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Roberto Gomes

Zico e a mágica do espelho

  • Porroberto.o.gomes@gmail.com
  • 27/07/2013 21:02

Dia desses tentei escrever, a pedido do meu amigo Antonio Manoel dos Santos Silva, sobre Zico. Sem que eu pudesse evitar, saiu um texto sobre Zizinho, que me driblou, tomando conta da crônica.

Não devemos confiar em cabeça de cronista, perdida em associações incontroláveis. Machado de Assis sofria desse mal. Volta e meia se perdia – ou fingia se perder – e disparava a falar de outras coisas até que, lá longe, retomava o fio da meada. Claro, não podemos acreditar nos fingimentos machadianos, tão arteiros quanto Capitu.

Estão vendo? Já me perdia. Voltemos. Trata-se de Zico.

Falar dele me parece difícil. Seria repetitivo insistir nas jogadas deslumbrantes, nos passes exatos e suaves, nos dribles que nos deixavam atônitos.

Uma das mágicas de Zico era a aparente facilidade. Nos passes, nos dribles, na condução da bola. Todo grande craque é hábil em produzir essa ilusão: tudo que faz parece fácil. Ao contrário do que ocorre com os pernas de pau, nos quais sentimos o esforço, o suor e o empenho desastrado – e os resultados pífios.

As finalizações de Zico eram refinadas obras de arte. Nunca batia na bola da mesma forma. Cada toque segundo a jogada exigia.

Quando se tratava de falta, a perfeição nos deixava incrédulos. Praticou o mesmo milagre vezes sem fim e mesmo assim era difícil de acreditar. Havia perfeição no chute, no desenho descrito pela bola. Antes que ela vencesse a barreira já era possível saborear o gol. Nenhum goleiro pegaria aquela bola, nenhuma trave ou rede se recusariam a acolher aquela obra-prima.

Tudo isso pertence à mágica e à fantasia do futebol.

Mas também isso é apenas aparência.

Ao contrário da crença brasileira de que tudo na vida depende de um golpe de sorte e de improvisação, Zico, que parecia improvisar sempre, jamais improvisava. Ou improvisava sempre, não improvisando. Quando menino, assistia os irmãos mais velhos a jogar – Tonico, Edu, Antunes e Nando, igualmente craques – e, ao ver um drible bem dado, um chute certeiro, um lançamento preciso, ele pegava a bola, ia para um canto da rua e, enquanto não repetisse a jogada com perfeição, não descansava. Voltando ao jogo, executava a jogada.

Assim se exercitava após os treinos do Flamengo. Colocava uma camisa no ângulo da trave e batia faltas. Dezenas de faltas. O objetivo era atingir a camisa. Era isso que víamos nos jogos – e parecia o mais acidental dos improvisos.

Tudo que conquistou resultou de uma dedicação imensa.

Eis porque é difícil escrever sobre Zico. Ele é desses brasileiros que desmentem vícios e manias nacionais. Uma imagem invertida no espelho. Nunca foi falso malandro. Colocava em tudo um caráter de primeira qualidade. No trato com companheiros de jogo, na maneira de enfrentar os adversários, a imprensa, o país. Sempre agindo com um senso ético irretocável.

Não improvisava, não dava jeitinho, não acreditava em sorte. Acreditava em disciplina, segundo um rigor quase kantiano – um Kant do bairro de Quintino, é claro, digno de seu pai, o sólido português José Antunes Coimbra.

Eis o espantoso em Zico. De suas mágicas, foi a maior.

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