Embalados pelo La Niña, que provoca chuvas acima da média nas regiões Norte e Nordeste do país, os produtores estão empolgados.| Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo

Os últimos quatro anos não foram animadores para os produtores rurais do polo agrícola que envolve os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, o chamado Matopiba. Por causa do clima, principalmente dos longos períodos de estiagem, o rendimento das lavouras oscilou até atingir o chão na última safra, com quebras históricas, acima dos 60%. Agricultores que vivem há mais de 20 anos na região disseram nunca ter presenciado uma safra tão ruim. “A soja simplesmente derreteu. Nossa média de produtividade foi de 12 sacas por hectare. Nunca colhemos tão pouco”, conta o produtor Abel Pieta, que também é presidente do Sindicato Rural de Bom Jesus, no Piauí.

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Lançamento

Rondonópolis, no MT, recebe nesta quarta-feira (14) o lançamento da Expedição Safra 2016/17. Giovani Ferreira, coordenador do projeto, vai estar presente para uma apresentação sobre os desafios do agronegócio eficiente e competitivo, no campo e no mercado.

No entanto, o jogo começou a virar. Embalados pelo La Niña, evento climático caracterizado pelo resfriamento das águas do Oceano Pacífico, que provoca chuvas acima da média nas regiões Norte e Nordeste do país, os produtores avançam no plantio com a esperança de retomar os índices de produtividade e recuperar os prejuízos causados pela safra passada. “Até o momento, as condições estão ideais para o plantio e condução das lavouras. Nós teremos um ano bom de chuvas e uma safra cheia”, afirma Luiz Stahlke, assessor de Agronegócio da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba).

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Em São Desidério, no Oeste baiano, o produtor Seiji Mizote vai cultivar 18 mil hectares de soja e 2,6 mil de milho. “Nós estamos otimistas. Já são quatro anos consecutivos de perdas aqui na região”, diz. Mizote, que tem parte das lavouras irrigadas, não teve uma produtividade tão baixa quanto outros produtores, mas colheu uma quantia suficiente apenas para pagar os custos.

No Piauí, estado que mais sofreu com as perdas da última temporada, o clima é de esperança. No distrito de Nova Santa Rosa, em Uruçuí, o produtor Wilson Marcolin, que há 18 anos mora na região, vai plantar 830 hectares de soja e 420 ha de milho neste ciclo. “O Piauí sempre foi um estado com bons índices de produtividade. Esperamos retomar esses índices neste ano”, explica. Na safra anterior, o produtor colheu apenas 20 sacas de soja por hectare. Neste ano, o objetivo é atingir 60 sacas. “Mesmo assim, será preciso uns dois anos para a gente se recuperar”, explica.

Em Balsas, no Maranhão, o produtor Idone Luiz Grolli, que também tem o auxilio de pivôs de irrigação, diz que o clima ajudou bastante neste ano, tanto que parte dos 4,8 mil hectares de soja já está no estágio de floração. “No Matopiba, a janela de plantio é mais extensa, dependendo da região. Uma parte nós plantamos em outubro, a outra nós plantamos agora. Mas em todos os talhões, o desempenho está fantástico. Nós tivemos apenas uns incidentes menores com pragas e replantio, mas nada significante”, conta. O Matopiba é responsável por 10% da produção de grãos do país, que neste ano é estimada em 215 milhões de toneladas. Na safra atual, os quatro estados dedicam 3,2 milhões de hectares para a oleaginosa e 1,5 milhão para o cereal. A colheita está prevista para o final de março e começo de abril de 2017.

Descapitalização é entrave para safra

A quebra da última safra gerou prejuízos para produtores do Matopiba. Levando em conta a produtividade obtida no ciclo 2014/15, muitos fecharam contratos antecipados e não conseguiram entregar o prometido, ficando endividados. Embora seja uma boa notícia, a possibilidade de uma safra cheia não vai significar lucro para muitos produtores, apenas a quitação de dividas. “Temos muitos contratos para quitar. Precisamos de um tempo para superar as perdas”, diz Abel Pieta.

Além de não colher volume suficiente para honrar os compromissos, os produtores também estão descapitalizados para investir em insumos, fertilizantes e tecnologia, como em novos implementos. Horácio Shuji Hasegawa, de Formosa do Rio Preto, no Oeste da Bahia, diz que não investe nada desde 2013. “Não tem como comprar máquinas novas nesta situação, até no fertilizante nós economizamos”, conta.

Mas há quem pense diferente. Em Balsas, Idone Luiz Grolli afirma que é justamente quando as expectativas são boas que o investimento tem que aumentar. “Estou plantando 1 mil hectares a mais do que no ano passado. Vejo muita gente diminuindo os gastos porque a safra será boa. O investimento não pode cair. Temos que buscar a produtividade máxima”, aconselha.

Os produtores do Matopiba tiveram um prejuízo de R$ 3,5 bilhões na temporada passada. O tombo foi tão grande, que o Banco Central, em setembro deste ano, editou uma resolução autorizando a renegociação das dívidas agrícolas provocados pela frustração de safra.