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Ciclo de dependência

Refém de fertilizantes do exterior, Brasil agora está nas mãos de Irã, China e Rússia

Fertilizantes Brasil China Rússia
Xi Jinping e Vladimir Putin, ditadores da China e Rússia: países ampliam parceria em meio à guerra (Foto: EFE/EPA/MIKHAIL METZEL/SPUTNIK/KREMLIN/POOL)

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A disparada nos preços dos fertilizantes e as novas restrições de exportação impostas por China e Rússia voltam a expor a dependência brasileira de insumos importados e aumentam o risco de alta nos preços dos alimentos.

Desta vez, após a disparada no preço da ureia por conta dos conflitos envolvendo o Irã, um dos principais produtores globais, os dois maiores exportadores dos insumos passaram a restringir suas vendas.

Para os produtores, o cenário dificulta o controle de gastos, o que tende a resultar em inflação de alimentos a partir da próxima safra.

Relatório da consultoria agro do Itaú BBA mostra que, com o agravamento das tensões no Oriente Médio, a ureia apresentou a maior alta, alcançando US$ 710 por tonelada no porto brasileiro — uma elevação de 50% em 30 dias.

Outros fertilizantes também registraram pressão, embora em menor intensidade. A volatilidade é explicada pelo peso do Oriente Médio e do Norte da África como fornecedores de nitrogenados e rocha fosfática. O fluxo logístico foi prejudicado pelos conflitos no Mar Vermelho, que adicionam até 15 dias ao tempo de viagem e encarecem o frete.

Rússia e China querem priorizar mercados internos

Simultaneamente, diante da possibilidade de escassez dos adubos químicos, a Rússia suspendeu temporariamente suas exportações de nitrato de amônio, enquanto a China restringiu suas vendas de fertilizantes fosfatados.

As medidas foram adotadas pelos dois países para priorizar seus mercados internos, evitando justamente o aumento de custos para o setor agropecuário, mas, por outro lado, reduzindo ainda mais a oferta global.

A Rússia é o principal fornecedor de fertilizantes para o Brasil, responsável por 25,9% dos insumos químicos importados pelo país em 2025, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

A China, por sua vez, é o terceiro maior vendedor do setor para o mercado brasileiro. De acordo com a agência Reuters, até 40 milhões de toneladas de químicos, entre misturas de nitrogênio, potássio e variedades de fosfato, estão sob bloqueio ou cotas rígidas pelo país asiático.

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Cenário é bomba-relógio para inflação de alimentos

A redução da oferta global e a escalada de preços não deve afetar o agro brasileiro de forma imediata, uma vez que os fertilizantes para o plantio atual já foram adquiridos. O problema é se o quadro persistir até o segundo semestre, o que faria as novas cargas chegarem já com preços inflacionados.

Enquanto os russos devem liberar os embarques em maio, a previsão é que os chineses retomem as vendas apenas em agosto, o que pode afetar diretamente o início do plantio da safra 2026/27.

Analistas da Cogo Inteligência em Agronegócio observam que, além do mercado de fertilizantes, a volatilidade cambial e o frete global pressionam as projeções para as próximas safras.

Com a alta no barril de petróleo e a necessidade de desvio de rotas em razão do fechamento do Estreito de Ormuz, os preços do transporte marítimo também estão em alta.

Em duas notas recentes, técnicos do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) apontaram “elevadíssimo risco” para o setor de fertilizantes brasileiro, com ameaça de elevação de preços internos e até desabastecimento para a safra que será plantada no segundo semestre.

Estagnação do Plano Nacional de Fertilizantes deixa Brasil vulnerável

A recorrência do ciclo de exposição do Brasil aos choques do mercado externo mostra que o país está estagnado em relação à necessidade de se ampliar a produção interna.

O Plano Nacional de Fertilizantes (PNF) tem como meta reduzir a dependência externa dos atuais 85% para a faixa de 45% a 50% até 2050. Contudo, nos primeiros anos de execução, o quadro estatístico não apresentou avanços.

“Acho que primeiro faltou vontade política. Já tivemos uma crise séria lá atrás, com a guerra da Rússia e Ucrânia, e não aprendemos nada. O que foi feito depois disso? Nada”, critica a senadora Tereza Cristina (PL-SP) à Gazeta do Povo.

A parlamentar foi a responsável pelo lançamento do PNF quando esteve à frente do Mapa durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), em outro momento de crise no setor, com o início da guerra da Ucrânia.

“Hoje estamos repetindo 2022 pior, com risco de alta de preços e problemas nas rotas. O Brasil não avançou em política pública e continua dependente de mais de 80% de fertilizantes importados”, ressalta.

Para ela, não há um risco iminente de desabastecimento, mas o fato de a possibilidade entrar no radar já acende um alerta.

“Não é algo imediato, é uma sequência de fatores: rotas comprometidas, navios parados, preços subindo e usinas afetadas. Além disso, países estão segurando estoques. Por isso, o Estado brasileiro deveria já ter um comitê de crise para avaliar alternativas e evitar esse cenário”, defende.

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Desestímulo à produção nacional

A baixa competitividade nacional no setor não decorre da falta de matéria-prima, mas de entraves estruturais que dificultam a expansão da produção doméstica.

No caso dos nitrogenados, o principal obstáculo é o custo do gás natural. Enquanto indústrias nos Estados Unidos e na Rússia pagam entre US$ 2 e US$ 4 por milhão de BTUs (MMBtu), no Brasil o insumo chega às fábricas por até US$ 14.

Já na produção de potássio, projetos enfrentam obstáculos regulatórios e disputas judiciais, sobretudo em áreas sensíveis como a bacia do Rio Amazonas.

O setor também critica a chamada “tarifa inversa”, em que a carga tributária sobre a cadeia produtiva nacional torna o fertilizante fabricado no país mais caro que o importado. Segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda), o cenário desestimula investimentos e perpetua a dependência externa.

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