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Nadja, Ranieri e Giovana posam inspirados pelo universo de seus personagens, que fumarão durante a peça (se a lei permitir) | Daniel Derevecki/Gazeta do Povo
Nadja, Ranieri e Giovana posam inspirados pelo universo de seus personagens, que fumarão durante a peça (se a lei permitir)| Foto: Daniel Derevecki/Gazeta do Povo

Intercâmbio

Autor será apresentado aos franceses

A literatura de Paulo Leminski ainda não foi traduzida para o francês. É uma questão de tempo. O contato da Companhia Brasileira de Teatro com a Compagnie Jackart (inaugurado no projeto Copi, de 2007, e aprofundado em agosto durante o Fórum Teatral França/Brasil) apresentou o autor curitibano ao diretor francês Thomas Quillardet. E este, em seguida, sugeriu com sucesso o nome do brasileiro à Maison de La Poésie – uma casa acostumada a abrir espaço para autores desconhecidos de diferentes cantos do mundo.

O Sábado Paulo Leminski foi agendado para 20 de fevereiro próximo, em Paris. No evento, as duas companhias – a francesa e a brasileira – apresentarão uma performance bilíngue com textos de Leminski. E Áurea, a filha do poeta morto há 20 anos, participará de um sarau no bar do teatro, onde os escritos de seu pai serão alvo de leituras críticas e dramáticas.

Em ação

O trabalho de apresentação de Leminski aos franceses começou antes, em novembro, com oficinas de artes cênicas para estudantes de lá e o início dos esforços para traduzir suas crônicas, ensaios e 50 poemas. (LR)

Tão logo a Companhia Brasileira de Teatro abriu sua sede curitibana em setembro do ano passado, o diretor Márcio Abreu e as atrizes Giovana Soar e Nadja Naira se puseram a folhear a obra de Paulo Leminski, pensando no espetáculo que estreariam em 2010, incentivado pela Petro­­bras. Seu ponto de partida era Vida: uma compilação de biografias de Jesus Cristo, Trótski e dos poetas Mat­suo Bashô e Cruz e Souza. Não tinham ideia do quanto aproveitariam daqueles escritos, se as quatro trajetórias ou apenas uma inspiração.

Mais de um ano de trabalho depois, a peça Vida entrou na etapa de ensaios e se definiu como uma dramaturgia original, mas "contaminada" pelo espírito pro­­vocativo do poeta paranaense e pelos assuntos que lhe interessavam – a cidade, o exílio e as transformações (inclusive físicas) acarretadas pelo contato com outras pessoas. A estreia está assegurada para março do próximo ano durante o Festival de Curitiba, no Teatro José Maria Santos, que abre uma exceção recebendo um espetáculo da Mostra Contem­­porânea.

Até o momento, são as negativas que melhor descrevem o projeto. "Não vai ser uma adaptação de um texto do Leminski. Nem de Agora É Que São Elas nem de Vida nem de um poema", diz Nadja. Catatau, ditando o fluxo (nem fragmentado nem uma história completa), deve estar mais presente na encenação, em que as duas mulheres da companhia contracenam com os atores Ra­­nieri Gonzales e Rodrigo Fer­­ra­­rini. O quarteto terá ainda a companhia, no palco, de André Abu­­jamra, que assina a trilha sonora.

Do livro homônimo, o que resiste é o olhar sensível para as biografias. Os personagens biografados, porém, são outros. Cha­­mam-se Nadja, Ranieri, Ro­­drigo e Giovana, como seus in­­térpretes, e guardam mais semelhanças, uma vez que os atores investiram "coisas pessoais" na composição – "Criamos cenas muito íntimas", diz Ra­­nieri. Ao mesmo tempo, não deixam de ser estranhos a eles. E "cu­­ritibanos": "Eles são de fora, mas são daqui. Como Paulo [Le­­mins­­ki], que se sentia meio exilado e meio preso neste lugar", compara Nadja.

Filosofia ordinária

O texto de Vida não está pronto ainda: há um roteiro de três horas pedindo para ser editado e dez cenas já elaboradas, a partir de exercícios e situações despertadas pela leitura de Leminski. "Temos desde diálogos bem ordinários, que falam do clima, a mais ‘filosofados’", conta Nadja. O grupo busca equilíbrar esses opostos.

Na ausência do diretor Márcio Abreu, em viagem à França (leia o quadro ao lado), Ranieri, Nadja e Giovana tateiam ao tentar explicar mais claramente o espetáculo que contróem. "Caótico, dramático, político", diz ele. "Es­­quisito, meio extremos", sugere, sobre os personagens, a iluminadora Nadja. "Está mais a cara da Companhia Brasileira do que do Leminski", acrescenta Giovana.

A "esquisitice" dos personagens entra no jogo para que o cotidiano ganhe eco – e seja percebido como se visto por uma lente de aumento, com suas distorções. A personagem de Nadja, por exemplo, praticamente não fala, mas quando finalmente o faz, é uma avalanche. O Ranieri fictício só canta uma música a vida inteira, um lamento sem letra.

Exilados, estranhos – e musicais: os quatro se encontram com a desculpa de formar uma banda. Assim sendo, os atores se viram para dar conta de cantar, dançar e tocar. Já até brincam que o nome do grupo vai mudar: "Companhia Brasileira de Dança... Companhia Brasileira de Sapateado...".

Marco

A expectativa ao redor de Vida está menos relacionada ao fato de estrear sob a pressão do festival (quando as atenções da im­­prensa nacional se voltam a Cu­­ritiba), do que ao significado que a peça possa adquirir na trajetória do grupo: um marco de amadurecimento.

"Talvez passemos para outro estágio de criação na companhia, pelo patrocínio da Pe­­tro­­bras [nos últimos dois anos], por poder fazer um ano e meio de pesquisa, por trabalharmos com pessoas que já conhecemos, com preparação vocal e o Abujamra na trilha...", lista Giovana. "O resultado desta peça – pode ser que eu esteja enganada – vai ser diferente."

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