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Grande romancista português

  • PorMiguel Sanches Neto,especial para a Gazeta do Povo
  • braga, portugal
  • 21/03/2016 16:32
 | Miguel Nicolau/Especial para a Gazeta do Povo
| Foto: Miguel Nicolau/Especial para a Gazeta do Povo

Uma ficção que quer ser poesia do cotidiano, uma linguagem narrativa que sonha ser metafórica e ao mesmo tempo compreensiva – é assim que podemos tentar definir o estilo de Afonso Cruz (Figueira da Foz, 1971) em Flores (Companhia das Letras em Portugal, 2015). Seu procedimento de escrita se aproxima ao de Mia Couto, neste projeto de dar alma a frases que funcionam sozinhas. A prosa assume uma cadência aforística e o leitor vai fazendo pequenas paradas líricas:

“E, enquanto o padre mandava o pó voltar ao pó, eu abençoava Deus com blasfêmias” (p.16).

“As mães são as fiéis depositárias de nossa infância” (p.80).

“O trabalho de recuperar a memória deveria ser a nossa profissão” (p.102).

“Uma bengala é um guarda-chuva para dias de sol” (p. 180).

O centro enunciante deste romance é um verso de São João da Cruz: “entremos mais dentro da espessura”, espécie de mantra repetido por um personagem enigmático, o senhor Ulme, um homem que perdeu toda a memória e que está em uma viagem rumo ao fim.

Duas correntes existenciais se cruzam no livro. Por um lado, o narrador sofre o fim de um casamento podre, tendo que aprender a lidar com a sua filha e a superar as suas manias. Por outro, tenta desvendar Ulme para si próprio, uma vez que este foi esvaziado das lembranças e não guarda nem mesmo a imagem de um corpo nu de mulher.

No meio desta tarefa de reconstrução de uma trajetória tão próxima conquanto indevassável, o narrador, um escritor, mantém uma conversa imaginária, experimentando como realidade as histórias que cria. Ao garimpar os difíceis dados sobre a vida de um homem que ora é apresentado como pessoa do bem, ora como delator na época do salazarismo, vai surgindo não uma biografia e sim um mundo historicamente apagado, como se o livro o tirasse da inexistência a que fora condenado. Tudo assume um sentido simbólico nesta volta à vila onde Ulme viveu e conheceu o amor com uma das irmãs Flores. A busca culmina na descoberta de um golem, um gigante feito por Ulme com os recortes de jornais sobre os episódios mais terríveis do mundo. Este ser da lenda judaica teria o poder de se mover e envergonhar as pessoas, o que não acontece talvez porque já não nos envergonhemos de nada. É neste plano mítico-poético que se ergue o romance, uma espécie de golem feito de pedaços.

Diante das informações precárias, o narrador desenvolve uma afetividade pelo vazio da memória do outro, fazendo com que o presente o preencha de alguma maneira. Pelo movimento até o passado do vizinho, promovendo seu reencontro com um corpo feminino, o narrador conquista também um porto, tanto com a nova namorada (enfermeira de Ulme) quanto com a filha. É sempre na atenção ao outro que surge a equação amorosa.

Em capítulo breves e histórias inusitadas, sem artificialismos textuais, Flores aposta na leveza ao tratar de uma vida a caminho do esquecimento total. Consagrado por outros livros, Afonso Cruz é avesso a uma postura aridamente intelectual, ocupando um lugar à parte na literatura portuguesa por sua profunda comoção pelas pessoas e pelas formas suaves de expressão em prosa.

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