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Matopiba: onde tudo é em escala gigante, inclusive os problemas

As dificuldades fundiárias no Piauí já fizeram muitos sulistas “quebrar” e abandonar o projeto da nova fronteira

Daniel Caron/Gazeta do Povo Na fazenda dos irmãos Fritzen, colheitadeiras aguardam o clima seco para começar os trabalhos na lavoura. | Daniel Caron/Gazeta do Povo

Na fazenda dos irmãos Fritzen, colheitadeiras aguardam o clima seco para começar os trabalhos na lavoura.

Bom Jesus (PI) |

  • Marcos Tosi, enviado especial

Irmão mais velho, Leivandro Fritzen foi o primeiro a conhecer o cerrado do Sul do Piauí, no início dos anos 2000, quando o patriarca da família decidiu procurar terras mais baratas para expandir os negócios e garantir o futuro dos filhos e netos. “Eu sonhava em ter uma área maior para plantar, para operar grandes colheitadeiras e tratores. Mas hoje nem dá tempo de subir nessas máquinas”, relata Leivandro, 41 anos, que nasceu em Humaitá, Noroeste do Rio Grande do Sul.

Questões “macro” ocupam o tempo e tiram o sono do produtor. “Tudo o que é dentro da porteira é perfeito, a gente se adapta e não tem nenhuma dificuldade. O que nos pega é a falta de infraestrutura, o custo das estradas, as dificuldades com energia elétrica e com regularização fundiária”, conta.

Como outros pioneiros desta nova fronteira, a família Fritzen vendeu tudo no Rio Grande do Sul em 2005 – no caso deles, 400 hectares de terra – para apostar alto no Matopiba. Se o desafio era ganhar escala, o sucesso foi incontestável: hoje cultivam 19 mil hectares com grãos, criam gado em outros 4 mil hectares e ainda têm uma reserva de 6 mil hectares para abrir para a agricultura – sem contar os cerca de 10 mil hectares de proteção ambiental obrigatória, que no Cerrado é de no mínimo 35% da área dos imóveis rurais.

“Temos gerações de vidas investidas aqui. Foram os produtores que construíram e mantêm as estradas, dividimos despesas monstruosas para ter um mínimo de energia elétrica”, conta.

Mas há uma insegurança jurídica sobre o domínio das terras que preocupa os empresários rurais. “Compramos títulos de um processo de regularização de 50 anos atrás. Agora o governo, que faz correição todo ano nos cartórios, vem e diz que houve problemas na transmissão das matrículas. E quer regularizar de novo. Agora que a terra está produzindo, valorizada e bonita, o governo estadual quer vendê-las outra vez. Isso revolta a gente”. O custo desta “revenda” é de cerca de R$ 330 reais por hectare. “O problema não é só o preço, é a demora para regularização, que pode levar vários anos”, afirma Fritzen.

Investimentos

As dificuldades fundiárias no Piauí já fizeram muitos sulistas “quebrar” e abandonar o projeto da nova fronteira. É que sem títulos reconhecidos, os produtores não têm acesso ao seguro nem aos financiamentos com juros controlados pelo governo federal. Na safra 2015/16, quando a estiagem derrubou a colheita pela metade, pelo menos 30 famílias de empreendedores da região da Serra do Quilombo venderam tudo para pagar as despesas e ir embora.

Confira imagens da Expedição Safra Ampliar

Mesmo assim, tem sempre gente desembarcando. Próximo à divisa do Maranhão com o Piauí, Marcelo Porzel trabalha há seis anos numa empresa especializada em abrir novas áreas no Cerrado e entregar fazendas devidamente documentadas. Nesse período, o preço da terra saltou de uma faixa entre 50, 60 e 100 sacas por hectare para uma média de 200 a 250 sacas, hoje. “Quem mais tem vindo são os paranaenses, depois os gaúchos. E mais recentemente muitos paraguaios também chegam para se informar sobre as terras. A pessoa dá um sinal entre 30 e 40% do valor da área e o restante paga em quatro a cinco anos, com a própria renda da agricultura”, diz Porzel.

No ano passado, a empresa onde Porzel trabalha vendeu 6 mil hectares de novas áreas agrícolas no Cerrado. E ainda tem outros 30 mil hectares para abrir na região de Balsas, Alto Parnaíba e Tasso Fragoso. Para quem acha que a agricultura pressiona o bioma, Porzel observa que o próprio clima e o solo limitam as áreas agricultáveis, tanto em direção à caatinga, no oeste, quanto rumo ao litoral, no leste. Ele ainda aponta para 700 mil hectares intocados do Parque Nacional das Nascentes do Rio Parnaíba. “Tem pelo menos uns 60 mil hectares lá dentro que seriam perfeitos para a agricultura, mas ninguém pode mexer”, conforma-se o corretor.

No Condomínio Milla, em Baixa Grande do Ribeiro, no Piauí, o jovem agrônomo Robert Milla, de 26 anos, comanda o negócio familiar de cultivo de grãos em 17,4 mil hectares. Os pais moram em Guarapuava, a 2.600 km, onde a família também cultiva soja e milho. Aqui no Nordeste, Milla é vizinho de fazendas de fundos de investimentos de americanos e australianos. Nessa região, as menores áreas giram em torno de 5 mil hectares.

Milho

Robert Milla diz que um avanço tecnológico recente promete impulsionar o cultivo de milho no Piauí. Ele começou a plantar milho 2ª safra há apenas dois anos. A área neste ciclo deverá ser de 3 mil hectares. E a tendência é aumentá-la. “A pesquisa tem produzido variedades de soja mais precoces e de ciclo menor. Isso abre a janela para plantarmos o milho safrinha”, relata Robert.

No Cerrado, o cultivo da safrinha sempre tem que levar em conta o risco climático, porque a partir de meados de abril as chuvas “vão embora” por quase seis meses. “Temos que lembrar que estamos no Nordeste, é preciso se prevenir dos veranicos”, afirma Leivandro Fritzen. “Nosso maior desafio é construção do solo, fazer palhada e formar matéria orgânica. Sem matéria orgânica, a agricultura tradicional não sobrevive por aqui. Por isso que a gente diz que essa é a região agrícola mais tecnificada do País”, completa.

Os Fritzen confirmam as boas perspectivas para as culturas de 2ª safra, em função das variedades precoces de soja. “Hoje fazemos zero milho safrinha. Mas acredito que em cinco anos teremos 50% da área cultivada com safrinha, entre milho e sorgo”, assegura Leivandro.

Recorde

Na conversa com a reportagem da Expedição Safra, os produtores do Piauí confirmaram a tendência de safra recorde no Matopiba, como apontaram técnicos e agricultores do Tocantins e do Maranhão. “Já estamos com média de 63 sacas de soja por hectare, e isso vem subindo”, conta Fernando Freitzen, irmão caçula dos Fritzen.

Robert Milla vê um cenário parecido: “no ano passado nossa média foi de 58 sacas. Agora devemos bater nas 60 sacas. Alguns talhões chegaram a 78”. A produtividade poderia ser até um pouco maior, mas é preciso descontar as áreas novas – neste ciclo foram 1000 hectares – que diminuem a média, já que produzem em torno de 40 sacas no primeiro ano. No próximo ciclo, os Milla vão integrar mais 1500 hectares à produção.

Quando a reportagem visitou as propriedades de gaúchos e paranaenses no Piauí, nesta semana (25 e 26/03), as colheitadeiras estavam enfileiradas no campo, à espera do sol secar a terra para avançar sobre a soja.

Para produzir esta reportagem, a equipe da Expedição Safra viajou, em dois dias, quase 300 km em estradas de terra cortando as fazendas do sul do Piauí e Maranhão. Estamos no Matopiba: as 9 colheitadeiras dos Fritzen, por exemplo, podem ceifar em um único dia uma área de 600 hectares. É uma vez e meia o tamanho da fazenda que a família vendeu no Rio Grande do Sul, há 15 anos, para alçar novos voos. Apesar de todas as dificuldades, estão voando alto.

Procurado, o Instituto de Terra do Piauí não retornou a ligação até a publicação da matéria.

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