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 | Miguel Nicolau/Especial para a Gazeta do Povo
| Foto: Miguel Nicolau/Especial para a Gazeta do Povo

Aos mais antigos, a ideia de uma partida de sinuca olímpica ofende. “Leite de pato, não. Sinuca é grana. Grana na caçapa”, ensina o oficial reformado da Marinha Dermival de Moraes (aliás, Bigode). Sinuca não é passatempo de capadócios e é mais do que um esporte. Mistura coreografia e geometria analítica. Nostalgia e estirpe.

Assim, desconfie do sujeito que chega no salão sugerindo um jogo só para brincar. Provavelmente ele quer te macaquear.

Eu cheguei a conhecer o Brasil que jogava bilhar para valer. Não existe mais. Os salões estão vazios, fechados. Os feltros gastos, os tacos tortos, as bolas lascadas. Todos estão mortos. Não há mais os clubes. Um ou outro bar ainda toma cuidado com a mesa. O do Bigode, na Fazendinha, é um destes. Há na cidade mais um punhado.

Bigode viveu o tempo mágico de alta malandragem nas décadas de 1960 e 1970. A rotina de marinheiro em Santos era assim: fora da escala do navio, o tempo era dentro dos salões do centro velho de São Paulo. Viver era um conto de João Antônio.

Ele presenciou o apogeu do lendário Carne Frita. “Era um bailarino, um verdadeiro artista. Transformava as partidas em espetáculos e era capaz de jogar por dias seguidos”, lembra Bigode.

Havia outros, como o famigerado Lincoln, que sofria de uma úlcera inclemente, tratada à base de mingau, que levava numa garrafa térmica. “Os grandes mesmo não bebiam enquanto jogavam”, observa Bigode.

Uma partida de sinuca é um acontecimento do tamanho de uma batida de carro. Ou seja, é preciso que o povo pare para ver. Não há solidão mais cruel que a de dois finórios jogando uma melhor de cinco sem ninguém a observar. É preciso circunstantes, curiosos, aposentados, gigolôs, alcoólatras, escroques de toda a cepa candidatos a próxima mão ao redor. Este círculo a tradição batizou de curriola. Sem a curriola, não há sinuca.

“É como na vida da gente, quem não tá jogando, tá é na curriola...”

Mandam os costumes que sempre que algum jogador se dá bem (faça a limpa na revoada de patos e marrecos), ele não deve se ausentar do salão sem deixar depositada a “estia” (em geral 10% dos proventos) para alegria da curriola. Tem malandro que só não morreu por causa da estia.

A grande lição deste jogo nobre é que sempre há uma saída. Nisso, ele é superior à vida. Nela, o destino volta e meia nos deixa pelos vinte com o taco mais fraco e medo de errar. Só nos deixa a tabela. Na sinuca, sempre dá para usar o efeito que foi feito justamente pra gente tentar.

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