A literatura, boa ou má, jamais deixou de ser fonte de argumentos e roteiros para o cinema. Na maior parte das vezes, grandes romances perdem a alma quando adaptados. Talvez porque, mais do que nas histórias que contam, suas maiores qualidades estejam no habilidoso uso da linguagem, na dicção particular do escritor, capaz de transportar o leitor a outras dimensões, sejam elas paisagens geográficas ou estados emocionais, sobretudo quando o leva a um mergulho na subjetividade dos personagens. Traduzir tudo isso sob a forma de imagens em movimento é quase impossível e, não raramente, o sublime se esvai na banalidade.
Por conta dessa limitação, alguns livros medianos, senão medíocres, como O Poderoso Chefão, de Mario Puzo, podem originar obras-primas. Nas mãos de um diretor outrora talentoso como Francis Ford Coppola, a sangrenta e melodramática história da família Corleone, clã da máfia siciliana ramificado nos Estados Unidos, ganhou transcendência e grandiosidade, transformando-se em saga épica. Isso porque o milagre do cinema não se dá (apenas) no âmbito da palavra. Mas na construção visual de cenas, costuradas entre si por uma edição que permita à narrativa uma fluência visual alinhada às intenções do cineasta.
Há, ainda, o trabalho de direção de atores, que precisam não apenas compreender seus personagens, mas neles se transformar diante da câmera. Assim se dá o encontro mágico entre filme e espectador, tão bem representado e discutido por Woody Allen no sublime A Rosa Púrpura do Cairo.
Metalinguagem
Na produção cinematográfica recente, algumas adaptações de obras literárias, que muitos julgavam impossíveis de serem "transportadas" para a tela grande, resultaram em filmes notáveis. Entre elas, o romance Reparação, do escritor britânico Ian McEwan, livro com forte intertextualidade, por desdobrar sua narrativa em duas, uma real e outra fictícia, sem que o leitor se dê conta disso. A história que conta acaba tendo tanta relevância quanto a discussão sobre os artifícios utilizados pela literatura para enredar, quem a lê. McEwan, portanto, está falando, em Reparação, do poder manipulador de seu ofício de escritor.
Em Desejo e Reparação, versão do livro para o cinema, o roteirista Christopher Hampton consegue manter praticamente ilesa essa intenção melingüística, sem a qual o filme de Joe Wright resvalaria no melodrama e perderia grande parte do seu impacto. Contaria a trágica história de amor entre Robbie (James McAvoy) e Cecilia (Keira Knightley), interrompida pelo equívoco cometido por Briony (Saoirse Ronan), irmã mais nova da protagonista, ao delatar um falso estupro. Apenas isso.
A mesma capacidade de transpor uma estrutura narrativa complexa se dá em As Horas, do britânico Stephen Daldry. Baseado no premiado romance do norte-americano Michael Cunningham, oroteiro de David Hare consegue emprestar fluência, visualidade e impacto dramático a uma trama que entrelaça as trajetórias de três mulheres, de gerações distintas, mas todas de alguma maneira interligadas pelo romance Mrs. Dalloway, da inglesa Virginia woolf, uma das protagonistas da trama, vivida por Nicole Kidman.
Outro excepcional roteiro adaptado de um livro, no caso uma autobiografia, é o de O Escafandro e a Borboleta, baseado na obra homônima de Jean-Dominique Bouby. O autor era editor da Elle francesa quando sofreu um acidente vascular cerebral devastador, que o deixou completamente imobilizado, aprisionado no próprio corpo e capaz de mover apenas as pálpebras de um dos olhos. Graças a esse movimento que lhe restou, e a um método criado por sua fonoaudióloga, Bouby é capaz de ditar suas memórias, brilhantemente transpostas para a tela pelo diretor norte-americano Julian Schnabel.