeiro).

Eu sou flamenguista (do tipo que não liga muito para futebol), mas não posso deixar de reproduzir o comentário de um leitor após esse desabafo:

O Flamengo fez um requerimento na FERJ para ser considerado o campeão de 1987: Perdeu. Entrou com um recurso no TJD: Perdeu. Fez uma apelação no STJD: Perdeu. Recorreu à CBF: Perdeu. Depois à Comenbol: Perdeu! Recorreu à FIFA: Perdeu! Não admitindo os resultados da justiça desportiva e suas entidades, entrou na Justiça Comum, perdeu! Recorreu à Justiça Federal, perdeu! Apelou para o TRF: perdeu! Fez um Agravo Regimental no próprio TRF: Perdeu! Entrou com um Recurso Especial no STJ: perdeu! Entrou com um Recurso Extraordinário no STF: Perdeu! Entrou com um agravo de instrumento no próprio STF: Perdeu! Então, resolveu pedir para que fosse considerado também campeão, dividindo o título de 1987 com o Sport. Hoje, 30 anos depois: PERDEU DE NOVO! Repare que nenhuma das instâncias, NUNCA, ainda que a decisão fosse revogada à posteriori, considerou o Flamengo campeão, nem mesmo compartilhando o título com o Sport/PE. Tente provar para um petista que o Lula é ladrão: você saberá o que é discutir com um flamenguista!

Ele tem um ponto. Mas não é só flamenguista, claro. O Brasil é muito tribalista. As pessoas defendem seus times e partidos, mas não princípios e valores impessoais. E muitos o fazem de forma fanática, sem qualquer apreço pelos fatos, pela lógica, pelo bom senso. O brasileiro fica horas discutindo futebol – até aí tudo bem, acho normal – mas muitos não conseguem ter a perspectiva de que há coisas mais importantes no mundo. Este, aliás, pode estar ruindo em volta, que lá estará o torcedor fanático, mais interessado no resultado do jogo ou da decisão do STF do que nos 12 milhões de desempregados ou na ausência de reformas estruturais que poderiam salvar nossa economia.

Não é fácil lutar por mudanças no Brasil, o país do futebol. Fica difícil negar a frase atribuída a Charles De Gaulle: o Brasil não é um país sério.

Rodrigo Constantino

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Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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