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Indústria “adoça” relação com comunidade emprestando eucaliptos para produzir mel
| Foto: Divulgação

Seis mil novas colmeias vão ser instaladas, ainda neste ano, nos eucaliptais da empresa chilena CMPC no Rio Grande do Sul. Nenhuma abelha ou favo de mel pertence à multinacional.

As 400 toneladas de mel retiradas todo ano complementam a renda de 120 famílias das comunidades do entorno da empresa, que atua na produção de papel tissue, matéria-prima para guardanapos, lenços e papel higiênico.

“Tenho 754 caixas em 7 hortos da CMPC e quando o clima está bom consigo uma média de 30 quilos por colmeia. Em 2018, alcancei 62 toneladas de mel”, relata o apicultor Genésio Hagemann, integrado desde 2014 ao Projeto Favos do Sul. O projeto, que é anterior à chegada da multinacional chilena ao Sul do país, está ganhando novo impulso dentro das ações de responsabilidade social da empresa, alicerçadas no conceito de Economia Circular.

“Estes investimentos e iniciativas contribuem para a sustentabilidade da cadeia produtiva. Um dos objetivos primordiais do negócio é estar próximo às mais de 280 comunidades vizinhas, desenvolvendo iniciativas que gerem valor compartilhado”, sublinha Mauricio Harger, diretor-geral da CMPC.

A multinacional chilena, com sede brasileira no município de Guaíba, no Rio Grande do Sul, aposta alto na simbiose entre o cultivo de florestas e a criação de abelhas. Virou este ano cedendo 290 mil hectares de eucaliptos disponíveis no território gaúcho à Zapata Consultora, sua parceira para expansão do projeto de instalar novos apiários. A meta da nova fase do projeto, implantada no ano passado, foi ter uma colmeia a cada dois hectares, índice conservador, mas animador, pois há possibilidade de crescer para cinco caixas por hectare.

Hoje, são nove mil colmeias nos hortos da indústria, que representa 7% do potencial produtivo dos eucaliptais. A meta até final de 2019 é chegar a 15 mil colmeias e, para 2020, a 25 mil caixas. Também se espera o aumento do rendimento anual situado na faixa de 17 quilos de mel por colmeia.

O projeto tem expectativa de atingir 145 mil colmeias, o que significaria que os eucaliptais industriais da CPMC passariam a responder por 30% de toda a produção de mel do Rio Grande do Sul. “É possível chegar lá gradativamente”, explica Gustavo Zapata, agrônomo da empresa que faz a gestão da apicultura à CPMC.

Apaixonado pela apicultura

Genésio Hagemann trabalha com a esposa, o filho e mais dois funcionários de carteira assinada no cuidado de 2,5 mil caixas de abelha nos municípios de Pântano Grande, Butiá (dentro do projeto) Encruzilhado do Sul, Rio Pardo e Dom Feliciano (de forma independente). “Quando se entende o que as abelhas significam para o meio ambiente e o que o mel que elas produzem representa, a apicultura vira uma ‘cachaça’. Não tem como sair. Sou feliz como apicultor”, revela.

Aos 47 anos, Hagemann não se vê fazendo outra coisa e já prepara o filho de 18 anos para dar continuidade ao negócio da família. “Tenho orgulho que meu filho vê oportunidade de crescer. A produção pode ser ampliada, pois parte dela é exportada, principalmente para os EUA”, enfatiza. Mesmo com oscilações no volume produzido, devido à ação do clima, a apicultura permanece um bom negócio. “O preço do mel já teve dias melhores, como em 2016 que atingiu média de R$ 11 por quilo, e hoje está entre R$ 6 e R$ 7”, ressalta o apicultor.

Há duas safras de mel no Rio Grande do Sul – na sua maioria cultivada pela Apís Melífera (ou abelha africana) -, uma na primavera com o mel silvestre, proveniente das floradas de novembro e dezembro; e outra no outono, da florada dos eucaliptos, que acontece de março a junho.

Em contrapartida à cedência das áreas pela indústria, os apicultores entregam 15 toneladas/ano de mel à CPMC, que doa todo o volume às escolas de educação especial (APAES) e ONGs, de 23 municípios gaúchos onde a chilena cultiva eucaliptos.

Furtos e agrotóxicos

Nem tudo são flores. A CMPC, seus parceiros, prefeituras e governo estadual buscam soluções para controlar dois problemas recorrentes: furtos de mel e efeitos colaterais do uso de agrotóxicos.

Em 2018, foram registrados danos e furtos em 97 colmeias (1% do total); 759 enxames soltos foram recapturados. “Foi quase uma dádiva termos conseguido alcançar esse número”, aponta Atílio Lopes, técnico agrícola, sócio da Zapata Consultores e gestor das áreas de manejo apícola.

“Além do roubo há outra questão que a gente que cultiva mel enfrenta; o uso de agrotóxicos de produtores de outras culturas, como a soja”, reclama o apicultor Genésio Hagermann.

Ele explica que no seu caso não possui problemas com isso, mas um bom número de apicultores sim. “Eu mantenho uma boa relação e comunicação com meus vizinhos que entenderam o que esses produtos causam para as abelhas e trocaram para marcas não nocivas ao meio ambiente. Mas o que se vê em parte do estado é descaso e falta de conhecimento”, explica.

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