Todos os olhos se voltam ao Japão após o trágico terremoto fartamente registrado por agências de notícias internacionais e pela própria população do país. Mas, e se ele tivesse ocorrido em um país em desenvolvimento e menos tecnologizado, haveria a mesma repercussão?
Em um mundo cercado pelas câmeras, "perdemos a referência, isto é, apenas aquilo que é transformado em imagem tem o direito de ser visto, percebido, sentido", diz a jornalista Ana Paula da Rosa, mestre em Comunicação em Linguagens pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP) e doutoranda em Ciências da Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). A autora do livro Guerra de Imagens:Agendamento e Sincronização Social do Olhar (2008), concedeu entrevista à Gazeta do Povo para falar do assunto. Confira.
Em um mundo mediado por imagens, é comum ouvir que "o acidente foi tão ruim que parecia um filme".
Primeiro, o mundo não é apenas mediado pelas imagens, ele é feito de imagens, uma vez que as elas deixam de ser "janelas para o mundo" e se tornam cada vez mais janelas para si próprias, ou seja, autorreferenciais. Quando vemos uma imagem do 11 de Setembro, automaticamente, nos remetemos à imagem das torres gêmeas em chamas. Isto significa que o nosso repertório iconográfico individual passa a ser constituído por essas imagens já vistas e replicadas.
Então, se um acidente parece um filme, está implícito que ele não parece real, parece apenas uma imagem e se aproxima da ficção. As imagens permitem que o acontecimento jornalístico, diferenciando-se aqui da noção de fato, aconteça diante dos olhos, ou seja, é possível sentir o horror, ouvir o grito, estremecer diante da onda remexendo pessoas, casas, vidas. Contudo, isto torna esse acontecimento real e tangível? Não, ele torna existente, ele afeta quem lê o jornal, quem acessa um vídeo na internet, pois a pessoa sente, chora, se preocupa, mas ainda assim o fato está distante, não conseguimos dimensionar sua extensão.
O fato de tanta gente hoje, e não apenas fotógrafos e cinegrafistas, registrarem um mesmo episódio é positivo?
Estamos vivendo um momento de midiatização e não apenas de mediação. A midiatização se refere ao fato de que as lógicas que antes eram restritas às instituições midiáticas passaram a ser apropriadas por atores individuais e por instituições que não estão ligadas com a mídia diretamente. Nesse processo, os indivíduos passaram a dominar o conhecimento sobre como editar um vídeo, fotografar, fazer imagens panorâmicas, produzir animações, postar "notícias" em blogs e no Twitter.
Essas imagens são positivas no momento em que temos percepções diferentes, contrapontos, tão essenciais ao jornalismo. Contudo, um dos sintomas da chamada crise da visibilidade é que adotamos, geralmente, as perspectivas pré-existentes. Por exemplo, ainda que eu possa produzir uma imagem diferente do Japão, geralmente acabo reproduzindo em minhas imagens a perspectiva já transmitida pelos próprios meios de comunicação. Então, de um lado temos uma gama maior de visões, de capturas da situação; de outro lado, temos um emaranhado de imagens que só se tornam relevantes quando são amplamente divulgadas e ingressam em uma outra categoria que é a de símbolo.
Também causou espanto ver japoneses vivendo aquela situação calamitosa sem parar de filmar.
Os dispositivos se tornaram extensões de nossos olhos, porque eu posso ver o horror de um crime, mas se não registrá-lo, ele deixa de ser tangível e, portanto, é inexistente. No entanto, como dizer que o fato não ocorreu realmente? É óbvio que o terremoto e o tsunami são inegáveis, mas é difícil abordar essa tragédia dissociada das imagens.
As pessoas, hoje, são convocadas diariamente a contribuir com as instituições midiáticas, a ideia de participação se disseminou e, naquela situação, filmar o horror é uma forma de participação, seja de registrar a devastação, seja uma forma eternizar aquilo que jamais será como antes, seja um grito de socorro ecoando.
A produção de imagens por "amadores" demonstra este novo aspecto da vida contemporânea que é a midiatização, isto é, os dispositivos nos propiciam uma nova forma de vida, uma ambiência na qual o fazer, que antes era restrito ao jornalismo, se torna social, partilhado. Acredito que, no caso específico do Japão, não é que as pessoas não estivessem preocupadas em olhar para os fatos, mas esse olhar, hoje, é perpassado pelo olhar da mídia, pelos dispositivos. Eu posso ver, mas eu prefiro (e preciso) fotografar, filmar, nem que seja com o celular. A pergunta que vem na esteira é: para quê?
São muitos os espaços onde essas imagens podem aparecer. Grande parte dos noticiários passou a empregar as imagens produzidas por anônimos, além disso, há os dispositivos partilhados pelos indivíduos. As imagens correm o mundo via internet, e o Youtube, em minha concepção, tornou-se, hoje, um receptáculo de todas as imagens do mundo e vai se constituindo, gradativamente, em nossa memória prótese. Ali é possível ver imagens de vários acontecimentos, montagens, criações, transmissões ao vivo, pois aquilo que já não cabe mais em nossa memória, cabe na memória midiática, extensora, do Youtube. Não há nada mais contemporâneo do que a voluntarização para se transformar em imagem.
Tantas imagens não serviriam, em boa medida, para alimentar uma atração mórbida do ser humano?
A discussão ética é indispensável no que tange às imagens. Todos temos um lado, ainda que inconfesso, um pouco voyeur. O Big Brother Brasil é a prova de que gostamos de dar uma espiadinha no comportamento do outro. Mas há uma diferença enorme entre explorar a dor do outro e ver a sua dor.
Imagens do Japão nos informam e consternam, mas não são mórbidas, só se tornam quando passam a ser exploradas em demasia, quando passamos a contemplar estas imagens como se não tratassem de pessoas, de vidas. O que seria ético neste caso, o fotógrafo deixar de registrar e socorrer as vítimas ou registrar as imagens e deixar que o público as preencha de sentido? Na minha visão, nenhuma das duas hipóteses. Deixar de registrar seria deixar o fato invisível, sem pontos de vista e permitindo atitudes governamentais que possam infringir direitos humanos, principalmente no que diz respeito à usina nuclear, além disso, socorrer uma vítima pode ser muito menor do que divulgar a tragédia para que o mundo se mobilize e socorra várias vítimas.
No entanto, não basta apenas registrar e publicar. Falta hoje espaços para discutir aquilo que se publica, interpretação, profundidade. Não somos educados para analisar as imagens que consumimos e às vezes, nem mesmo, as que produzimos.



